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A cegueira coletiva: por que desculpamos em nosso líder aquilo que condenamos nos outros?

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Lula durante ato de campanha em Juiz de Fora (MG). (Foto: Ricardo Stuckert)

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Como um líder político consegue atravessar décadas repetindo promessas, enfrentando escândalos e acumulando contradições, enquanto continua sendo visto por milhões como um salvador da pátria? A trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva convida a uma reflexão sobre o poder da comunicação e a disposição dos eleitores de confrontar suas próprias convicções.

Desde sua chegada à Presidência, em 2003, Lula apresenta o combate à pobreza, a redução das desigualdades e a defesa da democracia como compromissos centrais. Mais de duas décadas depois, a permanência de problemas estruturais exige uma avaliação crítica dos resultados alcançados e das promessas que continuam sendo repetidas. A existência desses problemas não apaga eventuais avanços, mas tampouco permite dispensar a cobrança por soluções.

Lula é um comunicador habilidoso. Conhece a força das palavras, mobiliza emoções e constrói identificação com parcelas expressivas da população. Essa capacidade, contudo, não responde a uma pergunta fundamental: até que ponto suas declarações correspondem aos seus atos? E será que acredita em tudo o que diz quando seu discurso parece contrariar a realidade?

É preciso distinguir a mentira consciente, na qual alguém sabe que afirma algo falso, do autoengano, pelo qual aceita como verdadeira uma versão conveniente dos acontecimentos. Há também a manipulação, que pode explorar emoções para conquistar apoio. Não temos acesso ao que Lula realmente pensa, nem podemos determinar suas intenções apenas por suas falas. Podemos, porém, comparar suas palavras com suas decisões e seus resultados.

Carisma não é caráter. Promessa não é realização. Popularidade não é prova de honestidade. A democracia exige cidadãos capazes de reconhecer méritos, cobrar resultados e examinar falhas, inclusive daqueles em quem votaram

Os escândalos de corrupção que marcaram governos petistas tornam essa cobrança indispensável. Nesse debate, denúncias, responsabilidades políticas e fatos comprovados precisam ser tratados com precisão. Ainda assim, a identificação com um governante não deveria servir de justificativa para minimizar episódios graves ou abandonar a exigência de transparência.

A relação entre Executivo, Congresso e Judiciário também merece atenção. A independência dos poderes é um princípio essencial da democracia e deve ser defendida de maneira consistente. Sua importância não pode variar conforme uma decisão favoreça o governo ou seus adversários.

Na área social, a persistência da pobreza e das desigualdades exige mais do que discursos. No Nordeste, região destacada pelo apoio eleitoral a Lula, carências históricas de educação, emprego e oportunidades de autonomia financeira tornam especialmente relevante a avaliação das políticas públicas. Cabe perguntar quais transformações foram alcançadas, quais obstáculos permanecem e o que justifica a renovação da confiança nas mesmas promessas.

A questão, entretanto, ultrapassa um político ou uma região. Quando os fatos contrariam nossas crenças, podemos preferir ignorá-los ou encontrar justificativas a admitir que nossa avaliação estava errada. A lealdade política passa, então, a funcionar como uma proteção contra o questionamento.

É nesse mecanismo que se instala o autoengano coletivo: o líder repete uma narrativa, e seus seguidores encontram nela aquilo que desejam ouvir. A identificação emocional pode ocupar o espaço que deveria pertencer à análise crítica. Promessas ganham mais peso que realizações, e a defesa do governante se sobrepõe à cobrança por coerência.

Por que um político insiste nos mesmos compromissos? E por que tantos eleitores continuam acreditando sem exigir uma prestação de contas proporcional à confiança depositada? Essas perguntas devem acompanhar qualquer liderança, independentemente de partido ou orientação ideológica.

Carisma não é caráter. Promessa não é realização. Popularidade não é prova de honestidade. A democracia exige cidadãos capazes de reconhecer méritos, cobrar resultados e examinar falhas, inclusive daqueles em quem votaram.

A cegueira coletiva começa quando desculpamos em nosso líder aquilo que condenamos nos adversários. Porque a cegueira mais perigosa não é a de quem não consegue enxergar. É a de quem não quer ver. Nem Freud explica.

Cláudio Slaviero, empresário, é ex-presidente da Associação Comercial do Paraná.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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