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Ao contrário de algumas asseverações, a estratégia norte-americana no Irã tem se revelado clara, lógica e racional. Porém, sua execução, no estilo trumpista de ser, é bastante singular, por vezes parecendo caótica.
O verdadeiro objetivo dos Estados Unidos não é propriamente atingir o Irã, país irrelevante na competição global com Washington, mas sim a China, a única que pode ameaçar a hegemonia estadunidense. A abordagem da Casa Branca é enfraquecer Pequim, sua rival estratégica, atacando um dos principais pontos fracos da China, sua alta dependência de hidrocarbonetos.
Importando diariamente cerca de 11,6 milhões de barris de petróleo em 2025, o que lhes confere a primeira posição mundial nesse quesito, os chineses suprem suas necessidades por intermédio de vários fornecedores, havendo três em particular que lhes permitem descontos especiais e pagamentos em yuan: a Venezuela, já neutralizada, o Irã e a Rússia.
A forma de comercialização desse produto pelos três países vem permitindo driblar o acordo firmado em meados da década de 1970 pelos Estados Unidos, quando a ancoragem do dólar, que até 1971 era lastreada no ouro, passou a ser feita por meio da comercialização do petróleo – os chamados petrodólares –, viabilizando a contínua hegemonia financeira estadunidense.
A grande conclusão a que se chega é que o poderio militar, econômico e financeiro estadunidense ainda persiste praticamente sem contraponto. E assim, em menos de uma hora, mais uma vez uma pequena fração do imenso poder militar dos Estados Unidos foi demonstrada sem que houvesse qualquer chance de resposta por parte do Irã
Embora a tentativa de romper ou burlar a exclusividade do uso da moeda norte-americana para transações envolvendo petróleo não seja uma novidade – tendo sido, em parte, a razão da deposição de Muammar Kadafi na Líbia e de Saddam Hussein no Iraque –, essa empreitada nunca foi realizada de maneira coordenada como aparentemente está sendo feita pela China no contexto da atual competição acirrada.
A derrubada de Nicolás Maduro na Venezuela, sem que se objetivasse remover as lideranças do regime venezuelano e democratizar o país, bem como as tentativas de aproximação com Vladimir Putin desconsiderando os legítimos interesses da Ucrânia, evidenciam uma estratégia muito bem formulada por Washington: a defesa da hegemonia geral estadunidense e financeira do dólar como moeda de referência internacional, cuja participação nas reservas internacionais estava em 57% em 2025 – comparativamente, em 2000 era de 71%.
Nesse sentido, o controle do Irã é estratégico. Além de impedir a venda de petróleo barato em yuan para Pequim, interrompe-se a Rota da Seda, atrapalhando os propósitos chineses de expansão comercial. Portanto, o plano de Donald Trump e de sua equipe de conselheiros vai muito além do reset comercial – e da reindustrialização dos EUA – por meio da imposição de tarifas. O que a Casa Branca almeja é reposicionar o país em uma nova realidade global tripolar (EUA, China e Rússia), com forte inclinação para a tetrapolaridade (com a inclusão da Índia). A Europa, que até poderia ser um quinto polo, encontra-se enfraquecida, sendo completamente desconsiderada por Trump nessa equação.
Exatamente como aconteceu com a Venezuela, os EUA também preferiam uma solução negociada com o Irã. Diante da resistência de Caracas, Washington deflagrou a ação que, no início de janeiro de 2026, captou e retirou Maduro do poder, passando a negociar com as demais lideranças do regime.
Um método bastante semelhante foi utilizado no episódio do Irã. A cessação da Guerra dos Doze Dias contra a vontade de Tel Aviv partiu do princípio de que seria possível negociar, nos termos firmados por Washington, com Teerã em troca da manutenção do regime. Como isso se mostrou impraticável, a neutralização das principais autoridades políticas e militares da república islâmica passou a ser quase que uma condição para viabilizar a interrupção do suprimento de petróleo para a China – que, em essência, é o escopo central dos EUA – e para destruir a força ofensiva (de mísseis balísticos e hipersônicos, por exemplo) e a capacidade bélico-nuclear dos iranianos. Para tanto, a Casa Branca, em uma convergência de interesses, valeu-se indiretamente do poderio bélico de Israel em seu benefício, e não o oposto, como alguns argumentam.
De um modo geral, a desistência norte-americana de prosseguir nas conversações que estavam sendo levadas a cabo com o regime dos aiatolás tem pelo menos cinco explicações: Washington concluiu que Teerã apenas desejava ganhar tempo; que o iminente fornecimento de sofisticados mísseis antinavio chineses aos iranianos reduziria, ou até mesmo neutralizaria, a efetividade das forças navais norte-americanas; que a proximidade da entrega dos caças Sukhoi Su-35 Super Flanker e de sistemas adicionais e mais sofisticados de defesa aérea e contra interferência eletrônica poderia prejudicar uma ofensiva estadunidense; que o Irã, de maneira intensa, estava elevando seus estoques balísticos – sua cadência de fabricação era de 100 unidades por mês; e que determinadas fontes, inclusive a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), estimam que o regime iraniano – que já enriquece urânio a 60%, percentual muito próximo ao mínimo necessário para se fabricar um artefato atômico – possua um estoque de urânio entre 400 e 600 kg, que não foi destruído pela “Operação Midnight Hammer”, suficiente para a construção de algo entre 10 e 15 ogivas nucleares.
Outro fator que acelerou o início do conflito foi o desdobramento, por parte de Teerã, do míssil hipersônico Fattah-2. De forma diferenciada dos artefatos balísticos tradicionais, que possuem trajetória parabólica, o Fattah-2 é capaz de fazer manobras evasivas em velocidades próximas de Mach 5, por meio de seu veículo de planeio – que forma o conhecido rastro de “cauda de dragão” –, tornando-o ainda mais difícil de ser interceptado pelos sistemas antibalísticos atuais.
Costuma-se dizer que “nada é mais caro do que uma oportunidade perdida”. Levando a frase ao pé da letra, os Estados Unidos identificaram com precisão o timing para a denominada “Operação Fúria Épica”: a manhã do dia 28 de fevereiro de 2026, um sábado, quando os conceituadíssimos aparatos de inteligência de Washington e Tel Aviv constataram que a cúpula iraniana estava reunida em um mesmo lugar em Teerã.
A grande conclusão a que se chega é que o poderio militar, econômico e financeiro estadunidense ainda persiste praticamente sem contraponto. E assim, em menos de uma hora, mais uma vez uma pequena fração do imenso poder militar dos Estados Unidos foi demonstrada sem que houvesse qualquer chance de resposta por parte do Irã. Trump, que de Mar-a-Lago acompanhava o desenrolar dos ataques, parece estar radiante com o êxito da missão. Mas ele sabe que o sucesso de sua política externa se subordina quase que exclusivamente ao apoio popular dos norte-americanos e, sobretudo, congressional, o “calcanhar de Aquiles” que seus rivais China e Rússia, duas autocracias, não possuem.
Reis Friede é professor emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), professor honoris causa da Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR), professor emérito da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais do Exército (EsAO), conferencista especial da Escola Superior de Guerra (ESG) e membro da Sociedade Brasileira de Direito Aeroespacial (SBDA), da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED), do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (IGHMB), da Academia Brasileira de Defesa (ABD) e do Conselho Superior do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica (INCAER). É autor das obras "China Disruptiva (O Projeto de Dominância Global de Pequim)" e "Deterrência Estratégica na Primeira e na Segunda Guerra Fria" e coautor do livro "Das Novas Guerras (Fenomenologia dos Conflitos Armados)". Site: https://reisfriede.wordpress.com/. E-mail: reisfriede@hotmail.com / publicacoesreisfriede@gmail.com.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







