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A Praça da Manjedoura, em Belém, ainda está praticamente vazia de peregrinos. A expectativa da chegada de fiéis para o Natal na cidade onde, segundo a tradição cristã, Jesus nasceu, é grande. Comerciantes arrumam as prateleiras com suvenires, a árvore de Natal oficial — acesa no dia 7 de dezembro — brilha, trabalhadores apressam as obras de renovação da Igreja da Natividade e os políticos e líderes religiosos preparam os discursos. Mas, apesar do burburinho na famosa praça, estima-se que este será o pior Natal dos últimos cinco anos na cidade sagrada. Segundo dados do Ministério palestino do Turismo, cerca de 100 mil peregrinos estrangeiros vão passar por Belém em dezembro, 17% a menos do que no mesmo mês de 2013 (120 mil).

O motivo da queda é, sem dúvida, o conflito de 50 dias entre Israel e o grupo islâmico Hamas, em julho e agosto deste ano. Nesses dois meses, os 48 hotéis de Belém, com 3.700 leitos, amargaram o cancelamento de 60% nas reservas. A tensão das últimas semanas em Jerusalém, com uma série de ataques contra israelenses, não contribuiu. O turismo em toda a Cisjordânia fechará o ano com a visita de 2,5 milhões de visitantes, 3.7% a menos do que os 2,6 milhões de 2013. O prejuízo estimado no setor turístico local é de US$ 30 milhões.

"Desde 2009, há um crescimento constante na chegada de turistas e pensamos que o número só cresceria. Esperávamos que 2014 fosse o nosso recorde. Mas a guerra atrapalhou nossos planos", diz a ministra do Turismo, Rula Ma'ayan.

Nem a visita do Papa Francisco a Belém, em maio deste ano, ajudou a melhorar os dados. O Pontífice atraiu muita atenção mundial ao não só rezar uma missa histórica na Praça da Manjedoura e, depois, quebrar o protocolo e parar em frente ao polêmico Muro da Cisjordânia, que envolve o Norte da cidade, separando-a da entrada de Jerusalém. A barreira foi erguida no auge da Segunda Intifada (2000-2005), quando ataques terroristas abalaram Israel. Os palestinos reclamam, no entanto, que o muro asfixia a economia local e restringe o ir e vir das pessoas.

"A visita do Papa foi importante e ficamos muito otimistas quando ele veio. Achávamos que a vinda de Francisco seria uma maneira de dizer ao mundo que é seguro vir a Belém. Achamos que milhões fiéis o seguiriam e viriam. Mas, infelizmente, por causa da guerra de Gaza, a visita dele foi ofuscada", afirma a ministra do Turismo.

Os números só não são piores por causa do primeiro semestre, esse sim que superou todos as expectativas. De janeiro a junho, só a cidade de Belém (a mais visitada, seguida de Jerusalém Oriental e Jericó) recebeu nada menos do que 1,4 milhão de turistas estrangeiros, principalmente da Rússia, da Polônia e da Itália, um contraste, por exemplo, em relação aos 500 mil de 2009. O aumento em relação a 2013 foi de 19%. Os hotéis afirmaram contar com overbooking de até 200%. Justamente por isso é que os palestinos esperavam chegar a 3 milhões de turistas em 2014. O medo da complicada violência regional, no entanto, afastou muitos peregrinos.

Boom pós-IntifadaMas, o casal indonésio Sa'ood e Rabia Obaid manteve os planos de conhecer a cidade onde Jesus nasceu, mesmo sendo ambos muçulmanos. Eles admitem, no entanto, que só mantiveram a viagem porque fazem parte de uma excursão.

"Viemos num grupo, então nos sentimos mais seguros. Não vimos nada de atemorizante até agora. Está tudo calmo, são todos muito hospitaleiros", disse Sa’ood.

Apesar da queda, a cidade de Belém, que tem uma população de 35 mil pessoas (78% muçulmanos e 22% cristãos) festejou a última década com um boom turístico. O setor é fundamental para a economia local, que sofre com taxa de desemprego de 26% e conta com 21% de moradores abaixo do nível de pobreza. Há apenas uma década, durante a Segunda Intifada palestina, a quantidade de turistas estrangeiros na Cisjordânia era mínima. Em 2001, só 100 mil visitaram, ao todo, a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental. Em 2002, o número foi tão pequeno que nem entra nas estatísticas. Com o fim dos grandes atentados terroristas, a partir de 2005, os turistas começaram a voltar — principalmente a Belém — num nível maior do que na década de 90.

Debruçado no balcão de sua loja de souvenires, o comerciante palestino Joseph Gattas mantém a esperança de um Feliz Natal para as lojas e serviços locais. Segundo ele, a cidade pode estar um pouco vazia agora, mas daqui a alguns dias, tudo vai mudar. A expectativa é que na noite da Missa do Galo, cerca de 15 mil fiéis estejam na cidade.

"Os turistas só chegam em massa mesmo no dia 24 de dezembro. Trabalharemos dia e noite para aproveitar essa enxurrada. Vai dar tudo certo. Estou otimista", afirma Gattas.

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