Colombo - O Sri Lanka divulgou planos para confinar cerca de 200 mil civis tâmeis, moradores do último reduto rebelde no noroeste do país, após o fim da guerra civil. Cidadãos do país, eles terão de permanecer em "vilas'' controladas por militares, até serem investigados e liberados pelo Exército se não tiverem laços com o Tigres de Libertação do Tamil Eelam (TLTE).
Os 32 mil civis que escaparam da linha de frente estão retidos em campos controlados pelo Exército. O governo afirmara que os tâmeis ficariam em "vilas'' por dois ou três anos. Sob pressão da ONU, prevê agora que 80% sejam reassentados ainda em 2009.
"É urgente liberar os deslocados pela guerra'', disse o diretor da Human Rights Watch na Ásia, Brian Adam. O conflito entre a maioria cingalesa, hegemônica no governo, e rebeldes tâmeis já matou mais de 70 mil desde 1983.
Cercados por 50 mil militares e reduzidos a cerca de 2.000 combatentes exaustos, os rebeldes descartam uma rendição. Mas na capital, Colombo, a população comemora o que o governo anuncia desde janeiro como a "ofensiva final'' contra o Tigres Tâmeis, responsável por centenas de atentados suicidas.
"Estão empurrando o Tigres Tâmeis para a selva. Mas isso tornará o Sri Lanka mais seguro?'', questiona Adam, lembrando que o grupo pode continuar a realizar atentados na clandestinidade. Para o analista, há risco de acirramento do radicalismo tamil com a adoção de medidas discriminatórias.
Um homem ateou fogo ao próprio corpo ontem, em frente à sede da ONU em Genebra, em protesto contra a ofensiva militar cingalesa, classificada como "genocídio'' pelos tâmeis. Há duas semanas, tâmeis se reúnem em frente ao prédio para cobrar uma intervenção.
A radicalização atinge também cingaleses étnicos, majoritários. A sede do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) em Colombo foi apedrejada na semana passada, após apelos do órgão pelo fim dos bombardeios a hospitais.
"Felizmente, ninguém ficou ferido'', disse Sarasi Wijeratne, do CIVC, que preferiu não comentar a política de confinamento ou a autoria dos ataques aéreos. "Queremos trabalhar com as autoridades'', disse, lembrando a neutralidade histórica da organização.
Raízes do conflito
O conflito entre tâmeis e cingaleses no Sri Lanka radicalizou-se na década de 1970, mas as tensões remetem à independência do jugo britânico, em 1948, que acirrou o nacionalismo cingalês. A ilha, pouco maior que a Paraíba, é habitada por cingaleses (74%), tâmeis e moors (muçulmanos descendentes de árabes e tâmeis).
Na década de 1950, o cingalês tornou-se língua oficial, restringindo o acesso de minorias ao serviço público e à educação superior. A homogeneização cultural imposta pela Constituição nacionalista de 1972, que dava prioridade ao budismo (religião da maioria cingalesa), agravou as tensões étnicas.



