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Viagem

Trens de luxo entram na disputa com estatal na Itália

Empresa dirigida pelo presidente da Ferrari inaugura linhas de alta velocidade e investe em estilo e conforto para conquistar público

Entre os mimos oferecidos pela Nuovo Trasporto Viaggiatori estão internet sem fio gratuita e tevê por satélite | The New York Times
Entre os mimos oferecidos pela Nuovo Trasporto Viaggiatori estão internet sem fio gratuita e tevê por satélite (Foto: The New York Times)
Um trunfo dos trens que começaram a funcionar em abril é a velocidade de até 300 km/h |

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Um trunfo dos trens que começaram a funcionar em abril é a velocidade de até 300 km/h

Levou mais de cinco anos, um investimento aproximado de US$ 1,3 bilhão e uma batalha contra as linhas ferroviárias nacionais da Itália para colocar em funcionamento a primeira operadora privada de trens domésticos e de alta velocidade da Europa.

Mas as locomotivas – apelidadas de Italo – finalmente começaram a rodar a 300 km/h em final de abril, abrindo um novo capítulo nas viagens de trem europeias e procurando competir com o serviço estatal com foco em estilo e luxo.

"Meu neto nunca havia andado de trem", disse Miriam Fallerini, de 67 anos, bebericando um espresso na primeira classe com o neto de 6 anos ao seu lado. "Ontem, prometi a ele que o levaria não só num trem, mas no trem mais maravilhoso que existe na Itália."

A empresa ferroviária, Nuo­­vo Trasporto Viaggiatori (NTV), é a primeira a competir com a estatal Trenitalia em serviços de alta velocidade. Ao embarcar em sua primeira viagem, de Milão a Nápoles, os passageiros eram recebidos por recepcionistas e comissárias sorridentes usando elegantes uniformes vermelhos escuros, em trens modernos com assentos de couro azul e interior branco.

O presidente da empresa é Luca Cordero di Montezemolo, o presidente da Ferrari. Outros desenvolvedores incluem o executivo de moda de luxo Diego della Valle, a empresa ferroviária da França, o maior banco de varejo da Itália e a maior seguradora do país.

"Colocamos uma pedra sobre um dos mais longos monopólios na história de nosso país", afirmou Cordero di Montezemolo durante uma­­ viagem da imprensa em abril,­­­­ de Roma a Nápoles. "Fi­­nal­­­­mente, os viajantes italianos e os turistas podem escolher."

Até o final do ano, a empresa pretende ter 25 trens ligando nove cidades italianas, e sua meta é ter uma fatia de 20 a 25 por cento do mercado até 2014, com algo entre 8 a 9 milhões de passageiros por ano – número que deixaria a empresa no azul.

O campo de batalha será em serviços de alta qualidade, preços e alimentação.

Os trens Italo oferecem conexão gratuita à internet sem fio, tevê por satélite, um vagão-cinema com 39 lugares, assentos de couro feitos pela fábrica de móveis de luxo Poltrona Frau e pontos de apoio nas principais estações, projetados pelo arquiteto italiano Stefano Boeri.

Um terço das passagens para cada uma das três classes de serviços será disponibilizado a baixo custo, quando reservados com antecedência e para horários fora de pico.

Os trens não usam locomotivas; sob cada um dos 11 vagões, há motores que buscam aumentar a capacidade e a segurança.

"O risco assumido pela NTV é certamente muito alto, amplificado pela atual crise econômica na Itália e pelo aprimoramento da infraestrutura italiana, que ainda está atrasado", explicou Oliviero Baccelli, vice-diretor do Centro de Pesquisa em Economia Regional, Trans­­porte e Turismo da Uni­­ver­­sidade Bocconi, em Milão. "Porém, a alta velocidade pos­­sui margens de desenvolvi­­mento muito significativas na Itália."

Rotas ferroviárias arrebanham passageiros das linhas aéreas

Em 2009, os italianos usaram trens de alta velocidade consideravelmente menos que os passageiros franceses ou alemães, e apenas 22 por cento dos passageiros os usaram na Itália – diante de quase 27 por cento na Alemanha e 60 por cento na França.

Desde então, porém, os trens de alta velocidade começaram a fazer Roma-Milão em apenas três horas e a participação da Trenitalia no mercado aumentou de 32 a 55 por cento nessa rota. Na mesma rota, as viagens aéreas caíram de 52 a 32 por cento no mesmo período.

A Itália está sendo vista como um teste para a Eu­­ropa. Desde 2004, a legislação europeia vem liberalizando as viagens ferroviárias internacionais e domésticas para mercadorias e passageiros, mas ainda não é obrigatório, sob as leis da União Europeia, abrir os serviços domésticos à livre concorrência, como fez a Itália.

E não para por aí. Re­­cen­­temente, o governo italiano aprovou uma lei exigindo que autoridades locais realizem licitações para serviços ferroviários. Anualmente, a Nuovo Trasporto Viaggiatori (NTV) terá de pagar ao estado cerca de US$ 159 milhões pelo uso dos trilhos.

A Trenitalia também tentou entrar no mercado de alta qualidade, renovando alguns de seus trens de alta velocidade com interiores em couro, vagões para negócios e cardápios de primeira classe criados pelo chef Gianfranco Vissani.

Banheiros

"Geralmente, à parte­­ dos­­ preços e dos banheiros­­ sujos, não há muito do que se­­ reclamar nos serviços da Tre­­nitalia", afirmou Elisa Ros­­setti, de 34 anos, que pretendia ver um filme no vagão-cinema ao lado do marido e da filha de 5 anos. "Apenas espero que os princípios do mercado se apliquem e a concorrência reduza o preço das passagens, e não seja como na telefonia celular, onde isso ainda não aconteceu." Alguns compartilham os temores de Rossetti, mas muitos passageiros ficaram impressionados.

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