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Ao anunciar em pronunciamento na noite de quinta-feira (3) que vai aplicar sanções a empresas que explorarem recursos naturais nas Ilhas Malvinas, o presidente da Argentina, Javier Milei, ampliou uma disputa que pode gerar atrito com um grande aliado da sua gestão: o governo de Israel.
Na mira do presidente argentino, está o projeto Sea Lion, para a exploração de uma reserva de petróleo localizada 220 km ao norte do arquipélago controlado pelo Reino Unido, mas que a Argentina reivindica como seu território.
O projeto, que deve começar a extrair petróleo em 2028, é desenvolvido pela empresa britânica Rockhopper e pela israelense Navitas.
Em janeiro deste ano, a emissora israelense Canal 12 relatou que Milei suspendeu o processo de transferência da embaixada da Argentina em Israel de Tel Aviv para Jerusalém – uma promessa de campanha – devido ao Sea Lion.
Segundo a agência EFE, em comunicado conjunto divulgado nesta sexta-feira (4), as duas empresas afirmaram que as licenças “legalmente concedidas” pelo governo local das Malvinas permanecem válidas e que “não se espera que os eventos recentes tenham um impacto material nas atividades do projeto Sea Lion, incluindo o cronograma para a conclusão do desenvolvimento do projeto”.
As medidas anunciadas ontem por Milei, que incluem a construção de uma base naval integrada na província da Terra do Fogo, dentro de cujo território a Argentina considera que estão as Malvinas, foram criticadas pelo governo do Reino Unido.
O ministro da Defesa britânico, Wes Streeting, escreveu no X que “a declaração de Milei durante a noite diz-nos mais sobre a política interna na Argentina do que sobre as Ilhas Falkland” – usando o termo que Londres utiliza para se referir ao arquipélago.
“As Falklands são britânicas porque os habitantes das ilhas escolhem ser britânicos. Nosso compromisso com as Falklands é absoluto e inabalável”, afirmou.
A disputa pelo arquipélago no Atlântico Sul motivou uma guerra entre Argentina e Reino Unido em 1982, vencida pelos britânicos.
Antes da escalada desta quinta-feira, Buenos Aires vinha mantendo diplomaticamente e em organismos internacionais a reivindicação de soberania sobre as Malvinas, embora a incorporação pela Argentina seja rejeitada pela população local: em um referendo realizado em 2013 com habitantes do arquipélago, 99,8% dos moradores disseram que preferiam que as ilhas mantivessem o status de território ultramarino britânico.
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O discurso de Milei veio dias depois de o presidente americano, Donald Trump, ter falado sobre a possibilidade de reavaliar a posição de neutralidade dos EUA sobre a disputa de Argentina e Reino Unido pelas Malvinas.
“Eu sempre revejo todas as posições. Essa é apenas uma entre muitas”, disse Trump sobre a questão, em entrevista coletiva na Casa Branca na segunda-feira (31).
A participação da Navitas no projeto Sea Lion gera desconforto no governo de Israel. Em dezembro de 2025, o ministro das Relações Exteriores israelense, Gideon Sa’ar, disse que, “embora isso envolva uma empresa privada e não uma atividade na qual o governo de Israel participe de qualquer maneira, lamentamos os sentimentos negativos que isso gerou na Argentina neste contexto”.
“Israel mantém relações especiais com a Argentina sob a liderança do presidente doutor Javier Milei, as quais são profundamente valorizadas pelo povo de Israel”, disse Sa’ar, que pediu na ocasião que a disputa entre a Argentina e o Reino Unido seja resolvida por meio do diálogo.
Yair Netayahu, filho do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, aumentou a temperatura da disputa, ao afirmar recentemente no X que as Malvinas são argentinas.
Diante das críticas do Reino Unido, Yair voltou a provocar os britânicos em outro post. “Vocês se ofenderam com meu comentário sobre as Ilhas Malvinas — um punhado de rochas a 8 mil milhas [cerca de 13 mil km] da sua costa? Ótimo”, escreveu.
“Agora imaginem como nós, israelenses, nos sentimos em relação ao reconhecimento, por parte do seu governo, da ‘Palestina’ sobre a nossa terra ancestral da Judeia e Samaria [como os israelenses chamam a Cisjordânia], à negação da nossa soberania sobre a nossa capital, Jerusalém, e sobre as Colinas de Golã, e à constante interferência nos nossos assuntos internos e às críticas hostis ao nosso país”, afirmou.
A ocupação de Israel na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental foi considerada ilegal pela Corte Internacional de Justiça (CIJ) em 2024, entendimento seguido por vários países, entre eles, o Reino Unido.
As próximas semanas dirão se a disputa pelas Malvinas pode interferir na relação de Israel com um dos seus aliados mais próximos nas Américas.






