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Brasileiro no Iraque

Um curitibano nas fileiras do Tio Sam

filho de empresário paranaense conta como tornou-se um marine dos eua e foi lutar contra o terrorismo no iraque

Aparelhos de GPS estão com o preço em queda e se popularizando | Reprodução/Globo Online
Aparelhos de GPS estão com o preço em queda e se popularizando (Foto: Reprodução/Globo Online)

Curitiba – Quarta-feira, 3 de outubro, 14h30. Vestindo a farda de passeio dos fuzileiros navais norte-americanos, Fernando Francisco Simeão Rodrigues, 26 anos, recebe a reportagem da Gazeta do Povo na casa de seu pai, no Cascatinha, em Curitiba. "Rod", seu nome de guerra, chegou do Iraque há três semanas. Durante sete meses, lutou no meio do deserto, entre o Rio Eufrates e o Lago Thar Thar, ao norte de Hit e ao sul de Haditha, na província de Anbar. O desejo de fazer parte do exército era antigo. No Brasil, as portas se fecharam. A oportunidade sonhada surgiu nos Estados Unidos. Naquela tarde, ele contou sua história: como virou um marine e foi para a guerra.

Pneuman Júnior – Fernando é filho do "pneuman", como ele chama o pai, o empresário Francisco Simeão Rodrigues, presidente da BS Colways. Após o ensino médio, seguir no ramo da família parecia o óbvio. O único homem e o mais jovem de três filhos, ele iniciou o curso de Administração no UnicenP. "Meu pai sempre foi meu maior aliado e disse que eu deveria seguir meus sonhos. Mas rolava aquela pressão, a dúvida sobre se eu não iria perder muito tempo no exército." Depois de um ano, largou a faculdade. Queria servir.

Adaptação – Pelo Kuwait, a unidade do brasileiro entrou no Iraque em 6 de março deste ano. As duas primeiras semanas foram de adaptação numa base aérea em Al Asad, a segunda maior dos EUA no país. Com quase 100 km de extensão, o local tem Pizza Hut e Burger King. Os dormitórios são equipados com tevê LCD e PlayStation 3. É uma mini-América no sertão iraquiano. "Tem muita gente que vai pro Iraque e só fica nessa base, fazendo serviço administrativo. Depois voltam e falam que foram pra guerra. A única luta deles foi contra o teclado do computador". Fernando mostra o brasão dos fuzileiros navais, as duas armas cruzadas. "Esses caras deveriam ter dois teclados cruzados", diz, em tom de brincadeira.

O Brasil diz não – Aos 18 anos, Fernando se apresentou voluntariamente para servir o Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva (NPOR). "Eu era atleta, fazia musculação, jiu-jítsu, corria, era um doidão. Eu não tinha na minha cabeça a possibilidade dos caras não me aceitarem." Foi dispensado por excesso de contingente. "Tinha um cabeludinho doido do meu lado que não queria servir de jeito nenhum e foi escolhido. Falei pra eles trocarem a gente, mas não teve jeito." Passou, então, a almejar Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende, no Rio de Janeiro. No site da escola, uma informação garantia que nascidos até 1980 poderiam participar do processo de seleção daquele ano, em 2000 (ele nasceu em 26 de novembro de 1980). Trancou a faculdade e arrumou um professor particular de matemática para se preparar para a prova. No dia da inscrição, nos Correios, a má notícia: o site estava desatualizado: era preciso ter nascido de 1981 para cá. "Fiquei maluco." Ficou, também, uma certa mágoa do exército brasileiro. "Acho que o voluntário que quer servir a pátria tem de ter prioridade. Nos EUA é tudo voluntário. Eles têm o maior orgulho de ser uma força voluntária."

Despertar de Anbar – No começo de 2007, a região da província de Anbar era considerada quase um caso perdido para os militares dos EUA. A cidade de Ramadi ganhou o apelido de "capital da Al-Qaeda". A violência dos insurgentes estava no auge. Após a fase de adaptação, foi numa área de deserto perto dali que o pelotão de Fernando montou acampamento. Foi onde ele passou a maior parte do tempo no Iraque. Seu principal trabalho era participar de patrulhas e blitzes. A característica diferente dessa guerra remodelou a função dos marines. "Essa é uma guerra assimétrica. Fosse uma guerra convencional, seria fácil de combater. É difícil quando o inimigo está escondido na população. Ele não aparece pra lutar com você, ele coloca uma bomba na estrada. A única maneira de derrotar esse inimigo é fazendo muita patrulha e ganhando o respeito da população." O que aconteceu em Anbar está causando um grande debate político nos EUA – a discussão é para saber se as tropas devem ou não continuar no Iraque. O jornalista norte-americano Michael Totten batizou essa mudança de o "Despertar de Anbar". Do início do ano para cá, Ramadi e Fallujah tornaram-se as cidades mais seguras no Iraque (com exceção da região onde ficam os curdos, no norte). A população, descontente com os líderes da Al-Qaeda, começou a delatar os insurgentes. "Eles diziam, naquela casa tem um Ali Babá", conta Fernando. "Quando passamos a ser os melhores amigos da população, também nos transformamos nos piores inimigos dos terroristas."

Oportunidade – Uma porta se fecha e outra se abre, diz Fernando. Depois das duas tentativas de servir o exército brasileiro, ele soube que, munido apenas de um visto de estudante, poderia estudar numa faculdade militar nos Estados Unidos. Não teve dúvidas. Em 2001, antes dos atentados, iniciou o curso de Ciências Políticas na The Citadel, em Charleston, na Carolina do Sul. No contraturno, era cadete. No fim da faculdade, começou a namorar. "Encontrei minha alma gêmea lá", diz. Em seis meses, estava casado. Ao casamento se seguiu um período de reflexão. Fernando tirou seis meses da faculdade e veio para o Brasil. Na mesma época, saiu seu green-card (visto de residência permanente). Com o documento, uma nova porta se abria. "Eu poderia entrar para os Marines." Se essa fosse sua decisão, a guerra viria junto no pacote, e ele sabia disso. "Se eu não matasse aquele sonho de antigamente, eu iria sempre ficar com aquilo na cabeça. Por mais que eu não fosse servir o Brasil, o país onde eu nasci, no final das contas, eu estaria lutando pelos EUA, o líder dos países democráticos. Estaria lutando pela liberdade. É uma boa idéia, pensei, é algo honrado. E entrei."

Nenhum tiro – Nos sete meses em que esteve no Iraque, Fernando não disparou a arma uma única vez. "Corpo morto não quer dizer nada", diz. Ou, como avisou o jornalista Joel Silveira, quando cobriu a luta dos pracinhas na Itália: o diabo é testemunha de todas as guerras. Dentro de seu pelotão, o brasileiro tinha a função de "machine gunner". Ficava no alto do carro com uma metralhadora. "Como essa é uma guerra de policiamento, eu ficava muito tempo parado no ninho, cozinhando no sol. As vezes eu pedia pra trocar com alguém, mas o exército é uma cultura de macho, tem que ser casca-grossa, não pode dar muito mole." Se teve medo? "Eu tentava não pensar na morte. Mas as vezes eu acordava e pensava: será que é hoje?". Como Fernando ficava no primeiro carro do pelotão, sua função era identificar qualquer objeto estranho na estrada. O Iraque tem um sério problema com lixo e qualquer sacola ou caixa pode esconder uma bomba. "O medo de bomba é muito grande. É uma morte que não tem muita honra. Não é como lutar contra um inimigo e ele ser melhor do que você. Um louco simplesmente coloca a bomba lá, explode e tua vida acaba ali."

Futuro – Para o futuro, o brasileiro tem duas opções. Ou continua na sua unidade e deve servir mais sete meses no Iraque até a sua formatura, em 2010. Ou entra para a escola de oficiais, onde ficaria até 2012, e dificilmente voltaria ao Iraque. "Vai saber como as coisas funcionam no nível político. Mas o pessoal tem uma visão errada das forças americanas. Lá, no chão, o pessoal não quer guerra, eles não são cowboys loucos por tiro. Todo mundo tem filho, mulher, irmão. E todos gostam da vida ocidental, gostam do bar, da cidade, de ir no shopping, assistir um filme. Não é legal ficar no meio do deserto, debaixo de um calor de 55ºC. Queremos fazer o trabalho bem feito e voltar pra casa. A gente não escolhe a guerra para qual ir. Se amanhã tivermos que ir pra África, a gente vai. Se der encrenca na Coréia do Norte ou no Irã, vamos pra lá." No futuro mais distante, Fernando pensa em retornar ao Brasil. Tem ambições políticas – o pai foi secretário de Indústria e Comércio do governo José Richa. "Sempre tive vontade de entrar na política. Mas não nos EUA. Lá a democracia está consolidada. O Brasil é que está precisando de ajuda. Se não for a nossa geração pra tirar esses vovôs corruptos do poder, quem é que vai tirar?"

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