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Recentemente, uma editora brasileira suspendeu um concurso literário ao constatar que inúmeras obras submetidas foram claramente geradas por inteligência artificial. Apesar de surpreender alguns, esse fato está longe de ser espantoso.
Mustafa Suleyman e Michael Bhaskar, no livro A próxima onda, destacaram o impressionante desempenho do GPT-4, lançado em março de 2023, no campo da linguagem literária.
Segundo os autores, tal como seus antecessores, “você pode pedir ao GPT-4 para compor poesia no estilo de Emily Dickinson, e ele o atenderá; pedir que continue a partir de um trecho aleatório de O Senhor dos Anéis, e subitamente estará lendo uma imitação plausível de Tolkien” (p. 86).
Já outros entusiastas da inteligência artificial, como Laurent Alexandre, acreditam que essa tecnologia poderá superar os humanos na produção literária, considerando tanto a quantidade quanto a profundidade do conhecimento sobre a condição humana que a IA pode reunir em minutos — ou segundos — dependendo do gênero literário em questão.
Não resta a menor dúvida de que a inteligência artificial tem acesso a um repertório de saber sobre o humano ao qual nenhum escritor pode ter acesso. Ela pode escrever textos em quaisquer gêneros e com uma técnica mais perfeita que a de qualquer escritor vivo ou por nascer. Porém, há algo que todo escritor possui e que nenhuma IA tem ou terá, nem hoje nem provavelmente nunca: a capacidade de fantasiar.
Assim, do ponto de vista da produção, pode ser que a inteligência artificial seja superior a qualquer gênio humano; porém, do ponto de vista da recepção, duvido muito que o mesmo sucesso seja possível.
A conexão profunda que liga obra e leitor não é o refinamento da técnica, tampouco a vastidão do conhecimento racional.
A pulsação vem da comunicação que se faz de inconsciente a inconsciente, ou seja, do ressoar da fantasia do escritor na fantasia do leitor, mediado pelo texto literário
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A capacidade que uma obra literária tem de encantar gerações futuras, como Madame Bovary, de Gustave Flaubert, não se deve apenas à perfeição de sua técnica, ou seja, ao trabalho com a linguagem que faz do escritor um artesão. Essa é uma de suas faces, muito importante, diga-se de passagem.
Porém, como argumenta Vincent Jouve, em seu livro Por que estudar literatura?, o que torna um livro suscetível de dialogar com as gerações posteriores é o seu conteúdo: de humano para humano, digamos assim, ou seja, a força de seduzir e acionar a imaginação dos leitores.
Sigmund Freud, já em 1908, dizia que o prazer estético — esse prazer que sentimos ao testemunhar a engenhosidade com que o escritor trabalha a linguagem para dizer o que diz — é um prazer preliminar, ou seja, um bônus que o autor oferece ao leitor para seduzi-lo a fruir de um prazer mais intenso e mais profundo: o de sua própria fantasia, com segurança e sem culpa. Por isso, uma boa resposta à pergunta “como você escreveu um livro tão bom?” poderia ser, à maneira de Jacques Lacan: “eu fiz com meu inconsciente”.
Para finalizar, poderia dizer, seguindo os argumentos de Gilles Lipovetsky em seu livro A sagração da autenticidade, que, em uma época em que cada vez mais os consumidores — incluindo-se aí os leitores — exigem originalidade e autenticidade, obras literárias cuja autoria seja de inteligência artificial podem até pipocar, mas dificilmente encantarão. Isso, principalmente com um brilho eterno como o de uma Clarice Lispector, de um Saramago, de uma Sylvia Plath, de um García Márquez e de tantos outros e outras que já vieram, que estão aqui e que ainda virão.
Francisco Neto Pereira Pinto é professor universitário, escritor e psicanalista. Doutor em Ensino de Língua e Literatura. É autor de “À beira do Araguaia”.



