
Genebra - Leitor, se você está lendo esta reportagem, as previsões mais pessimistas sobre o lançamento da máquina mais poderosa do mundo, o Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês), não se confirmaram. Depois de mais de uma década de preparativos e de bilhões de dólares em investimentos, o acelerador de partículas estava programado para ser testado às 9h da manhã de hoje na Suíça (4 h da madrugada no Brasil).
O LHC é motivo de polêmica há anos, mas a controvérsia chegou ao ápice no início de 2008, quando um grupo de cientistas entrou com um processo nos Estados Unidos pedindo a interrupção do projeto sob a alegação de que o choque entre as partículas criaria um buraco negro e que o fenômeno traria conseqüências desastrosas para a humanidade.
Na semana passada, outro grupo de cientistas apresentou denúncia ante o Tribunal Europeu de Direitos Humanos também pedindo o embargo do projeto. O motivo seria o mesmo já alertado pelos americanos: a criação de buracos negros que acabariam por engolir o planeta.
O equipamento, desenvolvido pelo Conselho Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern, pelas iniciais em francês), pode viabilizar descobertas notáveis, como confirmar a existência de matéria invisível ou de outras dimensões espaciais. O objetivo é reproduzir em laboratório a origem do Universo e o que ocorreu nos segundos que se seguiram ao Big Bang.
No entanto, até mesmo participantes do projeto admitem não saber ao certo qual será o resultado das experiências, isso se houver algum. Milhões de prótons vão percorrer um túnel de 27 quilômetros de extensão composto por ímãs construído no subsolo da região de Genebra. A estrutura passa sob a fronteira da França e depois volta para dentro da Suíça a mais de cem metros de profundidade.
O colisor
O túnel circular construído especialmente para o projeto servirá para garantir que os choques possam ocorrer e que os dados sejam avaliados. O primeiro choque, porém, pode ainda levar alguns meses para ocorrer, porque os cientistas precisam equilibrar a máquina. Eles manipularão os ímãs para que os prótons se choquem.
A estimativa dos físicos que trabalham no projeto é de que um único choque resultará em 1 bilhão de colisões por segundo. Quando o equipamento estiver funcionando, cerca de 200 milhões de partículas resultantes dos choques entre prótons serão armazenadas e analisadas com o auxílio de uma rede global de computadores de alta velocidade, inclusive com a ajuda de cientistas brasileiros.
A grande atenção dos físicos estará numa partícula em especial, a chamada de bóson de Higgs. Ela é a única que ainda não foi observada por humanos, mas é a chave para explicar a origem da massa das outras partículas elementares.
Segundo o Cern, apesar do grande interesse gerado pela experiência, alguns dos resultados levarão meses, senão anos, para serem compreendidos.
Entre outras coisas, espera-se que o LHC ajude a decifrar mistérios da física como a estrutura da matéria, as propriedades das forças fundamentais e as leis que governam a evolução do universo.
Calcula-se que o colisor gerará sete vezes mais energia do que seu rival mais potente, o Fermilab, nos arredores da cidade americana de Chicago.
Fim do mundo
As previsões cataclísmicas são ridículas, asseguram cientistas do Cern, alguns dos quais dedicaram praticamente toda a carreira profissional ao acelerador de partículas, cujos investimentos alcançaram o equivalente a cerca de 8 bilhões de dólares.
No início de agosto, uma equipe do Cern divulgou relatório segundo o qual não há "riscos concebíveis" de que a experiência produza algum acontecimento cataclísmico.
Em sua essência, o documento confirma as conclusões de um trabalho sobre a segurança do projeto elaborado em 2003, avalizadas por cinco destacados cientistas não filiados ao Cern, entre eles um Prêmio Nobel.
"Obviamente o mundo não acabará quando o LHC for ligado", assegurou o cientista Lyn Evans, líder do projeto.
Davis Francis, físico do imenso detector de partículas Atlas, do projeto do LHC, sorriu quando perguntado se alguma dessas hipóteses o preocupava. "Se eu supusesse que isso fosse acontecer, estaria bem longe daqui agora."



