Viena (AFP) Simon Wie-senthal, cujas experiências em campos de concentração alemães o transformaram no mais famoso caçador de criminosos nazistas, morreu ontem, aos 96 anos, em sua casa, em Viena, Áustria, depois de uma longa enfermidade. Wiesenthal era "a consciência do Holocausto", afirmou o rabino Marvin Hier, que fundou a filial de Los Angeles, em 1977.
"Ele era a consciência do mundo", afirmou, por sua vez, o diretor do Memorial Yad Vashem Holocaust, de Israel, Aver Shalev, ao discursar em Jerusalém. Autoridades judaicas de Viena anunciaram que haverá um velório na quarta-feira e, na quinta-feira, seus restos seguirão para Israel, para serem enterrados na sexta-feira.
Sem esquecer
O ativista judeu ajudou a levar mais de 1.100 criminosos nazistas à Justiça, inclusive Adolf Eichmann, o arquiteto da "Solução Final" de Hitler, capturado por agentes israelenses na Argentina, em 1960, para ser julgado e executado em Israel no ano seguinte. "Quando o Holocausto terminou em 1945 e o mundo inteiro foi para casa esquecer, ele continuou se lembrando do genocídio", disse Hier num comunicado no site do Centro Wiesenthal. "Ele não se esqueceu. Tornou-se o representante permanente das vítimas, determinado a levar à justiça os autores do maior crime da história".
Ele e a mulher, Cyla, falecida em 2003, conseguiram escapar de um campo de concentração, mas ele foi recapturado e levado a Muthausen, na Áustria natal (veja ao lado). Em vez de chorar a morte de dezenas de parentes, Wiesenthal decidiu combater o inimigo. Imediatamente depois da guerra, ajudou as autoridades norte-americanas de ocupação a recolher provas dos crimes de guerra nazistas e, em 1947, fundou o Centro de Documentação Judaica em Linz, perto de Viena. Coincidentemente, ele estava trabalhando ao lado de parentes de Eichmann, o que o ajudou a encontrar o paradeiro do criminoso de guerra. Seu sucesso em ajudar os israelenses a capturar Eichmann o estimulou a continuar o trabalho.
Outro alvo seu foi Karl Silberbauer, o oficial da Gestapo que prendeu a família de Anne Frank, a garota alemã judia cujo diário se tornou famoso no mundo inteiro. Quando Wie-senthal finalmente encontrou Silberbauer na Áustria em 1963, o ex-oficial admitiu ter capturado Anne Frank. Esta confissão acabou desacreditando a propaganda neonazista que apregoava que os diários da jovem eram falsos.
Simon Wiesenthal escreveu vários livros e artigos sobre seu trabalho. O mais famoso foi "Os assassinos contra nós", uma memória. Ele gostava de dizer que não procurava "vingança, mas justiça". De acordo com um artigo no site do Centro Wiesenthal, o caçador de nazistas explicou uma vez suas motivações numa conversa com um de seus amigos: "Quando chegarmos ao outro mundo e encontrarmos os milhões de judeus que morreram nos campos e eles nos perguntarem O que vocês fizeram?, teremos muitas respostas. Um vai dizer Eu me tornei joalheiro; outro dirá, eu fiz contrabando de café e cigarros americanos; outro dirá, Construí casas, mas eu direi Eu não esqueci vocês".



