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Opinião do dia 3

A magia da peste branca

A infecção tuberculosa é uma enfermidade descoberta há 6 mil anos em múmias do Egito, com a etiologia revelada em 1882 por Roberto Koch e a cura atingida em 1943, com a descoberta da estreptomicina.

Sem adversários durante milhares de anos, a entidade foi recordista absoluta de vítimas, influindo poderosamente na história, na política, no progresso e nos destinos da humanidade estendendo suas preocupações até os dias de hoje.

A contaminação acontece pelo ar. Ao espirrar, o portador expele 2 milhões de bacilos e, pela tosse, 3,5 mil são disseminados. A sintomatologia inclui febre, suor noturno, dor no tórax, inapetência, desânimo, prostração, perda de peso e de apetite.

Até o surgimento de seu antibiótico específico, o diagnóstico da tuberculose carimbava um atestado de óbito. Assim era quando me formei e me comovi ao encontrar no Sanatório São Sebastião da Lapa o Gastão, meu colega do ginásio.

Doença dos intelectuais, dos poetas, dos músicos e dos pintores, de Mozart, Chopin, Beethoven e Balzac. Houve tempo em que a entidade impregnou-se de um misticismo romântico ao se constatar no Brasil mais de cinqüenta vates acometidos do mal: Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Castro Alves, os três sempre citados, mais Cruz e Souza, Orides Fontela, José Newton de Freitas e tantos outros.

O mal encontrou seu apogeu na segunda metade do século XIX, na França, a influir nos destinos da sociedade durante o reinado de Luiz XIII e do cardeal Richelieu, ambos tuberculosos. No auge da fase lírica, ocorrida na segunda metade do século XIX, quando o polonês Frederic Chopin chegou a Paris trazendo na fisionomia os estigmas do mal, sua palidez virou moda e o "grand monde" passou a empoar mais as faces, porque a doença era elegante. Sua biografia, amores, composições, a vida sexual com George Sand, a inspiração que aumentava à proporção que os pulmões se deterioravam, tudo se compôs para torná-lo um autêntico símbolo da entidade e seu mais referido exemplo. Faleceu aos 39 anos, mas seu retrato, pintado por Delacroix, também tuberculoso, mostra uma fisionomia de 70. Um gênio que fez do "piano uma verdadeira orquestra" com harmonias às vezes líricas e alegres, outras amargas e trágicas. Chopin é o primeiro exemplo quando se fala em tuberculose.

Moliére, Goethe, Descartes, Kant, Rousseau, Balzac, Braille, Thomas Mann, Alfred Musset, Beethoven, Maximo Gorki, Rousseau, Edgar Allan Poe, Franz Kafka, Somerset Maughan, Henrique VIII , o "Rei de Roma", filho de Napoleão, Dom Pedro I e Nelson Rodrigues, nosso cronista satânico, foram tuberculosos.

Em seu currículo mórbido a "peste branca" amealha 16 reis ou imperadores, 2 rainhas, 101 escritores, 110 poetas, 40 cientistas, 8 filósofos, 16 músicos, 4 pintores e 9 santos. Antes da estreptomicina os mais absurdos meios de tratamento foram usados: revulsivos, vacinas, banhos sulfurosos, sanguessugas, sangrias com a recomendação de repouso, superalimentação e clima de montanhas. Nesse tempo acreditava-se muito na cura espontânea da doença.

A tuberculose perdeu sua aura a partir do século passado, após a descoberta do bacilo pelo cientista alemão Robert Koch, quando as estatísticas vieram comprovar sua maior incidência na população pobre, operários e trabalhadores, gente menos preservada na infância e na adolescência.

Avançando do passado para o presente, da história para a realidade, podemos afirmar hoje que a partir da estreptomicina, vinda em 1943 pelas mãos do bioquímico americano Abraham Waksman, a tuberculose é uma doença curável. Uma afirmação que alterou universalmente seu perfil epidemiológico e o conceito do mal, a repercutir substancialmente nos anais da história. Sem problemas de diagnóstico, adrede resolvidos por conquistas passadas, ela tem hoje seu tratamento sistematizado A terapêutica é o RHZ, composição que associa três medicamentos para conter os efeitos complementares da estreptomicina. Uma fórmula usada durante seis meses, tempo necessário para o alcance da cura radical e definitiva. Na colheita desses resultados, a incidência diminuiu sensivelmente e em função do atendimento ambulatorial, os sanatórios passaram a ser desativados até desaparecerem por completo, na década de 60.

O último século foi caracterizado por vários capítulos desse enredo, a variar em função das conquistas da ciência, da interpretação do público, dos estudos, das estatísticas, de todos os ingredientes que marcam a opinião pública e a visão esclarecedora dos pesquisadores. Hoje a tuberculose é um problema de saúde pública, com medidas específicas para sua erradicação. Problema que enfrenta obstáculos na resistência bacteriana, requerendo novos reforços antibióticos para a linha de frente no tradicional combate entre os micróbios e os cientistas. Uma guerra milenar na qual sofremos todas as derrotas, compensadas por alguns anos de longevidade, esperançando um sonho de cento e vinte anos até o fim do século. A medicina procura ampliar a vida após os 70, faixa em que as entidades se apressam no cumprimento dos seus deveres. Sereno lago azul, algumas vezes mar fremente, a vida tem predadores para todas as idades.

Lauro Grein Filho é presidente da Cruz Vermelha e do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.

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