
São Paulo - Países com alto nível de desenvolvimento humano invertem a tendência de queda da fecundidade, o que pode atenuar o declínio populacional observado nos países ricos. É o que mostra um artigo publicado recentemente na revista científica Nature.
A análise contraria a visão demográfica mais difundida sobre a modernização das nações. A relação entre desenvolvimento e queda na fecundidade é uma das mais famosas generalizações das ciências sociais.
Ao longo do século 20 e, de um modo especial, a partir da década de 1960 com a popularização dos métodos anticoncepcionais, a taxa de fecundidade dos países desenvolvidos ficou próxima ou abaixo do nível de reposição da população (que corresponde a 2,1 filhos por mulher).
Essa constatação levou muitos cientistas sociais à conclusão de que o desenvolvimento econômico, social e humano leva necessariamente a um menor número de filhos por mulher. Mas os resultados do estudo da Nature contrariam a aplicação do princípio geral para os países mais desenvolvidos. Os autores compararam séries de dados referentes ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e à fecundidade de diversos países em 1975 e 2005. O IDH é um indicador que leva em conta variáveis como produto interno bruto per capita, taxa de analfabetismo, número de pessoas na escola e esperança média de vida.
A associação entre desenvolvimento e fecundidade torna-se positiva, em média, quando o IDH é superior a 0,86, segundo o estudo. Quando o índice está abaixo deste valor, um aumento de 0,1 no IDH corresponde a uma redução de 0,159 na taxa de fecundidade. Acima do limite estimado, um aumento de 0,05 no IDH é acompanhado por um aumento médio de 0,2 na taxa de fecundidade.
A reversão na tendência de queda populacional foi observada em 18 dos 24 países com alto nível de desenvolvimento humano: Noruega, Holanda, Estados Unidos, Dinamarca, Alemanha, Espanha, Bélgica, Luxemburgo, Finlândia, Israel, Itália, Suécia, França, Islândia, Reino Unido, Nova Zelândia, Grécia e Irlanda.
Hans-Peter Kohler, do Centro de Estudos Populacionais da Universidade da Pensilvânia e coautor do estudo, sublinha que o processo foi observado em países com contextos institucionais muito diferentes. De um lado, os Estados Unidos com um mercado de trabalho e uma economia muito flexíveis. Do outro, os países nórdicos com um generoso auxílio público às famílias. "Todos tem em comum a conquista de níveis relativamente altos de compatibilidade entre as mulheres terem filhos e continuarem presentes no mercado de trabalho", afirma Kohler. O desenvolvimento traz consigo liberdade para optar pelos filhos. Contudo, o declínio populacional continuou em seis nações ricas: Japão, Áustria, Austrália, Suíça, Canadá e Coreia do Sul.



