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opinião do dia 1

A arrogância dos donos da verdade

Os filósofos dizem que a busca da verdade deve seguir o método científico da observação, comparação, análise, teste e conclusão, e não por imposição da sociedade, da religião, da escola, do governo ou do patrão

O debate transcorria calmo. A discussão era sobre se o material didático do ensino fundamental deveria ensinar a norma culta da língua portuguesa ou se deveria aceitar construções como "nós pega os peixe". De repente, a professora se exaltou, xingou seus oponentes de burgueses e inimigos dos pobres, e terminou dizendo: "Eu não admito ser contestada".

Fiquei pensando como classificar alguém que tem esse tipo de reação. A melhor palavra que me ocorreu foi "arrogante". Segundo os dicionários, arrogância é qualidade ou caráter de quem, por suposta superioridade moral ou intelectual, assume atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros; é crer-se portador da verdade final.

Quando estão no poder, os arrogantes são perigosos, e por uma razão simples: ninguém detém a verdade definitiva sobre nada. Até a Física, uma das mais exatas entre as ciências, volta e meia enfrenta a derrubada de alguma verdade científica. Einstein assustou o mundo quando confrontou a Física de Newton e revelou verdades novas. Recentemente, cientistas do CERN (o laboratório de pesquisas nucleares da Europa) afirmaram que certa partícula subatômica pode viajar a uma velocidade superior à velocidade da luz, o que Albert Einstein afirmava ser impossível.

Se a conclusão do CERN for finalmente provada, os pilares da Física moderna serão abalados. Para o filósofo Denis Diderot, o cientista precisa ser cético, pois o ceticismo é o "primeiro passo em direção à verdade", já que o espírito humano não pode atingir nenhuma certeza a respeito da verdade. Assim, a busca da verdade requer atitude intelectual de dúvida permanente e na abdicação de uma compreensão metafísica, religiosa ou absoluta do real.

Precisamos ter convicções para que possamos agir e realizar. Sem ter convicções e sem fazer escolhas, ficaríamos inertes e nada produziríamos. Porém ter convicções e escolher um curso de ação, ainda que apoiado por teorias e conceitos, não significa ser portador da verdade final. Os líderes e chefes usam seu poder para impor suas verdades, e é preciso fazê-lo. Mas não devemos ser ridículos (no sentido de confundir as ordens, ou seja, tentar obter por um caminho o que só pode ser obtido por outro). O poder é fonte de obediência, mas não é fonte da verdade.

Quem pensa que está certo apenas porque tem o poder, além de ridículo, é arrogante. O filósofo Sponville ilustra a situação com um exemplo irônico.

Imagine um jovem executivo que tem uma divergência com seu patrão sobre determinada estratégica. O rapaz é teimoso, mas inteligente. O tom se eleva. O patrão, não tendo mais argumentos, termina por lhe dizer: "Estou com a verdade porque o patrão aqui sou eu!".

O jovem, se tiver letras e coragem, poderia responder mais ou menos assim: "Senhor, com todo o respeito que lhe devo, o senhor deveria reler Pascal: o senhor está sendo ridículo".

Mas o patrão sou eu, afinal!

Creia, chefe, não estou contestando isso. O senhor é o patrão, logo vou fazer o que o senhor decidir. Minha obediência, enquanto eu permanecer em sua empresa, lhe é evidentemente devida. Mas exigir, a pretexto de que o senhor é mesmo o patrão, que eu lhe dê razão quando estou convencido por sólidos argumentos de que o senhor está errado isso o senhor, por mais patrão que seja, não tem o direito nem os meios de fazer. De modo que vou continuar lhe obedecendo, se o senhor me mantiver em sua empresa, mas vou também continuar pensando que o senhor está errado.

Demitir esse jovem seria um erro. Primeiro, porque ele leu Pascal (o que é raro). Segundo, porque ele é corajoso.

O poder de se fazer obedecer deriva de seu cargo e de você poder demitir quem não cumpre suas ordens. Mas a verdade, repito, não deriva do poder. Os filósofos dizem que a busca da verdade deve seguir o método científico da observação, comparação, análise, teste e conclusão, e não por imposição da sociedade, da religião, da escola, do governo ou do patrão.

A tal professora (que não admitia ser contestada) parece não ter se dado conta de que nossa ignorância diante da complexidade do universo é imensa e, por isso, ainda que tenhamos de adotar uma opinião e fazer escolhas, a humildade intelectual se impõe.

José Pio Martins, economista, é reitor da Universidade Positivo.

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