Soldado ucraniano em posição na linha de frente contra separatistas apoiados pela Rússia, na região de Donetsk, 5 de abril
Soldado ucraniano em posição na linha de frente contra separatistas apoiados pela Rússia, na região de Donetsk, 5 de abril| Foto: AFP

A Rússia aumentou a presença militar na fronteira com a Ucrânia, suscitando temores de uma ampla escalada na guerra civil entre ucranianos e separatistas apoiados pela Rússia na região de Donbass, onde as violações de um cessar-fogo são cada vez mais frequentes. Ao menos 24 militares ucranianos morreram no conflito no primeiro trimestre de 2021, segundo o presidente do país, Volodymyr Zelensky, além de um número desconhecido de baixas entre os rebeldes.

Relatos, fotos e vídeos postados em redes sociais mostram movimentação de um grande número de tanques e blindados na Crimeia, território ucraniano anexado pela Rússia em 2014, e perto da fronteira entre a Rússia e a zona do conflito separatista em Donbass. De acordo com uma reportagem do New York Times, um oficial americano estimou que cerca de 4 mil soldados foram enviados à fronteira recentemente, mas essas projeções variam.

O comandante do Exército da Ucrânia, general Ruslan Khomchak, disse que a Rússia implantou 28 grupos táticos perto da fronteira leste da Ucrânia e na Crimeia, o que totalizaria algo em torno de 20 mil soldados. Ele também disse que a Rússia tem quase 3 mil oficiais e instrutores militares nas unidades rebeldes no leste da Ucrânia.

A Rússia não negou a mobilização de tropas na fronteira, mas não informou números e disse que os movimentos são defensivos e não apresentam ameaça. Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, afirmou na semana passada que é direito da Rússia movimentar suas tropas pelo país como desejar e que isso não deveria preocupar ninguém. A notícia, porém, deixou a Ucrânia e a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) em alerta.

O ministro ucraniano das Relações Exteriores, Dmytro Kuleba, acusou a Rússia de um "agravamento sistemático" da situação em Donbass. O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, disse que "exercícios militares e possíveis provocações ao longo da fronteira são jogos tradicionais russos".

A Otan acredita que a Rússia está minando os esforços para reduzir as tensões no leste da Ucrânia. Após uma reunião dos embaixadores da organização na semana passada, um oficial da Otan disse à Reuters que os "aliados compartilham a preocupação sobre as recentes atividades militares em grande escala na Ucrânia [Crimeia] e no entorno [do país vizinho]". "Os aliados também estão preocupados com as violações russas do cessar-fogo de julho de 2020, que resultaram na morte de quatro soldados ucranianos na semana passada", acrescentou o funcionário que preferiu manter o anonimato para discutir o assunto.

O conflito no leste da Ucrânia está congelado há anos, mas bombardeios e escaramuças ainda ocorrem regularmente. As violações do acordo de cessar-fogo estão cada vez mais frequentes, segundo relatórios diários da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). O mais recente, de 3 de abril, indica que houve 453 explosões naquele dia apenas nos arredores de Donetsk.

A situação fez com que o Comando dos Estados Unidos na Europa (EUCOM) elevasse o nível de vigilância na região. Nesta segunda-feira, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Ned Price, disse à imprensa que o país está "preocupado com a recente escalada de agressões russas no leste da Ucrânia", inclusive com "os relatos credíveis sobre os movimentos de tropas russas nas fronteiras da Ucrânia e da Crimeia ocupada".

Price também salientou que o presidente dos EUA, Joe Biden, garantiu ao homólogo ucraniano que continuará apoiando o país contra as ameaças da Rússia. Em um telefonema com Zelensky, Biden reafirmou "o apoio inabalável dos Estados Unidos à soberania e integridade territorial da Ucrânia em face da contínua agressão da Rússia no Donbass e na Crimeia".

Neste contexto, Zelensky pediu à Otan que acelere o processo para tornar a Ucrânia um membro da aliança, afirmando que esta é a única maneira de acabar com a luta contra os separatistas pró-Rússia. "A Otan é a única maneira de acabar com a guerra em Donbass. A associação da Ucrânia será um sinal real para a Rússia", tuitou ele após um telefonema com o secretário-geral da organização, Jens Stoltenberg, nesta terça-feira (6).

Essa mobilização de apoio à Ucrânia também gerou reações do lado russo. Ao explicar a movimentação das tropas russas na fronteira com a Ucrânia, Peskov disse também que "ao longo do perímetro das fronteiras da Rússia há um aumento da atividade das forças armadas dos países da Otan, outras associações, países individuais e assim por diante". Segundo o porta-voz, "tudo isto nos obriga a estar atentos". Os russos também acusam a Ucrânia de aumentar a presença militar na região de Donbass.

Risco de guerra?

Segundo o jornalista e analista do Carnegie Moscow Center, Maxim Samorukov, as tensões entre Rússia e Ucrânia começaram a aumentar com a crescente frustração de Kiev com Moscou nas negociações de paz em Donbass, que veio acompanhada de uma grande insatisfação do eleitor ucraniano com Zelensky. Para melhorar sua popularidade em casa, o presidente da Ucrânia lançou mão de uma postura anti-Rússia, mais agressiva nas negociações com o Kremlin sobre o conflito.

Apesar disso, os países afirmam que não querem escalar o conflito na região. Uma guerra neste momento seria desvantajosa para ambos. Samorukov explica que, para a Ucrânia, uma ofensiva em Donbass daria um pretexto para a Rússia, que diz estar comprometida em apoiar as repúblicas autoproclamadas de Donetsk e Lugansk, invadir a região – o que minaria ainda mais o apoio político a Zelensky. Para a Rússia, uma guerra também pode não ser um bom negócio, já que haveria uma renovada pressão do Ocidente sobre a Rússia.

"O propósito do atual aumento da presença militar, portanto, se limita a demonstrar a Kiev e Washington que a Rússia está preparada para responder com força a qualquer tentativa militar de mudar o status quo no Donbass. A ostentação com que as tropas estão sendo movidas confirma que a Rússia está exibindo sua força militar, em vez de contemplar uma blitzkrieg [guerra-relâmpago]", concluiu Samorukov, lembrando que isso não impede que a crise saia do controle acidentalmente.

Na opinião de James Sherr, analista de política externa, de defesa e segurança da Rússia, o cenário mais provável para os recentes acontecimentos em Donbass é uma "escalada localizada, dramática e devastadora" que resulte na implantação de "soldados da paz" russos na atual linha de demarcação entre os lados ucraniano e separatista. Desta maneira, a Rússia "teria o mérito de preservar os arranjos territoriais existentes". Ainda assim, ele alerta que esse cenário só ocorreria se houvesse uma agressão por parte da Ucrânia. "É possível que esses rumores de guerra se dissipem como outros no passado. Mas se não, ninguém deve se surpreender", escreveu.

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