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A importância estratégica do setor primário brasileiro

Se o setor primário brasileiro perder força, não só o Brasil, mas o resto do mundo fica mais pobre. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Quando se fala em economia, sabemos que os estudiosos do ramo normalmente separam, para fins didáticos, os setores econômicos de um país, classificando-os como primário, secundário e terciário. O setor primário seria referente à agricultura, pecuária, pesca e extrativismo vegetal ou mineral.

É comum vermos opiniões críticas a respeito da economia brasileira no sentido de que ela é baseada no setor primário. Muitas opiniões são no sentido de que precisamos desenvolver nossa indústria e serviços, pois tais atividades geram mais valor adicionado (ou agregado). Essa opinião é pertinente, mas muitas vezes dá um tratamento pejorativo para o setor primário do país, que possui uma importância estratégica não apenas do ponto de vista da geopolítica, mas também da própria economia brasileira. Como assim?

Se temos um setor primário forte e a riqueza não está sendo mantida aqui, devemos desenvolver, sim, o setor secundário e o terciário. Mas não podemos deixar de reconhecer a importância do setor primário brasileiro para nossa economia e para o mundo

Bem, primeiramente devemos lembrar que somos um país capitalista e a atividade econômica do nosso setor privado visa sempre o lucro. Um bom país capitalista é aquele onde todos estão lucrando (pelo menos no longo prazo, já que eventualmente alguém pode ter prejuízo por certo tempo). O lucro não é visado apenas pelas empresas, mas também pelos trabalhadores. É errado dizer que são apenas os empresários que lucram. Isso não é verdade: toda vez que alguém ganha mais do que gasta em um determinado período podemos dizer que a pessoa obteve lucro. Os trabalhadores, quando ganham mais do que gastam, estão tendo lucro.

O leitor pode estar achando estranho que seja possível todos lucrarem. Como é possível todos os agentes da economia obterem lucro e ninguém sair no prejuízo? Isso acontece pois, se considerarmos o Brasil como uma economia isolada, ou até se olharmos para o mundo todo como um sistema isolado, veremos que todos estão lucrando porque “alguém” está tendo prejuízo – e esse alguém é a natureza. Sim, se olharmos a contabilidade de todas as pessoas do mundo por longos períodos, chegaríamos à conclusão de que todos estão lucrando, e isso só é possível porque o mundo está retirando riqueza de algum lugar. Estamos falando dos recursos naturais existentes na natureza. É a natureza que perde riqueza quando as empresas e indivíduos do mundo enriquecem.

Isso significa que, enquanto o mundo tiver amplos recursos naturais disponíveis, será possível para todos do mundo lucrarem. Nesse cenário, o setor primário da economia assume um papel estratégico: é ele quem gera riqueza nova no mundo. Se os recursos naturais não pudessem ser extraídos, o que teríamos é uma sociedade onde, se alguém está tendo lucro, alguém necessariamente teria que arcar com o prejuízo. Se olhássemos a contabilidade do mundo todo em um cenário onde não é possível extrair riquezas da natureza, o que veríamos é que alguns teriam lucro, outros prejuízo, de maneira que o balanço geral dos indivíduos do mundo, somado, não daria resultado nem positivo nem negativo – ficaria no zero a zero. A não ser, é claro, que levemos em conta que dinheiro novo pode ser impresso, mas isso não entra nessa análise, já que não haveria riqueza real nova; o dinheiro adicional seria apenas resultado de inflação.

Isso significa que o mundo precisa muito do setor primário, pois ele é quem gera a riqueza nova e permite que todos lucrem. Imaginem o cenário acima exposto, onde a sociedade fica no zero a zero, sendo que necessariamente o lucro será oriundo de um prejuízo. Certamente uma economia nesses moldes teria um ambiente social muito tenso.

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Quando olhamos para os países com o maior setor primário do mundo, vemos que o Brasil está entre os maiores. Este autor não achou um ranking que considere todas as atividades do setor primário em conjunto; foram encontrados apenas dados isolados sobre agropecuária, mineração etc., mas certamente o Brasil está entre os cinco maiores setores primários do mundo. O significado disso é que o Brasil é um grande gerador de riqueza nova e, se o nosso PIB não está entre os cinco maiores do mundo, é porque a riqueza nova está saindo daqui e indo para o exterior.

Não se defende aqui que o Brasil não se industrialize. Não é isso. Aliás, é o contrário: se temos um setor primário forte e a riqueza não está sendo mantida aqui, devemos desenvolver, sim, o setor secundário e o terciário. Mas não podemos deixar de reconhecer a importância do setor primário brasileiro para nossa economia e para o mundo. Se o setor primário brasileiro perder força, não só o Brasil, mas o resto do mundo fica mais pobre.

A ideia, portanto, é que o Brasil respeite seu setor primário e o incentive, mas lembrando que a riqueza nova que produzimos pode perfeitamente ficar, em maior proporção, por aqui, o que ocorreria com o desenvolvimento dos setores secundário e terciário. Outra ideia que se extrai aqui é o perigo de restrições ambientais excessivas no Brasil, que enfraqueceriam nosso setor primário e gerariam pobreza não só no nosso país, mas também no resto do mundo.

Pedro Augusto de Almeida Mosqueira é bacharel em Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), especialista em Direito Financeiro e Tributário pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e advogado no Rio de Janeiro.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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