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Ciência

Supermáquina será ligada hoje

Experimento polêmico que testará teoria sobre a origem da massa começa a funcionar na fronteira entre Suíça e França

Parte do túnel do Grande Colisor de Hádrons, em Genebra: maior máquina já criada pelo homem tenta desvendar segredos do universo | Jean-Pierre Clatot/AFP
Parte do túnel do Grande Colisor de Hádrons, em Genebra: maior máquina já criada pelo homem tenta desvendar segredos do universo (Foto: Jean-Pierre Clatot/AFP)
Veja como cientistas suiços farão um feixe de prótons circular quase à velocidade da luz |

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Veja como cientistas suiços farão um feixe de prótons circular quase à velocidade da luz

Genebra - Leitor, se você está lendo esta reportagem, as previsões mais pessimistas sobre o lançamento da máquina mais poderosa do mundo, o Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês), não se confirmaram. Depois de mais de uma década de preparativos e de bilhões de dólares em investimentos, o acelerador de partículas estava programado para ser testado às 9h da manhã de hoje na Suíça (4 h da madrugada no Brasil).

O LHC é motivo de polêmica há anos, mas a controvérsia chegou ao ápice no início de 2008, quando um grupo de cientistas entrou com um processo nos Estados Unidos pedindo a interrupção do projeto sob a alegação de que o choque entre as partículas criaria um buraco negro e que o fenômeno traria conseqüências desastrosas para a humanidade.

Na semana passada, outro grupo de cientistas apresentou denúncia ante o Tribunal Europeu de Direitos Humanos também pedindo o embargo do projeto. O motivo seria o mesmo já alertado pelos americanos: a criação de buracos negros que acabariam por engolir o planeta.

O equipamento, desenvolvido pelo Conselho Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern, pelas iniciais em francês), pode viabilizar descobertas notáveis, como confirmar a existência de matéria invisível ou de outras dimensões espaciais. O objetivo é reproduzir em laboratório a origem do Universo e o que ocorreu nos segundos que se seguiram ao Big Bang.

No entanto, até mesmo participantes do projeto admitem não saber ao certo qual será o resultado das experiências, isso se houver algum. Milhões de prótons vão percorrer um túnel de 27 quilômetros de extensão composto por ímãs construído no subsolo da região de Genebra. A estrutura passa sob a fronteira da França e depois volta para dentro da Suíça a mais de cem metros de profundidade.

O colisor

O túnel circular construído especialmente para o projeto servirá para garantir que os choques possam ocorrer e que os dados sejam avaliados. O primeiro choque, porém, pode ainda levar alguns meses para ocorrer, porque os cientistas precisam equilibrar a máquina. Eles manipularão os ímãs para que os prótons se choquem.

A estimativa dos físicos que trabalham no projeto é de que um único choque resultará em 1 bilhão de colisões por segundo. Quando o equipamento estiver funcionando, cerca de 200 milhões de partículas resultantes dos choques entre prótons serão armazenadas e analisadas com o auxílio de uma rede global de computadores de alta velocidade, inclusive com a ajuda de cientistas brasileiros.

A grande atenção dos físicos estará numa partícula em especial, a chamada de bóson de Higgs. Ela é a única que ainda não foi observada por humanos, mas é a chave para explicar a origem da massa das outras partículas elementares.

Segundo o Cern, apesar do grande interesse gerado pela experiência, alguns dos resultados levarão meses, senão anos, para serem compreendidos.

Entre outras coisas, espera-se que o LHC ajude a decifrar mistérios da física como a estrutura da matéria, as propriedades das forças fundamentais e as leis que governam a evolução do universo.

Calcula-se que o colisor gerará sete vezes mais energia do que seu rival mais potente, o Fermilab, nos arredores da cidade americana de Chicago.

Fim do mundo

As previsões cataclísmicas são ridículas, asseguram cientistas do Cern, alguns dos quais dedicaram praticamente toda a carreira profissional ao acelerador de partículas, cujos investimentos alcançaram o equivalente a cerca de 8 bilhões de dólares.

No início de agosto, uma equipe do Cern divulgou relatório segundo o qual não há "riscos concebíveis" de que a experiência produza algum acontecimento cataclísmico.

Em sua essência, o documento confirma as conclusões de um trabalho sobre a segurança do projeto elaborado em 2003, avalizadas por cinco destacados cientistas não filiados ao Cern, entre eles um Prêmio Nobel.

"Obviamente o mundo não acabará quando o LHC for ligado", assegurou o cientista Lyn Evans, líder do projeto.

Davis Francis, físico do imenso detector de partículas Atlas, do projeto do LHC, sorriu quando perguntado se alguma dessas hipóteses o preocupava. "Se eu supusesse que isso fosse acontecer, estaria bem longe daqui agora."

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