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Pessoas formam fila para receber refeição doada por moradora de Chitungwizaon, Zimbábue, durante lockdown imposto pelo governo para conter o coronavírus, 5 de maio de 2020. Com ajuda de voluntários, Samantha Murozoki serve mais de 100 refeições por dia de sua casa a pessoas carentes cuja renda foi reduzida pelo fechamento dos negócios durante o lockdown
Pessoas formam fila para receber refeição doada por moradora de Chitungwizaon, Zimbábue, durante lockdown imposto pelo governo para conter o coronavírus, 5 de maio de 2020| Foto: Jekesai NJIKIZANA / AFP

A Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, alertou que o risco de crianças morrerem por malária, pneumonia ou diarreia em países em desenvolvimento está saindo de controle em meio à pandemia de Covid-19 e "ultrapassa de longe qualquer ameaça representada pelo coronavírus".

O diretor de saúde da Unicef, Stefan Peterson, disse em entrevista ao jornal britânico Telegraph que o decreto de "lockdowns", ou bloqueios totais, em muitos países de baixa e média renda não é uma medida eficaz para combater a propagação do vírus e pode ter consequências graves.

Diversas formas de lockdown foram implementadas em várias regiões e países do mundo, como Reino Unido, Alemanha e França, em tentativa de conter os contágios pelo novo coronavírus com a redução da circulação de pessoas. A medida é uma das iniciativas mais rígidas usadas como resposta à pandemia.

"Medidas de lockdown indiscriminadas não têm um efeito ideal sobre o vírus, se estamos pedindo que famílias fiquem em casa em um cômodo em uma favela, sem comida ou água, isso não impedirá a transmissão do vírus", disse Peterson ao Telegraph.

O especialista enfatizou que se preocupa com países que copiaram medidas de lockdown de outros países, por falta de conhecimentos sobre como lidar com a crise, sem contextualização para a situação local. Ou seja, sem considerar o cenário completo da saúde pública na região.

A pandemia de coronavírus acaba afetando indiretamente a mortalidade por outras doenças. Um estudo de pesquisadores da Unicef e da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, financiado pela Fundação Bill e Melinda Gates, publicado no Lancet Global Health na quarta-feira, analisou como a pandemia pode aumentar o número de mortes causadas não apenas pelo vírus, mas também indiretamente pela diminuição do acesso à saúde e alimentação.

Os pesquisadores fizeram modelos matemáticos para três cenários, considerando diferentes níveis de enfraquecimento dos sistemas públicos e saúde e interrupção de serviços de rotina em 118 países de baixa e média renda, incluindo o Brasil.

No pior dos cenários, os pesquisadores estimam que até 1,15 milhão de crianças menores de cinco anos e 56,7 mil mães podem morrer nos próximos seis meses nesses países, devido à interrupção de serviços de saúde e suprimento de alimentos causada pela pandemia. Nesse cenário, segundo o modelo do estudo, a mortalidade infantil poderia ter um aumento de 44,7% e a mortalidade materna aumentaria 9,8% por mês, por motivos relacionados à pandemia.

Mesmo no cenário mais otimista, que considera uma redução de 15% em média nos serviços de saúde, estima-se 253 mil crianças e 12 mil mães a mais morreriam nesses países em seis meses.

Os autores destacam que as estimativas são baseadas em suposições preliminares e representam uma gama ampla de resultados. "No entanto, elas mostram que, se os serviços de saúde de rotina forem interrompidos - como resultados de choques inevitáveis, colapso do sistema de saúde ou de escolhas intencionais feitas em resposta à pandemia - o aumento das mortes infantis e maternas será devastador", afirmam.

Stefan Peterson comentou ao Telegraph que essas estimativas refletem em parte as restrições mais rígidas adotadas em partes do globo que impedem que as pessoas saiam de casa sem documentação, impossibilitando que elas acessem serviços públicos de saúde.

Além disso, por medo de contrair Covid-19, muitas pessoas em todo o mundo têm evitado ir até hospitais e centros médicos, que já estão com os serviços reduzidos enquanto enfrentam a pandemia. Crianças deixam de receber atendimento preventivo e vacinas essenciais; os pais têm dificuldades de alimentar as famílias porque não podem trabalhar, e com as escolas fechadas, falta a merenda oferecida às crianças.

A pandemia de Covid-19 já matou mais de 300 mil pessoas em todo o mundo até esta quinta-feira (14), segundo os dados oficiais compilados pela Universidade Johns Hopkins. Globalmente, os casos confirmados de infecção pelo novo coronavírus já passam de 4,4 milhões.

Brasil

O estudo publicado no Lancet Global Health incluiu o Brasil na análise dos possíveis efeitos da redução de serviços de saúde.

Os autores aplicaram em seu modelo três cenários hipotéticos. Para o primeiro, foi calculada uma redução de 9,8% a 18,5% na cobertura de serviços de saúde essenciais para crianças e mães e um aumento do desperdício de alimentos de 10% - pela redução do acesso aos alimentos.

O cenário mais severo, o terceiro, considerou um potencial de redução de 39,3% a 51,9% nos serviços de saúde e aumento de 50% no desperdício de alimentos.

Segundo os resultados da análise, o Brasil poderia ter um aumento de 390 mortes de crianças e 26 mortes maternas no primeiro cenário, o mais "otimista".

No cenário intermediário, estima-se que o aumento das mortes no Brasil seja de 790 crianças e 55 mães. No terceiro cenário, o Brasil teria 2.750 mortes infantis adicionais e 195 mortes maternas adicionais.

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