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Península coreana

Um conflito de proporções incertas

Tensão crescente entre as Coreias suscita dúvidas entre possibilidade real de confronto ou uma estratégia para conseguir ajuda

Soldado sul-coreano durante treinamento realizado próximo à zona desmilitarizada que separa as duas Coreias: tensão entre os países tem aumentado | Lee Jae-Won/Reuters
Soldado sul-coreano durante treinamento realizado próximo à zona desmilitarizada que separa as duas Coreias: tensão entre os países tem aumentado (Foto: Lee Jae-Won/Reuters)
Norte-coreanos trabalham em um campo na vila de Gijungdong, em imagem feita de um posto de observação da Coreia do Sul |

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Norte-coreanos trabalham em um campo na vila de Gijungdong, em imagem feita de um posto de observação da Coreia do Sul

Dois países, uma guerra inacabada e a ameaça iminente de um confronto com proporções incertas. Assim tem sido a história recente das Coreias do Norte e do Sul, personagens de um conflito que se arrasta a partir da década de 1950.

Desde que o governo norte coreano anunciou, no início do ano, a retomada de testes nucleares, a tensão na região só tem se acentuado. Uma ofensiva contra o país vizinho e os Estados Unidos é colocada de forma incisiva pela Coreia do Norte, o que suscita dúvidas sobre a real possibilidade de uma guerra ou se essa é mais uma estratégia para buscar ajuda internacional.

No início de fevereiro, a Coreia do Norte anunciou a realização de um terceiro teste nuclear, com maior intensidade do que os realizados em 2006 e 2009.

A medida foi uma resposta às sanções impostas pela Organização das Nações Unidas (ONU) depois do lançamento de um foguete de longo alcance pelo país, no final do ano passado. O governo declarou ainda o fim do cessar-fogo com a Coreia do Sul e ameaçou promover ataques aos Estados Unidos. Os sul-coreanos responderam iniciando exercícios militares em conjunto com os norte-americanos.

Para Roberto Moll Neto, professor do Instituto de Estudos Econômicos e In­ternacionais da Uni­versidade Estadual Paulista (Unesp), a Coreia do Norte estaria repetindo a estratégia das administrações anteriores. "A retórica bélica serve para atrair a atenção dos Estados Unidos e de outros países com o objetivo de conseguir ajuda. Por outro lado, serve para construir consenso dentro do próprio país. Kim Jong-un [líder da Coreia do Norte] precisa legitimar sua liderança diante dos outros líderes norte-coreanos e diante da própria população", avalia.

O especialista acredita que, dificilmente, um conflito entre as duas Coreias se estenderia para outras regiões ou tomaria proporções maiores. "A China e a Rússia, que até agora não apoiam nenhuma medida contra a Coreia do Norte, provavelmente não aceitariam um ataque à Coreia do Sul porque desestabilizaria a região e atrairia a intervenção direta dos Estados Unidos e do Japão", acredita Moll.

Já na opinião de Thia­go Lima, professor de Rela­ções Internacionais da Uni­versidade Federal da Paraíba (UFPB), um conflito entre as Coreias seria "catastrófico para a economia mundial, gerando resultados políticos imprevisíveis". "A crise coreana é estrutural, e não conjuntural, do tipo que pode ser resolvida com medidas paliativas de assistência. Um movimento mal interpretado ou um tiro acidental podem deflagrar o conflito, tornando tudo imprevisível".

Entrevista"Coreia do Norte jamais atacará os Estados Unidos"Heni Ozi Cukier, professor de Relações Internacionais da ESPM

O senhor acredita que as recentes ameaças da Coreia do Norte de promover ataques à Coreia do Sul e aos Estados Unidos podem se concretizar de fato ou seriam apenas mais uma estratégia para chamar a atenção e conseguir nova ajuda de outros países?

Não digo que a Coreia do Norte está fazendo isso exclusivamente para obter ajuda, mas essa postura faz parte da sua estratégia de sobrevivência. O governo precisa mostrar sua força dissuasória e parte disso é indicar que tem vontade de atuar e de usar a força quando necessário. Depois do fracasso de seu programa nuclear, eles precisam de outros mecanismos que ajudem a garantir essa capacidade de dissuasão.

A Coreia do Norte tem condições de promover um ataque aos Estados Unidos?

Um ataque seria pura retórica. A Coreia do Norte jamais irá atacar os Estados Unidos diretamente, isso significaria sua destruição. Eles sabem que em uma guerra aberta perderiam, o regime seria derrubado, o que não é do seu interesse. O que não afasta a possibilidade de haver um conflito causado por algum erro de cálculo ou um processo de escalada da violência. Uma retaliação pode levar à perda de controle total.

Quais seriam as conse­quências de um conflito para a economia mundial?

Um conflito dessa natureza envolveria alguns dos grandes motores da economia mundial, a Coreia do Sul, os Estados Unidos, a China, talvez o Japão.

É impossível mensurar as consequências, mas certamente traria impactos para a economia.

Na atual conjuntura, existe alguma perspectiva de que se estabeleça um acordo de paz definitivo entre as duas Coreias?

Um acordo de paz nesse momento é algo completamente utópico. Isso só será possível se houver uma nova guerra. Daí pode surgir um acordo definitivo, seja com a vitória de um dos lados ou um tratado final. Mas hoje isso não é plausível.

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