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Venezuela

Viagem de sucessora aos EUA comprova que chavismo desistiu de Maduro

A ditadora interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, em discurso na Assembleia Geral da ONU na quarta-feira (23) (Foto: SARAH YENESEL/EFE/EPA)

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A viagem da ditadora interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, aos Estados Unidos nesta semana comprovou o que já vinha sendo sinalizado há meses: o regime chavista desistiu de Nicolás Maduro, capturado numa operação militar americana em Caracas em 3 de janeiro.

Embora o regime venezuelano siga pagando a defesa do ex-ditador nos EUA, onde será julgado por acusações relacionadas a narcoterrorismo, Rodríguez não visitou Maduro na prisão onde ele está detido em Nova York, a poucos quilômetros da sede da ONU, onde a ditadora proferiu discurso nesta quarta-feira (23) no qual não citou o nome do seu antecessor.

Na saída do hotel na maior cidade americana, Rodríguez chegou a ser questionada por jornalistas se pretendia visitar o ex-aliado, mas não respondeu à pergunta.

Na fala na Assembleia Geral da ONU, a ditadora interina fez breve referência à captura de Maduro, embora sem mencionar o nome dele.

“Em 2026, a Venezuela passou por duas grandes e dolorosas provações em sua vida como nação: uma decorrente do estrangulamento da política interna e do confronto acirrado com os Estados Unidos da América. A outra, proveniente da força da natureza: o duplo terremoto de 24 de junho”, disse Rodríguez.

“Apesar desses ‘golpes da vida tão fortes’, como diria o poeta César Vallejo, para os venezuelanos e venezuelanas, hoje ‘a Venezuela renasce’”, acrescentou.

Em seguida, a ditadora interina adotou um tom conciliador em relação ao governo do presidente Donald Trump, com quem havia se encontrado na véspera.

“Quero, nesta 81ª Assembleia Geral da ONU, agradecer ao presidente Donald Trump e ao seu governo pela disposição em retomar o caminho das relações diplomáticas e de cooperação com a Venezuela. A última vez que dois presidentes da Venezuela e dos EUA se reuniram foi no ano de 2009”, disse Rodríguez.

“Hoje, trabalhamos seriamente para dirimir, por meio do diálogo, as diferenças existentes e pavimentar os caminhos para o relacionamento energético, a promoção da segurança, o combate ao crime transnacional e a cooperação econômica em benefício de ambos os povos e do nosso continente”, afirmou a chavista.

Outro sinal de que o chavismo desistiu de Maduro foi dado pelo ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello.

Anteriormente um dos aliados do ex-ditador que mais provocavam os Estados Unidos, nesta quarta-feira ele mencionou a captura de Maduro em tom bem menos agressivo.

“Tivemos fatos muito tristes e lamentáveis aqui em 3 de janeiro, e era muito difícil manter a união, manter a união nacional. O alto comando político, junto com o partido [Socialista Unido da Venezuela, legenda do chavismo], trabalhou todos os dias na manutenção da união”, declarou Cabello à emissora estatal VTV, segundo informações da agência EFE.

“A Venezuela está nas Nações Unidas e a voz da Venezuela é a voz da irmã Delcy Rodríguez”, acrescentou o ministro do Interior, sugerindo que a superação de Maduro se tornou consenso dentro do chavismo.

Uma explicação para essa mudança de tom são as ameaças dos Estados Unidos. Ainda em janeiro, a agência Reuters publicou uma reportagem na qual três fontes oficiais não identificadas apontaram que o governo Trump deu um aviso a Cabello para que ele não atrapalhasse o processo de transição na Venezuela.

Segundo as fontes ouvidas pela agência britânica, Washington alertou que o ministro poderia “aparecer no topo da sua lista de alvos” se não ajudasse Rodríguez “a atender às exigências dos EUA e a manter a ordem após a queda de Nicolás Maduro”.

Beatriz Arias, colunista do jornal venezuelano El Nacional, afirmou em artigo publicado nesta quinta-feira (24) que o discurso de Rodríguez na ONU representou uma “virada de página” em relação à era Hugo Chávez-Maduro, ainda que questões sigam pendentes, como a soltura dos presos políticos que continuam detidos na Venezuela e a realização de eleições livres no país.

“A omissão mais retumbante no discurso da mandatária foi o próprio nome de seus antecessores. Nem referências a Chávez — constantes nas intervenções diplomáticas do país durante 25 anos — nem menções a Nicolás Maduro figuraram em seu discurso”, destacou a colunista.

“Ao evitar qualquer alusão a um alegado ‘sequestro’ de Maduro após os acontecimentos de 3 de janeiro, a administração interina buscou virar a página e enviar uma mensagem inequívoca aos investidores internacionais: a era da personalização messiânica do poder chegou ao fim”, escreveu Arias.

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