
Nova York - Por US$ 150 bilhões, a Nasa (a agência espacial norte-americana) poderia mandar astronautas de volta à Lua. O governo Obama achou a conta muito cara, o Congresso dos Estados Unidos concordou e o programa foi cancelado em setembro. Agora, engenheiros do Centro Espacial Johnson, de Houston, no Texas, dizem que é possível mandar um robô humanoide para o satélite natural da Terra por uma fração da quantia inicial: cerca de US$ 200 milhões (mais US$ 250 milhões necessários para o foguete). Além disso, garantem que podem concluir o novo projeto em apenas mil dias menos de três anos.
Dentro da Nasa, o plano conhecido como Projeto M é tocado quase num esforço de guerrilha. Há um ano, o engenheiro-chefe do Centro Johnson, Stephen Altemus, briga por verbas, convoca técnicos para trabalhar em meio-período sobre o programa e arranja testes preliminares, por meio de parcerias e permutas com outras unidades da agência e com empresas privadas. "Estamos fazendo coisas impossíveis com pouquíssimo, ou nenhum, dinheiro", conta Altemus.
Um robô humanoide ou pelo menos a parte superior dele já existe. Trata-se do Robonaut 2, que decolou na semana passada rumo à Estação Espacial Internacional. O equipamento, desenvolvido pela Nasa e pela General Motors, é a primeira máquina robótica que imita a anatomia humana a entrar em órbita. Sua missão será ajudar nas tarefas de limpeza e organização da estação, além de avaliar como astronautas e robôs podem trabalhar juntos. No futuro, uma versão mais avançada do "robonauta" poderá fazer caminhadas no espaço.
A equipe que trabalha no Projeto M acredita que a ideia de um robô capaz de andar na Lua pode capturar a imaginação de estudantes, da mesma maneira que as missões do programa Apollo inspiraram toda uma geração de engenheiros e cientistas 40 anos atrás. "Acho que esse plano pode abrir novos horizontes", diz Neil Milburn, vice-presidente da Armadillo Aerospace, uma das companhias envolvidas no projeto.
Sonho distante
O problema é que, ao mesmo tempo, as atenções da Nasa começam a se voltar para outros projetos. Com isso, as chances de enviar um robô para a Lua são pequenas. O ambicioso programa Constellation, que prevê mandar astronautas de volta ao solo lunar, já consumiu US$ 10 bilhões. Mesmo assim, é praticamente certo que a maior parte desses investimentos será cortada no orçamento que o Congresso dos EUAprepara para 2011.
Origem
Ao ver os cortes orçamentários, Altemus começou a pensar em algo que pudesse de alguma forma dar continuidade ao programa lunar, mas que não exigisse anos de deliberação.
A ideia do robô capaz de caminhar na Lua e transmitir vídeo em tempo real surgiu durante uma conversa com o filho, na mesa da cozinha. O engenheiro apresentou a proposta para a sua equipe no dia seguinte. "Foi como fogo de palha", lembra o engenheiro, sobre como o projeto ganhou a adesão dos técnicos.
Mandar um robô para a Lua é muito mais fácil do que mandar uma pessoa. A máquina não precisa, por exemplo, de oxigênio nem comida. Outro fato importante: o robô não exige uma viagem de volta.
O prazo de mil dias foi estabelecido de propósito, explica Matthew Ondler, que gerencia o Projeto M.
"A Nasa funciona bem quando tem pouco tempo para resolver os problemas. Nos dê seis ou sete anos para pensar sobre um assunto e não vamos oferecer bons resultados. Nesse período, o governo muda e as prioridades mudam. É difícil manter um projeto dessa maneira", diz. Além disso, no que se refere ao propósito de impulsionar a educação científica, mil dias se encaixam perfeitamente nos três ou quatro anos que os estudantes passam no ensino médio ou na faculdade.
Escambo
Para conseguir algumas peças, Altemus e Ondler recorreram à velha prática do escambo. Em troca de ajuda no desenvolvimento de produtos que armazenam energia, por exemplo, a empresa Boston Power forneceu o protótipo de uma bateria de lítio avançada, que custaria em torno de US$ 300 mil. A Armadillo, por sua vez, ofereceu um módulo lunar.
Em retribuição, a Nasa repassou tecnologia de propulsão e deu acesso às suas instalações de teste para a companhia texana.
Neste caso, a agência também desembolsou cerca de US$ 1 milhão mas, caso a construção do equipamento seguisse o caminho tradicional, os custos e o tempo para finalizar a peça seriam muito maiores.
Em seis meses, o módulo já realizou 20 voos sendo 2 livres, ou seja, sem amarras.



