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Arqueologia

Um “Prada” pré-histórico

Pesquisadores descobrem o que afirmam ser o mais antigo sapato de couro conhecido, com 5,5 mil anos

Sapato de couro de mais de 5 mil anos encontrado na Armênia: arqueólogos dizem que pode ter pertencido a uma mulher que calçava algo em torno de 37 | Boris Gasparian/Academia Nacional de Ciência da Armênia/Reuters
Sapato de couro de mais de 5 mil anos encontrado na Armênia: arqueólogos dizem que pode ter pertencido a uma mulher que calçava algo em torno de 37 (Foto: Boris Gasparian/Academia Nacional de Ciência da Armênia/Reuters)
Veja onde fica a Armênia |

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Veja onde fica a Armênia

Perfeitamente preservado graças a camadas de fezes de carneiro (quem precisa de armários de cedro?), o sapato encontrado na Armênia, feito de couro de vaca e tingido com o óleo de uma planta ou vegetal, tem cerca de 5,5 mil anos – mais velho que Sto­­ne­­henge e que as pirâmides do Egito –, dizem os pesquisadores. Com cadarços de couro entrelaçados em vários furos, o calçado teria sido usado no pé direito – e não há sinal do pé esquerdo.

Embora o objeto se pareça mais com um sapato – de sola ma­­cia para caminhadas – de mar­­ca popular do que com qualquer ar­­tigo da grife famosa, co­­mo a Prada, "era provavelmente um sapato bastante caro, feito de couro e de alta qualidade", diz um dos cientistas que lideraram a pesquisa, Gregory Areshian, do Instituto Cotsen de Arqueologia da Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

O sapato pode ter pertencido a um jovem ou a um adolescente, mas o mais provável é que tenha sido de uma mulher que calçava algo em torno de 37. (De acordo com o website www.celebrityshoesize.com, ficaria um pouco folgado para Sarah Jessica Parker – protagonista da série de tevê Sex and the City –, cujos sapatos criados pelo estilista Ma­­nolo Blahniks têm numeração 36 ½, e um pouco apertado para a líder republicana Sarah Palin, que durante a campanha presidencial de 2008 nos EUA usou mo­­cassins Double Dare da Naughty Monkey tamanho 37 ½.)

O sapato foi descoberto por cientistas que escavavam uma enorme caverna na Armênia, parte de um conjunto de preciosos artefatos que propiciaram aos especialistas informações sem precedentes sobre uma era parcamente documentada: o período Calcolítico ou Idade do Cobre – quando os humanos te­­riam inventado a roda, domesticado cavalos e produzido outras inovações.

Além do sapato, a caverna – chamada Areni-1 – trouxe evidências de uma ancestral da atividade vinícola no local e pistas do que pode ser a mais antiga prática de secagem intencional de frutas como damascos, uvas e ameixas. Os cientistas, financiados pela National Geographic Society e outras instituições, também encontraram crânios de três adolescentes ("subadultos", na linguagem dos arqueólogos) em vasos de cerâmica – o que sugere algum tipo de prática religiosa; um dos crânios, segundo Areshian, continha tecido se­­co do cérebro e era ainda mais antigo que o sapato, com cerca de 6 mil anos.

"É uma espécie de momento Pompeia, mas sem o incêndio", afirma Mitchell Rothman, da Uni­­versidade de Widener, antropólogo e especialista no período Calcolítico – que não fez parte da expedição. "O sapato é realmente bacana, e é certamente algo que chama a atenção para as incríveis descobertas que têm sido feitas naquele lugar. O mais importante, porém, é o significado que o local em si passa a ter. O que se apresenta ali é realmente a transição para a vida moderna, aquilo que existia imediatamente antes de reis, rainhas, burocratas da corte e tudo o mais."

Até então, o mais antigo sapato de couro conhecido pertencia a Ötzi – o Homem do Gelo – uma múmia encontrada há 19 anos nos Alpes, perto da fronteira entre a Itália e a Áustria. O calçado, cerca de 300 anos mais no­­vo que o sapato armênio, ti­­nha solas de pele de urso, revestimen­­to de couro de veado, en­­chimen­­to de casca de árvore e capim fa­­zendo as vezes de meias. Modelos mais antigos que o sapato de couro agora encontrado incluem exemplares achados no Missouri e no Oregon, em sua maioria feitos com fibras vegetais.

A descoberta do sapato armênio, publicada no jornal on-line PLoS One, aconteceu em uma das antecâmeras da caverna quan­­do uma doutoranda armênia, Dia­­na Zardaryan, observou um pequeno nicho de capim. Che­­gando mais perto, ela encontrou dois chifres de carneiro e uma tigela quebrada de ponta cabeça. Embaixo desse artefato estava o que parecia ser "a orelha de uma vaca", contou. "Mas, quando olhei mais de perto, pensei: ‘Meu Deus, é um sapato’. Encontrar um sapato sempre foi um sonho para mim."

Como a caverna foi usada tam­­bém por civilizações posteriores, recentemente, no século 14, pe­­los mongóis, "pressupus que o sapato deveria ter 600 a 700 anos", diz Areshian, acrescentando que "um sapato mongol teria sido uma grande descoberta". Quando diferentes laboratórios dataram o couro de 3.653 a 3.627 anos antes de Cristo, "sim­­plesmente não podíamos acreditar que um calçado poderia ser tão antigo".

O sapato não foi deixado ao deus-dará, mas sim colocado de­­liberadamente – por razões que não estão claras – dentro do ni­­cho, depois cuidadosamente pro­­tegido por argila amarela. Os cientistas afirmam que o sapato estava cheio de grama, que agia como uma palmilha para garantir o formato, e que foi usado.

Ron Pinhasi, arqueólogo da Universidade de Cork, na Irlan­­da, afirma que a caverna, descoberta em 1997, parece ter sido usada principalmente por "pessoas de alto status, pessoas poderosas", para estocar a colheita da comunidade Calcolítica e objetos rituais. Mas algumas pessoas moravam lá também, provavelmente para tomar conta do lugar, segundo Areshian, como vigias do período Calcolítico.  

Muitas ferramentas encontradas eram de vidro vulcânico obsidiano, cuja fonte mais próxima ficava a 96 quilômetros de distância. Talvez por isso eles pre­­cisassem de sapatos, sugere Areshian.

"A descoberta é uma fonte imensa de riquezas porque seu estado de preservação é incrível", diz Adam T. Smith, antropólogo da Universidade de Chi­­cago que visitou a caverna. Ele afirma que distinguir os objetos do período Calcolítico dos artefatos de outras civilizações na ca­­verna é um trabalho complicado, e que "ainda não está claro qual é a datação" de todos os objetos encontrados.

"O sapato é, pode-se dizer, apenas a ponta de um iceberg", declara. Ou melhor, a ponta da bota.

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