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Polo Norte

Dinamarca autoriza força contra eventual ação dos EUA na Groenlândia; crise ameaça Otan

Vista panorâmica de Tasiilaq, no leste da Groenlândia, território rico em minerais estratégicos e alvo de disputa geopolítica entre EUA e Dinamarca
A cidade de Tasiilaq, no leste da Groenlândia: a ilha autônoma possui vastas reservas de terras raras e posição militar estratégica, motivando a cobiça americana e a reação armada da Dinamarca. (Foto: Bernd Hildebrandt/Pixabay)

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A Dinamarca autorizou suas forças armadas a abrir fogo contra qualquer tentativa de invasão da Groenlândia. A medida extraordinária reflete o escalamento de uma crise geopolítica no Ártico, onde o presidente americano Donald Trump busca adquirir o território autônomo.

O presidente americano articula uma visão de domínio regional que denomina "Doutrina Donroe", uma versão contemporânea da Doutrina Monroe do século XIX. Essa política busca excluir potências estrangeiras do hemisfério ocidental e consolidar o controle americano sobre recursos vitais.

A ofensiva dos EUA: Doutrina Donroe e minerais estratégicos

A Casa Branca justifica a medida como uma prioridade de segurança nacional. Trump afirma que a ilha está cercada por navios e submarinos da Rússia e da China. Para Washington, o controle direto é a única forma de garantir a proteção da fronteira norte contra mísseis balísticos intercontinentais. O vice-presidente americano J.D. Vance reforçou essa tese ao declarar que o sistema de defesa contra mísseis depende criticamente da ilha.

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Essa justificativa de segurança, porém, viola as normas diplomáticas e os tratados internacionais. A administração considera abertamente o uso da força militar como uma opção viável para a anexação.

Stephen Miller, conselheiro de política da Casa Branca, questionou publicamente o direito da Dinamarca de controlar o território. Miller argumenta que o mundo é governado pela força e pelo poder, e não por normas jurídicas abstratas. Trump descreve o movimento como "a maior transação imobiliária da história em termos de área".

Nesse cenário, os Estados Unidos também operam na frente financeira para conquistar apoio local. Segundo informações do jornal americano Wall Street Journal, autoridades americanas discutem oferecer pagamentos diretos anuais, estimados em cerca de 5 mil dólares por cidadão, para conquistar apoio popular.

Washington também cogita propor um acordo de livre associação, similar aos que mantém com nações do Pacífico. Esse modelo permitiria operações militares americanas em troca de benefícios comerciais e assistência financeira.

O interesse econômico americano é movido pela necessidade de controlar a produção de minerais estratégicos. A Groenlândia possui vastas reservas de lítio, cobalto, níquel e terras raras, como o neodímio. Atualmente, a China e a Rússia dominam a produção global desses insumos essenciais para tecnologias de defesa e smartphones. A posse da ilha daria aos Estados Unidos uma vantagem estratégica incalculável na corrida tecnológica do século 21.

A resposta da Dinamarca para a Groenlândia e o risco para a Otan

Essa lógica, porém, não leva em conta a vontade dos groenlandeses. Apesar das promessas financeiras, o povo groenlandês demonstra resistência clara à ideia. Embora a maioria dos 57 mil habitantes apoie a independência da Dinamarca, eles rejeitam a ideia de se tornarem americanos. O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, exigiu o fim das fantasias de anexação e das pressões externas.

Líderes dos partoidos ocais reiteram que o futuro da Groenlândia pertence exclusivamente ao seu povo. Entre a população local, existe o temor de que a autonomia conquistada historicamente seja sufocada pelas necessidades militares de uma superpotência. Diante dessa resistência, a diplomacia europeia busca agora alternativas para evitar uma ruptura com Washington.

A reação europeia oscila entre o choque e a preocupação institucional. A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, alertou que qualquer tentativa de tomada forçada resultaria no fim imediato da aliança da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

O Ministério da Defesa da Dinamarca emitiu uma diretriz extraordinária: seus soldados têm permissão para abrir fogo contra invasores sem esperar ordens superiores. A Otan, pilar da segurança ocidental desde 1945, enfrenta uma situação inédita: a possibilidade de um aliado atacar outro.

Diplomatas em Bruxelas e Berlim discutem oferecer aos Estados Unidos acesso ampliado aos recursos minerais ou fortalecer a presença militar da Otan sob comando conjunto. A intenção é atender aos objetivos de Trump sem sacrificar a soberania dinamarquesa. O presidente americano, no entanto, insiste que a "propriedade" territorial é psicologicamente necessária para o sucesso da sua estratégia. A comunidade financeira internacional já avalia as consequências dessa postura.

O que está em jogo na Groenlândia: geopolítica e mercados

Os mercados de apostas já refletem a gravidade da crise. Plataformas de apostas online como Polymarket e Kalshi registram milhões de dólares em apostas sobre a probabilidade de os Estados Unidos comprarem o território antes do fim do mandato de Trump. Analistas de risco apontam que 2026 será um ano decisivo para as instituições globais. A política isolacionista de Washington sinaliza que o país está agora empenhado em desmantelar a ordem internacional que ajudou a construir.

O teste real será se as instituições democráticas dos Estados Unidos e da Europa conseguem conter essa escalada. A credibilidade americana, construída ao longo de gerações, está sendo testada por uma estratégia que prioriza o controle territorial sobre as alianças. Para a Otan, o desafio não é mais um adversário externo, mas a possibilidade de autodestruição interna.

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