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Resgate econômico

Show do trilhão

Barack Obama inicia o governo com a previsão de um gasto público recorde. Entenda qual é a preocupação dos economistas em relação ao plano

 | Romeo Ranoco/Reuters
(Foto: Romeo Ranoco/Reuters)

Assombrado pela maior crise financeira desde a Grande Depressão, Barack Obama assume hoje a Presidência dos EUA prometendo um pacote de estímulo fiscal no valor de US$ 825 bilhões. Com mais US$ 350 bilhões da segunda parte do plano de resgate financeiro, a cifra inicial de gastos do novo governo extrapola um trilhão de dólares. A enorme intervenção do Estado para tentar salvar a economia só é comparável ao New Deal de Franklin Delano Roosevelt, que governou o país entre 1933 e 1937. Se para políticos em geral a ideia de que gastar mais é fazer um bem para a sociedade, em teoria econômica o assunto é bem mais controverso.

O teórico por trás da ideia de que o gasto público pode ajudar um país em crise é o economista britânico John Maynard Keynes. Segundo ele, como durante uma recessão o setor privado não investe o suficiente para aumentar a produção, cabe ao Estado colocar dinheiro na economia real e estimular o crescimento econômico. Keynes argumentou que o investimento público gera renda, que aumenta o consumo das famílias. O efeito do gasto público, portanto, seria multiplicador. Cada dólar investido pelo governo aumentaria o PIB do país em mais de um dólar. O déficit de hoje seria compensado no futuro.

Os céticos em relação a essa teoria alegam que há outros efeitos que não podem ser ignorados. Por exemplo, o chamado efeito-substituição. Como o governo está aumentando os gastos, as famílias sabem que terão de pagar mais impostos no futuro. Prevendo isso, passam a poupar mais e gastar menos agora. "O efeito benéfico dos gastos do governo podem então ser corroídos por uma ação precautória das famílias", explica o professor de Macroeconomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Ronald Hillbrecht.

Para lutar contra os dois milhões de empregos que desapareceram nos últimos quatro meses, os US$ 825 bilhões do pacote fiscal de Obama serão divididos em duas partes: corte de impostos (US$ 275 bilhões) e gastos (US$ 550 bilhões). A nova equipe econômica prevê a criação de 3 a 4 milhões de empregos até 2010. A maior parte do dinheiro será direcionada para os estados (veja no box), na tentativa de prevenir cortes em educação e saúde. Essa é a segunda grande discussão sobre o plano: o governo sabe gastar nas áreas certas?

Em artigo recente para o New York Times, o economista de Harvard Greg Mankiw explicou melhor esse problema. Ele cita um exemplo: se você contratar seu vizinho por US$ 100 para cavar um buraco no seu jardim e tapar em seguida, e ele contratar você para fazer o mesmo no jardim dele, as estatísticas do governo vão entender que a economia está melhorando. Dois empregos foram criados e o PIB cresceu US$ 200. Mas é pouco provável, ele diz, que após o tempo gasto para cavar e tapar o buraco, qualquer um de vocês esteja numa situação melhor do que antes.

"As pessoas não costumam gastar seu dinheiro comprando coisas que não querem ou não precisam, então, para as transações privadas, este tipo de gasto ineficiente não é um grande problema. Mas o mesmo não pode ser dito sobre o governo. Se o pacote de estímulo tomar a forma de "pontes para lugar nenhum", o resultado pode ser expansão econômica de acordo com as estatísticas, mas pouca melhora de fato no bem-estar econômico", diz Mankiw.

O economista brasileiro Pedro H. Albuquerque, professor da Universidade do Minnesota, nos EUA, faz um alerta semelhante: "Há o perigo de que, na ânsia de estimular a economia, o governo acabe por promover gastos desnecessários que promovem comportamentos oportunistas e economicamente indesejáveis por parte dos agentes econômicos, prolongando a crise. A política fiscal deveria, portanto, ser utilizada com grande cuidado. Infelizmente, a elaboração de pacotes de estímulo fiscal, como o atual pacote nos EUA, raramente segue princípios econômicos sólidos, e quase sempre termina sendo utilizada como instrumento para o avanço da presença do estado na economia, concentração de poder político, e oferecimento de vantagens econômicas a grupos politicamente privilegiados."

Corte de impostos

Mais do que os parlamentares republicanos, os democratas enfatizam a necessidade de gastos do governo porque julgam que essa é a medida de resultado mais rápido. Do outro lado está a turma que vê o corte de impostos como o melhor estímulo. A esperança destes recai sobre Christina Rommer, escolhida para ser diretora do Conselho de Consultores Econômicos do novo governo. Christina publicou recentemente um estudo que revela que a cada dólar em corte de impostos, o PIB aumenta cerca de três dólares.

"Cabe lembrar, porém, que a história americana apresenta vários exemplos de presidentes que se cercaram de bons economistas, mas nunca lhes deram ouvidos, preferindo adotar políticas econômicas equivocadas que, a despeito de criarem problemas econômicos, produzem benefícios políticos de curto prazo", diz Albuquerque.

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