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Estamos conversando menos hoje em dia. O ruído gerado pela inteligência artificial pode estar aumentando, mas nós, humanos, estamos falando menos uns com os outros, com nossas conversas sendo substituídas pela tecnologia digital. Um professor de psicologia questiona se isso não seria um mau presságio para o nosso florescimento: o fato de nós, que somos animais sociais, sermos agora menos verbais, menos sociais do que nunca.
Em O Sobrinho do Mágico, de C.S. Lewis, Aslan, o leão, toca seu nariz no nariz de alguns animais na recém-criada terra de Nárnia. Aqueles que recebem esse toque de Aslan se tornam Animais Falantes, distintos dos demais. Isso nos remete ao relato do livro de Gênesis, em que o Senhor Deus soprou nas narinas do homem o fôlego da vida. Há algo maravilhoso na forma como Lewis descreveu o que significa ser feito à imagem e semelhança de Deus.
A palavra logos significa razão, fala. Deus é o Logos, e nós, humanos, fomos feitos à Sua imagem. O salmista diz que “somos o povo do Seu pasto e as ovelhas do Seu rebanho”. Ovelhas falantes, como em Nárnia, não estariam muito longe da realidade. Somos animais racionais, animais dotados de fala.
Se a razão e a fala estão tão conectadas e constituem quem somos, não seria surpreendente que menos conversas, menos dessa atividade com suas intrínsecas e ricas conexões humanas, levassem a um emburrecimento, até mesmo a uma diminuição da nossa humanidade. Haveria menos conversa, menos conexão com os outros. Nos aprimoraríamos menos, navegaríamos menos por situações difíceis, refletiríamos menos. Teríamos mais dificuldade em construir e reparar amizades, por não termos praticado tanto essa arte.
Conversando menos, estaríamos menos familiarizados com as necessidades e as complexidades uns dos outros. Celebraríamos e encorajaríamos menos uns aos outros — amaríamos menos. Essa é uma vida mais empobrecida, solitária, sem amor
Sem dúvida, existem momentos famosos em que falar menos, ou mesmo o silêncio, prevalece — o que condiz com o fato de que, no mundo caído, o pecado não falta na profusão de palavras. Cordélia, em Rei Lear, recusando-se a participar do jogo do amor ostentoso por meio da fala para fins transacionais vulgares, diz para si mesma: “O que Cordélia deve dizer? Amar e calar-se”. Também houve silêncio ordenado aos filhos de Israel enquanto marchavam ao redor da cidade de Jericó, assim como silêncio imposto ao sacerdote Zacarias ao receber a notícia de que ele e sua esposa, idosos e estéreis, conceberiam um filho, que seria João Batista.
Poderíamos interpretar isso como disciplina — autoimposta, no caso de Cordélia, cujo nome significa coração e que, de fato, ama seu pai, o rei, mais do que todos os seus irmãos, recusando-se a banalizar esse amor ao ceder às suas artimanhas. Ou, no caso dos filhos de Israel e de Zacarias, como disciplina imposta de fora, por Josué, líder dos israelitas, e pelo anjo Gabriel, que trouxe a notícia a Zacarias, para que a bênção que aguardava cada um não fosse prejudicada por murmúrios ou falta de confiança. Nesses casos, então, a observação do homem mais sábio, Salomão, ressoa verdadeira: “Sábio é aquele que refreia os lábios”. Mas, em nenhum desses casos, o silêncio foi uma falha, um estado degenerativo, uma acídia para os nossos tempos. Foi uma disciplina para que, no fim, cada um pudesse se manter firme e íntegro.
O estado de ignorância e de embrutecimento não é o mesmo que o estado de espanto ou, talvez melhor dizendo, de admiração reverente diante da glória. Ao ouvir Deus responder às suas perguntas em meio a muito sofrimento, Jó diz: “Falei coisas que não entendia, coisas maravilhosas demais para mim, que eu não conhecia”. O Pregador ensina: “Pois Deus está no céu, e você na terra; portanto, sejam poucas as suas palavras”.
G.K. Chesterton narra o encontro de São Tomás de Aquino, durante a celebração da missa, com algo “cuja natureza jamais será conhecida entre os mortais”. São Tomás tinha um amigo de confiança, um frade chamado Reginaldo. Reginaldo pediu-lhe que voltasse a escrever, algo que, aparentemente, ele havia parado de fazer — afinal, São Tomás era o mais prolífico e contemplativo Doutor da Igreja. São Tomás respondeu: “Não posso mais escrever”. Um silêncio pareceu se instalar quando Reginaldo lhe fez a mesma pergunta. Chesterton nos conta: “Tomé respondeu com ainda mais vigor: ‘Não posso mais escrever. Vi coisas que tornam todos os meus escritos como palha’”.
São Paulo escreve sobre como foi “arrebatado ao Paraíso e ouviu palavras inefáveis, que não é lícito ao homem proferir”. Será que é disso que São Pedro nos fala: “alegria indizível e cheia de glória”? Será um vislumbre de glória tão maravilhosamente esplêndida que transcende as palavras? Se assim for, que dom, próprio daqueles que exerceram e responderam fielmente ao chamado à contemplação.
Isso certamente não é o mesmo que o estado de falar e conversar menos uns com os outros que nos acometeu ultimamente, ou que permitimos que nos acometesse. É, na verdade, o extremo oposto. Enquanto um se dedica à contemplação e à busca da Verdade, da ordem e do Logos, tornando-se cada vez mais humano, o outro é como um músculo atrofiado: relacionamentos atrofiados, capacidade atrofiada, eu atrofiado — humanidade atrofiada e diminuída.
Cantemos com o salmista: “A minha língua é a pena de um escritor habilidoso”
Para onde vamos a partir daqui? Se a atrofia é uma manifestação honesta disso, se estamos falando, entre outras coisas, de capacidade — algo que podemos nos disciplinar para exercitar —, e se nos dedicássemos a fazer coisas profundamente humanas com palavras e relacionamentos? Como seres do logos, seria bom para nós ler e falar palavras. Então, seria bom ler livros e conversar sobre eles com amigos e familiares, deixar de lado o hábito de ficar sentado rolando a tela, assistindo a vídeos em diversos dispositivos iluminados, figuras tremeluzentes se movendo incessantemente nas paredes da caverna. Seria bom ler para nossos filhos, fazendo perguntas e conversando ao longo do caminho, convidando-os a questionar, a se maravilhar e a contemplar.
Seria bom ter amigos e desamparados compartilhando o pão em nossas casas com hospitalidade, abrindo espaço para conversa e reflexão, espaço para novas e mais profundas amizades. E, se é verdade que devemos ler palavras e livros, certamente devemos ler a Palavra, o Livro dos livros. Talvez possamos até diminuir o ritmo e cantar os salmos com os crentes através do tempo e do espaço, dedicando um tempo para saborear cada palavra, cada entonação e cada sílaba. Cantemos com o salmista: “Minha língua é a pena de um escritor habilidoso”.
Abraão hospedou estrangeiros e, ao fazê-lo, sem saber, hospedou o próprio Senhor. Se formos tão insensíveis a ponto de sabermos menos como nos relacionar uns com os outros, corremos o risco de também sabermos menos como nos maravilhar, contemplar e render a Deus a devida gratidão e o devido louvor, como deveríamos fazer, de acordo com nossa natureza.
Depois de Aslan criar os Animais Falantes, ele lhes diz: “Criaturas, eu lhes dou a si mesmos… Eu lhes dou as estrelas e a mim mesmo… Tratem [os Animais Mudos] com gentileza e acariciem-nos, mas não voltem aos seus costumes, para que não deixem de ser Animais Falantes. Pois deles vocês foram tirados e para eles podem retornar. Não façam isso.” Corremos agora o risco de nos tornarmos menos nós mesmos: animais racionais, dotados de fala. Que possamos nos afastar dos nossos maus hábitos e, em vez disso, dizer: “Ó Senhor, abre os nossos lábios, e a nossa boca proclamará o Teu louvor.”
Adeline A. Allen é colaboradora do Public Discourse, professora de Direito na Califórnia (EUA) e pesquisadora associada do Centro de Bioética e Dignidade Humana. Sua pesquisa concentra-se nos fundamentos do direito natural do direito contratual e da família, na visão da pessoa humana na bioética e na natureza dos contratos. Alguns de seus trabalhos acadêmicos e escritos foram publicados no Harvard Journal of Law & Public Policy, Public Discourse, First Things, Church Life Journal, World e CiRCE Institute.
©2026 The Public Discourse. Publicado com permissão. Original em inglês: No Less a Talking Sheep



