Para receber o Concílio Vaticano II, a Basílica de São Pedro foi transformada e virou uma grande sala de conferências para quase 3 mil pessoas. "Uma grande arquibancada foi montada", lembra dom Jaime Coelho, arcebispo emérito de Maringá. Dez fileiras de cadeiras enchiam a nave central da Basílica, do altar à entrada. No alto, em galerias montadas entre os arcos centrais, peritos, teólogos e observadores contemplavam, de camarote, o dia-a-dia do concílio. Entre 1962 e 1965, foram oito meses de sessões, de segunda a sexta. Não era uma rotina fácil, a ponto de um bispo, em 1964, começar seu discurso com um "Fatigatissimi patres" (cansadíssimos padres).
"Em 1962, nosso dia começava com a missa", afirma dom Antônio Fragoso, bispo emérito de Cratéus (CE). Em 1963 começaram as concelebrações. Depois da missa e do café, os bispos, usando vestes corais (roxas para os bispos e vermelhas para os cardeais), se dirigiam à Basílica para as sessões, que começavam às 9 horas. "Nossos lugares eram marcados segundo a data da nomeação episcopal. Mais perto do altar ficavam os cardeais; depois, os arcebispos e por fim os bispos", lembra dom Jaime.
E começavam as discussões, com os temas pré-definidos em setembro de 1963, por exemplo, se anunciava que os temas do ano seriam a Igreja, a Virgem Maria, os bispos, os leigos e o ecumenismo. Cada bispo podia discursar por dez minutos. "Se passasse do tempo, o presidente da sessão cortava o som", diz dom Fragoso, recordando que a regra valia para todos. "O cardeal Ottaviani, prefeito do Santo Ofício, era temido como um homem poderoso. Um dia, decidiu falar de improviso e passou do tempo. O cardeal Alfrink, presidente da mesa, desligou o microfone. Espontaneamente, aplaudimos a coragem do bispo holandês", conta.
Se os bispos quisessem fazer uma boquinha, tinham à disposição dois bares instalados perto da entrada da Basílica. "Fizemos trocadilhos e eles passaram a se chamar Bar Jonas (filho de Jonas, como Jesus chamava o apóstolo Pedro) e Bar Abbas (brincando com o nome de Barrabás)", diz o cardeal Serafim Fernandes de Araújo, arcebispo emérito de Belo Horizonte. Em um desses bares, dom Jaime foi interpelado por colegas europeus. "Estava com dois peruanos e um jamaicano, todos muito jovens. Os franceses vieram nos perguntar se já tínhamos feito a primeira comunhão", recorda o bispo, que tinha 46 anos quando o concílio começou.
As sessões terminavam por volta das 13 horas. À tarde, os bispos normalmente se reuniam em grupos regionais ou nacionais. Os brasileiros viviam quase todos na Domus Mariae, a meia hora do Vaticano. As reuniões da tarde e da noite eram a chance dos teólogos e peritos que viviam nos bastidores, preparando rascunhos dos documentos falarem diretamente aos padres conciliares. "Tivemos contato com Hans Küng, Edward Schillebeeckx, Karl Rahner, era uma reciclagem teológica para nós", afirma dom Waldyr Calheiros, bispo emérito de Volta Redonda. Nos fins de semana, os prelados aproveitavam para conhecer a Itália e arredores. Dom Jaime visitava famílias de padres estrangeiros que trabalhavam em Maringá.
Os bispos também aproveitaram para expandir a rede de contatos. "Devo ao concílio o surgimento de seminários em Presidente Prudente, onde era bispo, e em São José do Rio Preto, para onde fui em 1968", diz dom José de Aquino Pereira. O franciscano dom Quirino Schmitz, de Teófilo Otoni (MG), conseguiu o envio à sua diocese de missionários italianos e de freiras da congregação que o hospedou em Roma.
As amizades daqueles anos continuam. Um grupo internacional de bispos, inspirado pela espiritualidade de Charles de Foucauld (beatificado no mês passado), continua se reunindo. Um dos jovens padres conciliares peruanos que, ao lado de dom Jaime, foi alvo das brincadeiras dos colegas franceses era Alcides Mendoza Castro (que tinha apenas 34 anos em 1962 e se tornou arcebispo de Cuzco em 1983). "Já estive em sua diocese sete vezes, e ele veio a Maringá outras quatro vezes", conta dom Jaime.



