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A crise da carne nos EUA pode abrir uma oportunidade maior para o Brasil

O país se posiciona não apenas como um grande produtor de carne, mas como a referência em segurança alimentar sustentável e de baixa emissão de carbono. (Foto: Daniel Quiceno M/Unsplash )

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Os Estados Unidos enfrentam uma combinação pouco comum: preços elevados da carne bovina e o menor rebanho do país em 75 anos (1). Em julho, o preço médio da carne moída magra e extramagra chegou a US$ 8,41 por libra. Segundo a Reuters, esse valor representa cerca de 38% acima do registrado cinco anos antes.

A necessidade de ampliar a oferta abre uma janela importante para grandes produtores internacionais, entre eles o Brasil. Mas limitar essa oportunidade a vender mais toneladas de carne seria pensar pequeno.

Existe outro problema importante nos Estados Unidos que ajuda a entender essa oportunidade: a resistência aos antimicrobianos. Mais de 2,8 milhões de infecções resistentes a antimicrobianos ocorrem anualmente no país, segundo o CDC, que classifica o problema como uma ameaça urgente à saúde pública. E a relação com a produção animal merece atenção: a FDA reconhece que o uso de antimicrobianos em animais pode contribuir para o surgimento de resistência e mantém políticas específicas para preservar a eficácia desses medicamentos.

A escassez americana pode ser temporária, mas o espaço que ela abre para novos fornecedores não precisa ser. Para o Brasil, o desafio é transformar essa janela de mercado em uma posição de maior valor

É justamente aqui que bem-estar animal e saúde pública se encontram. Uma das maneiras mais eficientes de reduzir a necessidade de antibióticos é reduzir a ocorrência de doenças. O modelo dos Cinco Domínios do bem-estar animal ajuda a compreender essa relação: boa nutrição, ambiente adequado, saúde, condições para comportamentos apropriados e um estado mental positivo estão interligados. Quando esses fatores são bem manejados, reduzem-se estresse, lesões e desafios sanitários, criando animais mais saudáveis e, consequentemente, menor necessidade de intervenções terapêuticas.

A preocupação é concreta: em 2026, a FDA reforçou medidas para promover o uso criterioso de antimicrobianos em animais de produção, incluindo a definição adequada da duração dos tratamentos como estratégia para mitigar o desenvolvimento da resistência antimicrobiana.

Isso muda a dimensão econômica do bem-estar animal. Ele deixa de ser apenas uma questão ética e passa a fazer parte de uma estratégia que conecta saúde animal, eficiência, sustentabilidade e saúde pública. Animais mais saudáveis significam menos perdas, melhor aproveitamento dos recursos utilizados na produção e menor necessidade de intervenções medicamentosas. Para um mercado preocupado com resistência antimicrobiana, esse é um atributo que pode agregar valor ao alimento.

É nesse contexto que o Brasil deveria olhar para a abertura norte-americana. Podemos competir simplesmente com preço e volume ou aproveitar a oportunidade para posicionar parte da nossa carne em um patamar superior de valor agregado, associando qualidade a atributos como bem-estar animal e sustentabilidade. Não se trata de afirmar que toda a produção brasileira já apresenta essas características, mas de criar e valorizar cadeias capazes de ocupar esse espaço de forma verificável.

A mesma lógica pode ser aplicada à União Europeia. Mesmo diante das recentes dificuldades comerciais, o mercado europeu continua sendo estratégico para a proteína brasileira. Recuperar e ampliar espaço nesses mercados não precisa significar apenas voltar a discutir toneladas exportadas. Pode ser uma oportunidade para construir produtos diferenciados e capturar mais valor.

A escassez americana pode ser temporária, mas o espaço que ela abre para novos fornecedores não precisa ser. Para o Brasil, o desafio é transformar essa janela de mercado em uma posição de maior valor, fazendo do bem-estar animal, da saúde e da sustentabilidade atributos econômicos da carne brasileira.

Leonardo Thielo de La Vega é médico-veterinário, pesquisador e empreendedor, com atuação em ciência do bem-estar animal e inovação aplicada à produção de alimentos. Desenvolve projetos em parceria com universidades no Brasil e no exterior.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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