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Opinião do dia 2

A desindustrialização no Brasil

No Brasil, a desindustrialização é resul­­ta­­do da drástica mudança do velho regime de substituição de importações por outro que combinou liberalização comercial e financeira com mudanças institucionais

Inspirado no artigo "Uma tese com substâncias" (blog www.maovisivel.blogspot.com), em que Alexandre Schwartsman apresenta, de forma instigante, os impactos do câmbio valorizado na indústria nacional e no crescimento econômico, proponho resgatar o debate sobre a desindustrialização no Brasil e apontar as causas desse fenômeno, muitas vezes associado, erroneamente, a efeitos negativos sobre a atividade econômica.

Essa discussão foi e é terreno fértil nas economias latino-americanas, em especial no Brasil, desde a elaboração do "Manifesto da Cepal" (1948), no qual a instituição discute a posição das economias latino-americanas dentro de um sistema centro-periferia. O Manifesto critica a teoria de Livre Comércio, uma vez que a "deterioração dos termos de troca" seria um fator limitante ao desenvolvimento econômico e ao progresso técnico na região.

Sob uma visão linear do desenvolvimento econômico, o percurso natural das economias é o aumento da produtividade na agricultura, que desencadeia menor absorção de mão-de-obra no setor. A mão de obra excedente é absorvida por outros setores da economia, especialmente pela indústria nascente. Após esta transição estrutural, a tendência é estabilizar a par­­ticipação do emprego industrial. A esta mudan­­ça segue uma nova fase em que o emprego se reduz, sendo absorvido em parte pelo setor de serviços. Esta etapa é denominada desindustrialização, e segundo a literatura, se concentra em duas frentes principais: a participação do valor industrial no PIB e a evolução do emprego in­­dustrial na economia. Essas frentes, ainda que distintas, convergem para o mesmo conceito de desindustrialização, dado pela perda de participação da indústria no produto total da economia ou da contínua redução do nível de em­­prego industrial.

As principais explicações para a queda do emprego industrial são: a) a redução do em­­prego é uma ilusão estatística, causada em es­­pecial pela realocação de mão de obra do setor para o de serviços, decorrente da terceirização de tarefas antes realizadas na empresa; b) a redução seria resultado de uma queda relativa da demanda por bens industriais tradicionais; c) o declínio seria decorrente da evolução de tecnologias que promoveram ganhos de produtividade e redução de postos de trabalho; e d) a que­­da seria resultado de uma nova divisão internacional do trabalho, na qual as economias em desenvolvimento se destacam como indústria maquiladora (apenas montagem final).

No Brasil a desindustrialização é resultado da drástica mudança do velho regime de substituição de importações por outro que combinou liberalização comercial e financeira com mudanças institucionais. Tais fatores, associados a uma estrutura industrial e tecnológica débil, e algum grau de especialização, teriam desencadeado a desindustrialização precoce no país. Em contrapartida está o aumento da participação do setor de serviços, que hoje supera 65% no PIB.

Por essa perspectiva o Brasil está sob um processo de desindustrialização desde a década de 80, quando o setor de serviços começou a se desenvolver e ganha maior participação na economia. Isso é corroborado, não só pela redução da indústria no valor adicionado, mas também pelo recuo próximo a 5% no total de empregos gerados no período de 1990 – 2007. Contudo, como não houve desindustrialização com perda irreparável na estrutura industrial e na capacidade dinâmica, o conceito de desindustrialização é relativo.

Por fim, o processo de desindustrialização mos­­tra-se bastante relevante e algumas questões ainda precisam ser esmiuçadas, como por exemplo, a necessidade de se explorar a Classi­­fi­­cação Nacional de Atividade Econômica (CNAE), que apresenta problemas quanto à classificação do que seria uma atividade industrial ou de serviço. Dessa forma, não há motivo para associar o fenômeno a efeitos negativos.

Everson de Almeida Leão é economista, residente técnico no Instituto Brasileiro da Qualidade e da Produtividade (IBQP) e mestrando em Desenvolvimento Econômico da UFPR

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