
Três dias depois que uma bomba atômica destruiu boa parte da cidade de Hiroshima, em 1945, bondes já retomavam seus trajetos rotineiros. O espírito japonês de rápida reação a calamidades anda junto com o alto investimento tecnológico, formando um conjunto que permite reagir melhor aos desastres naturais.
Com três placas tectônicas se encontrando em seu subsolo e histórico de tremores fortes, o Japão está entre os países mais bem preparados para enfrentar um terremoto. Os preparativos vão do treinamento de crianças e adultos para saber como reagir a um tremor, passando pela elaboração de planos velozes de contingência e indo até a exigência por estruturas mais resistentes nas construções.
O país previa um forte terremoto em sua costa leste desde que um tremor de 6,3 graus de magnitude destruiu um quinto dos prédios da cidade de Kobe, em 1995. O preparo para a próxima catástrofe se estendeu por diversas áreas e, segundo analistas, o Japão passou no primeiro grande teste de seu sistema de contingência.
Se em 1923, no tremor de Kanto, 140 mil pessoas morreram, e, no de Kobe, 6.400, desta vez o número de mortos foi relativamente baixo.
O mais forte dos tremores de ontem, registrado no começo da tarde pelo horário do Japão, tinha capacidade de atingir 300 mil pessoas. Até o fechamento desta edição, porém, havia cerca de 380 mortos.
Esse resultado é fruto de um grande investimento. A começar pelo alerta de terremoto. Avisos da agência meteorológica do Japão são emitidos desde 2007. Ontem, ele soou pouco antes do terremoto e continuou alertando sobre as réplicas. "Apesar da magnitude elevada, o número de vítimas será relativamente pequeno, em relação ao que ocorreria em um país menos preparado", opina o geólogo da UFPR e consultor da ONU para desastres naturais Renato Lima.
O preparo para a gestão da crise também contribuiu para isso: apenas quatro minutos após o primeiro tremor, o premier Naoto Kan já havia instalado o centro de medidas emergenciais, com site para consulta de informações.
Para amenizar o desastre, a educação começa desde cedo. O cônsul japonês em Curitiba, Motohiro Hoshino, explicou à Gazeta do Povo o treinamento que as crianças recebem desde o jardim de infância para se defender num momento de tremor. Uma vez por mês, é feita uma simulação.
"Aprendemos sobre como aguardar debaixo das mesas, com uma espécie de chapéu almofadado, e como evacuar o prédio após um alerta da prefeitura", disse. Algumas salas possuem até um simulador, pelo qual as crianças experimentam a sensação de um tremor para poder reconhecê-la.
Além disso, como os piores estragos são decorrentes de tsunamis causados pelo tremor em alto-mar, a ordem é correr para lugares altos, onde as ondas não cheguem. Mas nada de desordem. As rotas de fuga são devidamente ensinadas, e um ponto de encontro é determinado por exemplo, um ginásio de escola onde os desabrigados passam a noite.
Construção
É gritante a diferença entre as imagens divulgadas da destruição de Porto Príncipe, capital do Haiti, após o terremoto de janeiro de 2010, e das ruas japonesas ontem. Na primeira, a exceção era alguma coisa restar em pé, enquanto no Japão percebe-se o baixo número de prédios que caíram.
Prédios, pontes e demais construções do país são obrigatoriamente feitos para resistir a impactos sísmicos. A escolha de materiais privilegia estruturas de aço e dispositivos de segurança amenizam o impacto das ondas de energia causadas pelo tremor.
"Estamos preparados para construir uma casa ou prédio resistente. E isso sempre tem que passar por autorização da prefeitura", diz o cônsul Hoshino.
"A partir dos anos 70, toda construção japonesa segue preceitos modernos de construção, como ocorre em outros países desenvolvidos com histórico de terremotos, como EUA e Itália", diz o professor do departamento de Engenharia Civil da UFPR Roberto Dalledone Machado.
Apesar do alto preparo, é impossível ter uma resposta 100% eficaz, ponderou Kenichi Torii, diretor do Centro de Desastres da Universidade de Ehime, em entrevista ao Wall Street Journal Asia. Um exemplo foi a interrupção de trens, que continuavam parados na madrugada de hoje (horário do Japão).



