
Curitiba Das 58 milhões de pessoas que morreram em 2005, 7,8 milhões foram vítimas de câncer. Se as projeções por um lado não são nada animadoras a Organização Mundial de Saúde prevê que um em cada três seres humanos desenvolverá câncer em algum momento da vida , por outro, cientistas testam remédios, terapias e vacinas contra a doença com cada vez mais sucesso. Uma técnica que tem mostrado bons resultados é a chamada imunoterapia, que trabalha no auxílio à defesa natural do organismo.
Embora normalmente não se atente ao fato, o sistema imune está trabalhando e nos prevenindo de doenças a todo momento. Quando um microorganismo estranho entra no corpo, é função dele atacar e matar o invasor. Esse "exército" de defesa é formado por diversas células e cada uma tem sua função no combate. No caso do câncer, porém, por algum motivo, as células dendríticas, que deveriam apresentar ao sistema imune o invasor, não fazem seu trabalho.
Pesquisas conduzidas nos Estados Unidos e aqui no Brasil revelaram que a fabricação de vacinas personalizadas (com células do próprio paciente) podem "ajudar" o sistema imune a reconhecer e combater as células cancerígenas.
Na última semana, a FDA (a agência reguladora de medicamentos e comida dos EUA) analisou os resultados obtidos com a droga Provenge, vacina contra tumores na próstata. Apesar de assessores científicos terem recomendado sua comercialização, a agência pediu mais testes e dados antes de autorizar a venda.
Nessa técnica, os pesquisadores retiram uma quantidade de células dendríticas do próprio paciente. Elas são misturadas com uma proteína normalmente encontrada nas células de câncer de próstata, a Fosfatase Ácida Prostática (PAP). Essa fusão funciona como uma aula de tiro ao alvo para os linfócitos T, encarregados de eliminar as ameaças no organismo. Quando a mistura volta para o paciente, os linfócitos, já treinados, se multiplicam e atacam o câncer. Os resultados foram promissores. Os pacientes que usaram Provenge viveram em média quatro meses e meio a mais que os que não receberam a vacina.
Uma técnica muito parecida com a americana foi desenvolvida pelo Instituto de Biociências da USP, em parceria com o Laboratório de Patologia Cirúrgia e Molecular e o Hospital Sírio-Libanês. Ao invés de usarem células dendríticas do paciente, porém, os brasileiros usaram células de um pessoa sadia.
"O que nós fizemos aqui no Brasil tem algumas modificações em relação a estratégia do Provenge, porque nós descobrimos que as células dendríticas feitas do precursor do paciente também tem alguns defeitos. Então nós fizemos de um jeito diferente. Fizemos células dendríticas a partir de um doador sadio. A célula fica maravilhosa, mas não funcionaria, a princípio, porque o sistema imune é muito específico na hora do reconhecimento e saberia que aquela célula não é a dele. O que fizemos então foi fundir as células tumorais do paciente, para criar uma célula híbrida e pudesse ser reconhecida pelo sistema imune do doente", explica o pesquisador da USP que participou da criação da vacina, José Alexandre Barbuto.
Os testes foram feitos com pacientes de câncer de rim e melanomas. "Os resultados foram animadores. Ninguém foi curado, mas mostrou que de fato essa estratégia modifica a resposta imune e faz o sistema imune enxergar o tumor. Aparentemente também altera a história natural do tumor, quer dizer, o tumor pelo menos desacelera no crescimento", diz Barbuto.
A empresa gaúcha FK Biotecnologia também está testando uma vacina contra o câncer na próstata, com um método que segue o mesmo princípio, de que o sistema imune do portador da doença deve ser estimulado. Os fragmentos do tumor são retirados e enviados ao laboratório, onde são cultivados.
"Essas células que estão em cultura são modificadas. A gente torna elas agora visíveis para o sistema imunológico, como se tivessem sido pintadas. Elas são então são inoculadas no paciente", diz o médico Fernando Kreutz, criador da vacina gaúcha. Em apenas dois dos 11 pacientes que testaram a vacina o tumor continuo a crescer. Cinco conseguiram paralisar o crescimento e nos outros quatro o tumor reduziu de tamanho.







