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Renúncia do chefe de contraterrorismo expõe disputa interna nos EUA sobre guerra contra o Irã

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O presidente dos EUA, Donald Trump. (Foto: JIM LO SCALZO/EFE/EPA)

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O diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos, Joe Kent, publicou nesta segunda-feira (17) uma carta na qual anunciou sua renúncia ao cargo e justificou a decisão com críticas à guerra contra o Irã, iniciada após ataques americanos e israelenses contra Teerã em 28 de fevereiro.

Na carta, divulgada na rede social X, Kent afirmou que não poderia apoiar o conflito em curso no Irã e disse que o país persa “não representava uma ameaça iminente” aos EUA. A declaração foi contestada pela porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, que, em resposta à publicação, defendeu a decisão do presidente Donald Trump de autorizar a operação militar. O episódio evidenciou divergências dentro do próprio governo Trump sobre a condução do conflito contra o regime islâmico.

Kent escreveu que apoiava a política externa defendida por Trump nas campanhas eleitorais de 2016, 2020 e 2024, mas afirmou que o atual conflito repete “erros do passado”. Segundo ele, a decisão de Trump de autorizar os ataques contra o Irã teria sido “influenciada” por "pressões de autoridades de Israel" e pelo que descreveu como um “poderoso lobby israelense” nos Estados Unidos, que, de acordo com sua carta, teria “promovido uma campanha” para convencer o governo americano de que havia uma ameaça iminente de Teerã contra Washington.

“Não posso apoiar enviar a próxima geração para lutar e morrer em uma guerra que não traz benefício ao povo americano”, escreveu ele.

Em resposta no post de Kent, a porta-voz Leavitt afirmou que a carta do agora ex-diretor de contraterrorismo contém “várias alegações falsas” e rejeitou a afirmação de que o Irã não representava ameaça imediata aos EUA. Segundo ela, o presidente Trump tinha “fortes e convincentes evidências” de que o regime iraniano preparava um ataque contra Washington.

Leavitt também declarou que a decisão de lançar a operação militar foi tomada com base em informações de diversas agências de inteligência e teve como objetivo impedir que Teerã avançasse em seu programa nuclear.

“O presidente determinou que um ataque conjunto com Israel reduziria o risco para vidas americanas e enfrentaria uma ameaça iminente à segurança nacional”, escreveu.

A porta-voz também negou que a decisão tenha sido influenciada por outros países. Segundo ela, a acusação de que Trump agiu sob pressão externa, como a de Israel, é “absurda” e ignora um fato que Trump defende há décadas: o de que o Irã não pode obter armas nucleares.

Trump comentou a renúncia de Kent durante coletiva na Casa Branca. O presidente classificou o ex-diretor de contraterrorismo como “fraco em questões de segurança” e considerou positiva a saída dele após ler sua carta questionando a guerra.

“Quando li sua declaração, percebi que foi bom ele ter saído, porque ele disse que o Irã não era uma ameaça. O Irã era uma ameaça”, disse.

Divisão na Casa Branca e no Maga sobre a guerra

Desde o início da ofensiva contra o Irã, o movimento Maga (Make America Great Again), que compõe a principal base eleitoral do presidente Trump, passou a demonstrar divergências sobre a decisão de entrar e manter a guerra no Oriente Médio. Parte dos aliados do presidente defende a operação militar, enquanto outro grupo argumenta que o conflito contraria a promessa de evitar novas intervenções externas.

O comentarista e jornalista conservador Tucker Carlson foi um dos membros do Maga que se opuseram à guerra em curso no Irã. Carlson tem feito críticas frequentes contra o conflito e, recentemente, disse que poderia se tornar alvo de investigação da Agência Central de Inteligência (CIA) por ter mantido contatos com interlocutores no Irã antes da guerra, o que, segundo ele, estaria sendo usado para tentar enquadrá-lo na legislação que regula a atuação de agentes estrangeiros. Além dele, a jornalista Megyn Kelly, que apoiou o Maga e Trump nas eleições de 2024, também fez críticas contra a guerra.

Pesquisas divulgadas pela imprensa americana indicam que a maioria dos eleitores republicanos apoia a ação militar, mas há divisão entre apoiadores que se identificam com o movimento Maga e setores mais tradicionais do Partido Republicano. Entre os eleitores mais alinhados ao discurso contra a guerra no Irã, cresce a preocupação com o risco de um confronto longo e com seus efeitos sobre a economia americana.

Além da base Maga, a divisão também atingiu a própria Casa Branca. De acordo com informações publicadas pela agência Reuters e pelo jornal Politico, assessores do governo Trump discordaram sobre a condução da operação contra o Irã e sobre a duração da campanha militar no país persa. Integrantes da equipe econômica da Casa Branca teriam alertado para o impacto da guerra no preço do petróleo e no custo de vida nos Estados Unidos, enquanto aliados mais alinhados à área de segurança defendem manter a pressão sobre o regime iraniano até que sua capacidade nuclear e militar seja neutralizada.

As divergências envolveram inclusive o vice-presidente J.D. Vance. Segundo autoridades do governo ouvidas pelo jornal Politico, Vance demonstrou ceticismo antes do início dos ataques contra o Irã. Após o início da operação, no entanto, o vice-presidente passou a defender publicamente a decisão de Trump.

Nesta segunda-feira (16), Vance afirmou confiar na condução do conflito por Trump e disse acreditar que o governo evitará repetir erros de guerras anteriores no Oriente Médio.

“Confio no presidente Trump para garantir que os erros do passado não sejam repetidos”, declarou durante coletiva na Casa Branca.

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