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Os povos, como os homens, recebem nomes antes de poder escolhê-los. Ortega y Gasset ensinou que o homem é ele e a sua circunstância, e que salvar a circunstância é a condição de salvar-se a si mesmo. A pergunta que o Brasil contorna há dois séculos, com a elegância evasiva de quem muda de assunto numa situação desagradável, é precisamente esta: qual é a nossa circunstância? Somos latinos, sul-americanos ou latino-americanos?
A resposta honesta é que somos as três coisas, mas não na mesma medida, não no mesmo plano e não pela mesma razão. Há uma hierarquia entre esses nomes, e ignorá-la custa caro. A latinidade é a nossa substância civilizacional, herdada de Roma por via de Lisboa e Coimbra, mais antiga que a Independência. A América do Sul é a nossa circunstância geopolítica, o mar imediato que a ilha brasileira organiza ou deixa apodrecer em desordem. A América Latina é a nossa camada declaratória, real e útil, mas derivada, um traje de ocasião que vestimos nos foros multilaterais. Confundir os três planos é condenar-se à retórica. Distingui-los é a condição de qualquer política externa adulta.
Comecemos pelo nome mais jovem e mais equivocado. O conceito de "América Latina" não nasceu na América, e sim em Paris, nos salões e gabinetes do Segundo Império Francês, e carrega no batismo a marca de um projeto de tutela. Michel Chevalier, engenheiro e economista que se inspirou em Saint-Simon e percorreu os Estados Unidos e o México na década de 1830, teorizou uma humanidade dividida em famílias (a latina, a teutônica e a eslava) e concluiu que cabia à França, primogênita da latinidade moderna (decerto inspirou-se na França como "a primeira filha da Igreja"), liderar o ramo meridional contra a maré anglo-saxônica.
Napoleão III converteu a tese em canhões. Se os povos ao sul do Rio Grande eram "latinos", a França tinha título natural de proteção contra a república protestante que acabava de amputar metade do território mexicano na guerra de 1846-1848. A aventura terminou como terminam as tutelas, em Querétaro, em 1867, diante do pelotão de fuzilamento que executou Maximiliano de Habsburgo, o imperador esculhambado que Paris instalara no México.
É verdade que intelectuais hispano-americanos, o chileno Francisco Bilbao, o colombiano José María Torres Caicedo, empregaram a expressão quase simultaneamente, movidos por medo análogo dos Estados Unidos, e há quem sustente, com razão parcial, que o conceito foi tanto forjado na América quanto exportado da Europa. Mas o detalhe decisivo permanece intocado: a conversa original era hispânica. O Brasil não estava na sala.
E não estava porque não podia estar. Enquanto a América espanhola se estilhaçava em repúblicas convulsionadas pelo caudilhismo, o Brasil atravessava o século XIX como monarquia constitucional, lamentavelmente escravocrata até 1888, lusófona e dinasticamente enlaçada aos Bragança e aos Habsburgo.
A França inventou a América Latina para tutelar os hispânicos e fuzilaram-lhe o imperador, os Estados Unidos inventaram o 'Latino' para preencher formulários e os brasileiros riscam a caixa errada. Uma internacional partidária sequestrou o Brasil para servir a um projeto e segue firme no seu intento de destruí-lo
Bolívar convidou o Império ao Congresso do Panamá de 1826 com visível má vontade, e havia, em Caracas e em Buenos Aires, quem enxergasse no Rio de Janeiro uma cabeça de ponte da Santa Aliança no hemisfério, um corpo estranho monárquico encravado num continente que se queria republicano.
O Brasil, por sua vez, olhava os vizinhos com a condescendência de quem mantivera a unidade territorial enquanto o mundo hispânico se dividia em quase 20 pedaços. "América Latina", em sua origem, é, portanto, um conceito hispânico com verniz francês, ao qual o Brasil foi agregado depois, por comodidade taxonômica alheia. Aceitar esse nome como identidade primeira é aceitar uma etiqueta que outros colaram no nosso baú enquanto viajávamos.
Nada disso significa, naturalmente, que não sejamos latinos. Somos, e num sentido muito mais antigo, mais fundo e mais nobre do que o panfleto oitocentista de Chevalier. A latinidade brasileira não é invenção francesa, e sim herança romana. Falamos uma língua neolatina que Camões levou ao seu ponto de incandescência.
Nosso direito é romano-germânico, filho do Corpus Iuris Civilis por via das Ordenações do Reino e do bacharelismo de Coimbra, que formou a elite imperial numa única universidade, infelizmente não da terra, e deu ao Brasil aquilo que faltou à América hispânica: uma gramática comum de Estado.
Nosso substrato civilizacional, mais que religioso, é o catolicismo, mesmo onde a fé esfriou em costume. Nossa noção de ordem pública descende do pretor, não do xerife. José Guilherme Merquior formulou a tese com precisão definitiva: o Brasil não é uma periferia exótica do Ocidente, mas o outro Ocidente, uma variante meridional e tropical da civilização europeia, tão legítima quanto a matriz.
Essa latinidade romana é anterior e superior à latinidade panfletária: ela não precisa da França para existir, como o aqueduto não precisa do cartaz turístico para sustentar a água. Quando dizemos que o Brasil é primordialmente latino, referimo-nos a Roma, não a Paris. E isso faz toda diferença.
Se a latinidade é a substância, a América do Sul é a circunstância. E aqui a tradição diplomática brasileira falou cedo, e falou claro. O Barão do Rio Branco dizia "América do Sul", não "América Latina", e a escolha não era pedantismo de geógrafo: era doutrina. A América do Sul é o espaço onde o Brasil é o ator gravitacional, o país que faz fronteira com dez dos doze vizinhos do continente, todos menos Chile e Equador.
A América Latina é o espaço onde o Brasil divide o palco com o México e se aproxima do campo magnético direto de um país muito mais poderoso, os Estados Unidos, com quem devemos compor. Rio Branco compreendeu a distinção e construiu sobre ela uma arquitetura completa: consolidou as fronteiras por arbitragem e negociação, da disputa de Palmas ao Acre, deslocou o eixo diplomático de Londres para Washington e firmou o que o historiador Bradford Burns chamou de aliança não escrita, um entendimento tácito pelo qual o Brasil reconhecia a primazia dos Estados Unidos no Caribe e no istmo em troca de liberdade estratégica para se afirmar, com a argúcia que costumava definir a formulação e a execução da nossa política externa, na América do Sul. Não disputaríamos o mar dos outros; concertaríamos, com os nossos vizinhos, a ordem do nosso.
Gilberto Freyre viu que a casa-grande não era a hacienda e que a senzala não era a plantation: era outra coisa, uma terceira coisa, um equilíbrio de antagonismos que nem o molde hispânico nem o modelo anglo-saxão explicam
O nosso mar tem, aliás, cartografia antiga. Os mapas coloniais desenhavam a Ilha Brasil, o território cercado pelo Amazonas, pelo Prata e pelo Atlântico, unidos por um lago mítico no coração do continente. A imagem era geograficamente falsa e geopoliticamente verdadeira: o Brasil sempre se pensou como um continente dentro do continente, uma massa autossuficiente cuja vizinhança imediata é a América do Sul e cujo horizonte é o mundo. A Cidade do México está a sete mil quilômetros de Brasília; Buenos Aires, Montevidéu, Caracas, Bogotá e Lima estão também longe de Brasília. A geografia não é destino, mas é convite, e o convite brasileiro sempre foi sul-americano.
A história recente confirmou a intuição de Rio Branco e, em seguida, demonstrou o que acontece quando ela cai em mãos erradas. Em 1994, o NAFTA deu encaminhamento, por assim dizer, à questão ontológica do México: o país tornou-se, economicamente, América do Norte, e a "América Latina" perdeu coerência como unidade geopolítica operacional.
A resposta inicial do Estado brasileiro foi correta e teve lastro de política de Estado: o governo Itamar Franco propôs em 1993 a Área de Livre Comércio Sul-Americana; Fernando Henrique Cardoso convocou em 2000 a Cúpula de Brasília, primeira reunião de presidentes sul-americanos da história, e lançou a integração física do subcontinente pela IIRSA. Celso Lafer teorizou o movimento em chave orteguiana: a América do Sul é a circunstância do Brasil, o dado primário da sua inserção internacional. Até ali, a ideia sul-americana era patrimônio do país, não de um partido.
Foi então que a ideia foi sequestrada. A partir de 2003, a construção sul-americana foi subordinada ao projeto continental do Foro de São Paulo, a internacional partidária fundada em 1990 para rearticular a esquerda latino-americana após a queda do Muro de Berlim. A Comunidade Sul-Americana de Nações, embrião promissor, foi convertida em 2008 na Unasul, que nasceu ideologizada de berço: secretários-gerais como Néstor Kirchner e Ernesto Samper, e uma cláusula democrática de geometria variável, acionada com presteza contra o Paraguai em 2012, quando o impeachment constitucional de Fernando Lugo desagradou aos companheiros, e jamais contra a Venezuela, onde se consumava, à vista de todos, uma ditadura socialista (perdoe o leitor o pleonasmo…) e a maior catástrofe humanitária e migratória da história do hemisfério.
A Celac, criada em 2010, completou o desenho: uma OEA sem Estados Unidos e sem Canadá, com Cuba à mesa e, em 2016, sob presidência pro tempore de ninguém menos que o ditador Nicolás Maduro. O BNDES, entrementes, financiava o porto de Mariel em Havana e as obras de empreiteiras amigas em Caracas. Os instrumentos concebidos para organizar o mar brasileiro foram convertidos em aparelhos de uma internacional ideológica. Não se tratava de integrar a América do Sul: tratava-se de transformá-la em uma fortaleza socialista e policialesca.
O resultado está nos escombros. Entre 2018 e 2019, Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai e Peru abandonaram a Unasul, mais da metade dos membros; a sede faraônica de Quito, batizada “Néstor Kirchner”, virou monumento vazio, e o Prosul, nascido como reação, morreu como sigla. Mas o dano mais profundo não foi institucional, e sim conceitual: a diplomacia partidarizada daquele ciclo destruiu, intencionalmente, a própria ideia de América do Sul, ao torná-la sinônimo de alinhamento partidário.
Uma geração inteira de chancelarias vizinhas aprendeu a desconfiar de qualquer iniciativa brasileira de integração, porque a última que viram chegou embrulhada em uma bandeira vermelha. Os formuladores do período, Samuel Pinheiro Guimarães à frente, reconheciam no papel a primazia sul-americana; na prática, subordinaram-na à solidariedade entre companheiros, que é exatamente o contrário de uma política de Estado.
Rio Branco legou aos sucessores um subcontinente pacificado por arbitragem; o projeto da esquerda devolveu um continente vacinado contra o Brasil. Eis o verdadeiro custo, e ele se mede na moeda mais escassa da diplomacia: a credibilidade.
Há um espelho inesperado que devolve ao Brasil a imagem da sua singularidade: a burocracia racial dos Estados Unidos. A Diretiva 15 do Office of Management and Budget, de 1977, criou a categoria "Hispanic" com critério linguístico-genealógico: é hispânico quem tem origem em país de língua espanhola, o que inclui a Espanha e exclui o Brasil. A categoria "Latino", consagrada depois e incorporada ao censo, é geográfica: abrange a América Latina, o que inclui o Brasil e exclui a Espanha.
O resultado é uma anomalia censitária conhecida de qualquer consulado brasileiro em território norte-americano: os brasileiros somos latinos mas não hispânicos, e boa parte de nós, inclusive este seu escriba, recusa as duas etiquetas, marcando "not Hispanic" nos formulários com a obstinação silenciosa de quem sabe que não cabe naquela caixa. A máquina classificatória mais poderosa do mundo, incapaz de processar o caso brasileiro, confirmou sem querer o que a história já dizia: o Brasil é o caso liminar, latino por civilização, não-hispânico por formação.
E a diferença é mais funda que a língua. A América hispânica fragmentou-se em repúblicas presidencialistas assombradas pelo caudilho, de Rosas a Santa Anna; o Brasil se manteve uno sob um imperador que lia Victor Hugo e presidia sessões do Instituto Histórico, e que daqui não se depreenda que este escriba é monarquista, pois acredito nas virtudes de uma república constitucional.
A mestiçagem essencial hispano-americana é indígeno-europeia, a do altiplano e do vale central, aquela que José Vasconcelos sublimou na utopia da “raza cósmica”; a brasileira é primordialmente afro-europeia, atlântica, litorânea, filha do açúcar e do tráfico, outra química humana com outra história. E o próprio regime de classificação racial nos separa dos Estados Unidos por um abismo que o sociólogo Oracy Nogueira formulou de maneira muito oportuna: lá vigora o preconceito de origem, regido pela regra da hipodescendência, a one-drop rule que produz categorias binárias e estanques; no Brasil vigora, se algum, o preconceito de marca, gradacional, fenotípico, gerador daquele contínuo cromático que o IBGE tenta capturar com a palavra "pardo" e que o censo dos Estados Unidos simplesmente não sabe ler. O Brasil não cabe nas caixas dos outros. Não coube na francesa, não coube na hispânica, não cabe na norte-americana. Essa incompatibilidade crônica não é defeito: é a assinatura de uma formação própria.
Como ordenar, então, os três nomes? A imagem correta é a dos círculos concêntricos, e ela já é, de facto, a gramática não escrita do Itamaraty, ainda que raramente confessada. No núcleo duro está a América do Sul: o espaço da infraestrutura, da energia, das bacias compartilhadas, da defesa, das migrações que batem à nossa porta, o espaço onde o Brasil tem responsabilidade de provedor de estabilidade e onde falhou, no ciclo iniciado em 2003, não por omissão, mas por cumplicidade: diante da implosão venezuelana, o Brasil de então não foi o vizinho que assistia ao incêndio da varanda de casa, e sim o que jogava gasolina no fogo.
No segundo círculo está a América Latina e o Caribe: espaço de concertação política, de identidade cultural compartilhada, de agregação de votos em foros multilaterais, de projeção de soft power, valioso precisamente porque não exige de nós o que não podemos dar, e que degenera em armadilha quando promovido a projeto de poder, como a CELAC demonstrou.
No terceiro, a Ibero-América, memória de Tordesilhas e da União Ibérica, ponte com a Península. E envolvendo tudo, como horizonte, a latinidade romana, aquela que nos inscreve no Ocidente pela sua vertente meridional e culturalmente católica, e que distingue, dentro do próprio Ocidente, o Sul que herda de Roma do Norte que protesta contra ela. Geopolítica se faz na América do Sul. Identidade se cultiva na América Latina. Civilização se herda de Roma.
O país que confunde os três planos oscila entre a retórica terceiro-mundista e o isolamento ressentido; o país que os distingue pode ser, ao mesmo tempo, o organizador do subcontinente, o interlocutor natural do mundo hispânico e uma potência ocidental de matriz latina.
A síntese, portanto, não exige escolher entre Bolívar e Rio Branco, entre a solidariedade continental e o realismo geográfico. Exige apenas hierarquia, e exige devolver, no Brasil, a ideia sul-americana ao seu legítimo dono, que é a sociedade brasileira legitimamente representada pelo Estado, e não uma internacional partidária.
E é aqui que Gilberto Freyre, o maior entre os maiores, entrega a chave do cofre. O que Casa-Grande & Senzala demonstrou, para além das polêmicas que envelheceram e das idealizações que a crítica tentou corrigir, foi algo que nenhum revisionismo conseguiu demolir: o Brasil não é uma cópia degradada da Europa, nem um apêndice desgarrado da América hispânica, nem um projeto inacabado dos trópicos.
É uma civilização nova, nascida da plasticidade portuguesa, aquela aptidão, forjada na própria Península pelo longo convívio com o mouro e o judeu, para misturar-se sem dissolver-se, para adaptar o arco romano ao barro do Recôncavo e a teologia de Trento ao calor do canavial, e aqui devemos, em boa medida, a Darcy Ribeiro.
Gilberto Freyre viu que a casa-grande não era a hacienda e que a senzala não era a plantation: era outra coisa, uma terceira coisa, um equilíbrio de antagonismos que nem o molde hispânico nem o modelo anglo-saxão explicam. O Brasil que Freyre revelou é exatamente o Brasil que não cabe nas taxonomias alheias: português demais para ser explicado por Madri, ibérico demais para ser interpretado por Paris,latino demais para ser processado por Washington, grande demais para ser apenas mais uma república entre as dezenas que resultaram do Império Colonial Espanhol nas Américas, e decerto importante demais para caber no figurino de um foro partidário.
Essa é a lição final, e ela devolve os três nomes à sua ordem justa. Somos latinos pelo sangue de Roma, que corre na língua, no direito e no altar. Somos sul-americanos pela carne da geografia, que nos deu dez fronteiras, duas bacias e um mar a organizar. Somos latino-americanos pelo traje das ocasiões, que se veste com proveito e se despe sem drama.
A França inventou a América Latina para tutelar os hispânicos e fuzilaram-lhe o imperador, os Estados Unidos inventaram o "Latino" para preencher formulários e os brasileiros riscam a caixa errada. Uma internacional partidária sequestrou o Brasil para servir a um projeto e segue firme no seu intento de destruí-lo. Gilberto Freyre demonstrou que o Brasil não precisa de tutela, de formulário nem de foro, porque é ele próprio uma categoria. A ilha tem três nomes, mas uma só vocação: organizar o seu mar. O resto é conversa de boteco.
Lindolpho Cademartori, é diplomata de carreira e mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



