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Passado um mês da captura do ditador Nicolás Maduro, realizada no dia 3 de janeiro por forças militares dos Estados Unidos, a Venezuela ainda vive um período de incertezas, marcado por expectativas de mudança e desconfiança quanto ao futuro político do país.
A operação que resultou na prisão de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em Caracas, abriu uma nova etapa política, mas ainda não produziu uma ruptura imediata com as estruturas de poder construídas ao longo de mais de duas décadas de chavismo. Após a queda do ditador, o país passou a ser governado por Delcy Rodríguez, então vice do regime, que assumiu o comando do Executivo sob forte pressão dos Estados Unidos. Desde então, ela tem adotado medidas alinhadas a exigências de Washington, mas ainda não apresentou um cronograma claro para abertura democrática nem anunciou eleições presidenciais.
Pesquisa realizada pela consultoria Iceberg, divulgada no final de janeiro, indica que 50% dos venezuelanos avaliam de forma positiva a intervenção dos Estados Unidos que resultou na captura de Maduro. 35% dizem preferir que um novo partido político assuma o poder em eventuais eleições presidenciais, 32% apoiariam uma liderança ligada à oposição organizada por María Corina Machado e 21% afirmam apoiar a continuidade do chavismo no poder. Para 68% dos venezuelanos, a líder interina Delcy Rodríguez “representa o mesmo” que Maduro. Apenas 34% dos venezuelanos manifestam uma avaliação positiva sobre sua atuação.
A pesquisa também revelou um avanço do otimismo na Venezuela após a queda de Maduro. Segundo os dados, 53% dos entrevistados acreditam que a situação do país deve melhorar nos próximos três meses. No horizonte de dois anos, 65% projetam uma melhora, enquanto apenas 8% preveem um agravamento da crise.
Mudanças lentas
O principal sinal visível de mudança no primeiro mês sem Maduro no comando de Caracas foi o início da libertação de presos políticos.
Autoridades chavistas afirmam que mais de 600 detidos já foram soltos no país. Contudo, assim como outras iniciativas anunciadas pelo regime ao longo dos últimos anos, o processo tem sido marcado por incerteza e falta de transparência. Organizações de direitos humanos divergem dos números oficiais. A ONG Foro Penal, que cataloga há anos o número de presos políticos na Venezuela, afirma ter verificado pouco mais de 300 libertações até o fim de janeiro e aponta que não houve divulgação de listas oficiais dos presos políticos libertados, o que dificulta a confirmação dos dados informados pelo chavismo e mantém familiares em vigília permanente em frente a centros de detenção. Há relatos também de presos libertados sob condições restritivas, como regimes de apresentação periódica perante autoridades, proibição de falar com a imprensa ou imposição de saída do país.
Na última sexta-feira (30), Delcy Rodríguez anunciou que seu regime pretende encaminhar à Assembleia Nacional, o Parlamento do país ainda controlado pelo chavismo, um projeto de Lei de Anistia Geral, que abrangeria detenções por motivos políticos desde 1999. Segundo a líder interina, a proposta não incluirá crimes como homicídio, narcotráfico, corrupção ou graves violações de direitos humanos. O anúncio foi feito durante um discurso no Tribunal Supremo de Justiça. A decisão é vista como um sinal de abertura democrática.
No mesmo pronunciamento, Rodríguez informou o fechamento do famoso centro de detenção El Helicoide, local denunciado por organismos nacionais e internacionais como o principal centro de tortura do regime chavista. Rodríguez disse que o local será transformado em um “complexo social e comunitário”, mas não apresentou prazos nem mecanismos de fiscalização independente para a implementação da medida.
Pressão dos EUA acelera mudanças no setor petrolífero
Enquanto a transição política segue indefinida, as mudanças mais rápidas no primeiro mês sem o ditador Maduro no poder ocorreram no setor petrolífero. Sob pressão direta dos Estados Unidos, a Assembleia Nacional aprovou ainda em janeiro uma reforma da Lei de Hidrocarbonetos que flexibiliza o controle estatal sobre a indústria e amplia a participação de empresas privadas, inclusive estrangeiras, na exploração e produção de petróleo da Venezuela.
A medida atende a uma das principais exigências feitas por Washington após a captura de Maduro e ocorre em paralelo à concessão de licenças pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos para a exportação controlada de petróleo venezuelano. Segundo autoridades americanas, os recursos obtidos com as vendas de petróleo da Venezuela serão depositados em contas supervisionadas externamente e liberados de forma gradual para financiar serviços básicos no país, como saúde, saneamento e compra de medicamentos.
No final de janeiro, o regime venezuelano confirmou o recebimento do primeiro pagamento pela venda de petróleo autorizada após a captura de Maduro. Segundo Delcy Rodríguez, a Venezuela recebeu US$ 300 milhões, de um total de US$ 500 milhões previstos nessa primeira operação, valor que o chavismo afirma que será usado para custear serviços públicos e programas sociais.
Céu reaberto e realinhamento geopolítico
Sob mira dos Estados Unidos, o regime chavista passou a priorizar a reaproximação com Washington e a reavaliar o eixo internacional que sustentou a ditadura ao longo dos últimos anos. No setor energético, essa mudança ficou evidente nas licenças emitidas pelo Departamento do Tesouro dos EUA para a venda controlada de petróleo venezuelano. As autorizações estabelecem limites claros e excluem operações com países como Rússia, Irã, Coreia do Norte e Cuba, antigos aliados estratégicos do chavismo. O novo modelo colocou os Estados Unidos no centro das decisões sobre exportação de petróleo e sobre o destino dos recursos obtidos com as vendas.
Sobre a China, autoridades americanas afirmaram que Pequim não está formalmente excluída da compra de petróleo venezuelano, mas deixaram claro que não haverá concessões especiais nem vendas a preços subsidiados, como ocorreu durante os anos de sanções e acordos paralelos firmados pelo regime chavista. Segundo Washington, eventuais compras chinesas teriam de seguir condições de mercado e respeitar os novos mecanismos de controle.
Por sua vez, o governo do presidente Donald Trump anunciou na semana passada a reabertura do espaço aéreo comercial da Venezuela, fechado desde 2019, permitindo que companhias - incluindo a American Airlines - comecem a se preparar para retomar voos diretos entre os dois países após anos de interrupção.
Neste final de semana, a chefe da missão diplomática dos Estados Unidos, Laura Dogu, chegou a Caracas para iniciar a reabertura da representação americana no país. A chegada da diplomata foi marcada por declarações de que ela e sua equipe estão “prontos para trabalhar” pelo retorno do diálogo entre Washington e Caracas. Dogu e Delcy se encontraram nesta segunda-feira (2). No encontro, elas conversaram sobre as três fases da política do Departamento de Estado dos EUA para a Venezuela: estabilização, recuperação econômica e reconciliação, e transição política.
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