O PIB brasileiro é maior do que o de todos os outros países da América do Sul somados. Sozinha, a Petrobrás, maior empresa do país, tem uma economia três vezes maior do que a da Bolívia, por exemplo. Em população, o Brasil responde por quase metade do subcontinente: para cada venezuelano, há sete brasileiros. Para cada argentino, somos quatro. Isso num território que também ocupa quase 50% da terra sul-americana. São 8,5 milhões de quilômetros quadrados mais que o triplo da Argentina, segunda colocada nesse quesito.
Em termos de relações internacionais, isso significa que o Brasil é o que se define como país-baleia. Aquele que pelo seu tamanho e importância se impõe naturalmente como um líder regional, uma referência inevitável para os vizinhos menores. Richard Nixon dizia, em 1971, uma frase que resumia a impressão que era senso comum sobre o país: "Para onde for o Brasil, irá toda a América Latina", afirmou.
No entanto, na última semana, o episódio em que o presidente boliviano, Evo Morales, decretou a nacionalização do petróleo em seu país colocou em discussão nossa real liderança. Afinal, que líder é esse que deixa sua maior estatal ser ocupada por tropas militares e vê seus contratos rasgados sem reagir?
Tapa na cara
As opiniões foram as mais variadas possíveis. A célebre revista inglesa The Economist não teve dúvidas ao afirmar: Lula e, por conseqüência, o Brasil perderam. Quem ganhou, diz a reportagem, foi Hugo Chávez. Na geografia do continente, a Venezuela está longe de ser uma baleia, mas o seu comandante estaria conseguindo transformar um peixe bem menor na verdadeira referência para os vizinhos.
Para alguns analistas, porém, as reações dos vizinhos sul-americanos são normais e não afetam a condição do país dentro do cenário internacional. "Em política exterior, os líderes são justamente aqueles que estão sempre expostos a levar tapas na cara", afirma Clóvis Brigagão, cientista político e coordenador do Centro de Estudo das Américas da Universidade Cândido Mendes, do Rio de Janeiro. Segundo ele, os Estados Unidos, que têm o maior papel de liderança no planeta, são os que mais apanham. E o que aconteceu com o Brasil na semana passada foi a mesma coisa. Um tapa na cara de quem, por sua condição de superioridade, pode ser acusado de imperialista ou explorador.
O especialista acredita que o governo brasileiro poderia ter se saído melhor do embrulho em que se meteu, mas acha que o episódio é algo pontual, que não muda a relação entre os países. "O Chávez pode tirar sua casquinha, o Evo Morales também. Mas o resultado é apenas um desprestígio passageiro para o Brasil", afirma Brigagão. De resto, nada muda por aqui.
Já para Paulo Resende, do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional da USP, o que está acontecendo na América do Sul é um processo natural dentro do momento vivido pelo continente. Depois de muito tempo, os governos da região passam a não se alinhar mais automaticamente com as decisões dos Estados Unidos ou da Europa.
"Nesse período de refundação do continente, há uma relação complexa de interesses e negociações entre os países", afirma ele. Não havendo interesses estrangeiros dominantes, alguém que dê ordens em todos de uma vez, as nações têm de aprender a fazer prevalecer seus interesses de outras maneiras. "Não há interesses comunitários, apenas interesses de cada país", diz ele.
Mas, afinal, o que importa saber é se o Brasil está exercendo o seu papel de líder de maneira produtiva. O fato de haver um país-baleia no continente tem servido de algo para a América do Sul? A resposta, segundo Brigagão, é sim. "O Brasil tem tido um papel importante no fortalecimento da democracia e na integração regional", afirma ele. Com destaque especial para o aspecto democrático. De acordo com o especialista, as intervenções brasileiras no Equador, nos golpes de Estado paraguaios e na própria Bolívia, que viveu crises institucionais sérias nos dois últimos anos, foram fundamentais para a evolução da democracia no continente. E fazem do atual o melhor momento da liderança brasileira na região.
Resende confirma e diz que até mesmo as críticas à diplomacia brasileira causadas pela vitória da dupla Chávez-Morales têm de ser vistas com cuidado. "Não vejo nenhuma ruptura na gestão da diplomacia brasileira do governo passado para esse. O que o ministro Celso Amorim vem fazendo no governo Lula é o mesmo que Celso Lafer fazia no governo Fernando Henrique Cardoso", afirma.
E a política de um líder não deve mesmo ser a da imposição, segundo Resende. "Não acho que a América Latina deva ir para onde for o Brasil. Sou contra esse refrão de que diante do maior o menor cessa. O que nos interessa mais é o federalismo e a paz", completa.



