Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Artigo

A minha escala é 7 x 0, com muito orgulho

Jornada de Trabalho menor pode aumentar custos das empresas, diz CNI: contratação por carteira assinada pode ficar mais cara (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.)

Ouça este conteúdo

Sou de uma geração que ouvia, desde a infância, os mais velhos dizerem que o trabalho dignifica, engrandece e enobrece o homem. Ocupar um novo emprego era motivo de orgulho para toda a família. Galgar novos espaços no mercado de trabalho era o objetivo de todos, assim como ascender e ocupar postos mais altos, com mais carga de trabalho e de responsabilidade. Essas memórias têm permeado meus pensamentos sempre que ouço os argumentos daqueles que querem mudar a escala de trabalho no Brasil, reduzindo a jornada.

O debate é válido, claro. Os tempos são outros, muita coisa mudou, como processos, velocidade, equipamentos, rotinas… Mas isso deveria servir para aumentar a produtividade, melhorar as entregas e o resultado final, e não para se debater redução de jornada. Trabalho, para mim, é virtude. Tenho orgulho da minha escala 7 x 0. Não a vejo como castigo. Pelo contrário.

Quem hoje defende a redução da jornada de trabalho é inimigo do Brasil e está agindo em busca de votos, sem pensar nas consequências da medida ao setor produtivo. É preciso serenidade, valorização do pequeno e médio empreendedor e discernimento para, no momento correto, iniciar o debate

Além disso, o debate sobre esse tema precisa ser técnico, e não político. Em um ano eleitoral, isso é impossível. Será um processo contaminado pela busca de votos, pelo “holofote” das redes sociais, sem que se discutam impactos na economia e na geração de empregos. Já dizia o economista Roberto Campos: o início do processo da distribuição da riqueza é respeitar quem produz. Os empreendedores precisam ser ouvidos quando essa temática realmente tiver contexto para surgir à mesa.

Outro aspecto que precisa ser levado em consideração é a produtividade brasileira, ainda baixa e ineficiente. Temos crises que precedem essa discussão da jornada de trabalho. Temos problemas fiscais, econômicos e até uma crise moral que desvirtua o debate. O trabalho é realização, fonte de renda, origem da prosperidade familiar, da sustentabilidade de um país e do crescimento da sociedade. É fato que o Brasil – hoje – tem uma baixa produtividade crônica, resultado de outra crise, a educacional. Dados atuais confirmam que 30% dos adultos brasileiros são analfabetos funcionais.

VEJA TAMBÉM:

Ao defender o adiamento desse debate, a nossa ótica não é contra o trabalhador. É o inverso disso. Afinal, seguimos tudo o que está previsto na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Ao exigir que a discussão ocorra com bases técnicas e profundas, estamos preocupados em não aumentar custos, o que levaria ao crescimento do desemprego e da inflação, em um ciclo que já vimos ocorrer na economia brasileira. Por isso a defesa de que se siga o que já está estabelecido: o negociado prevalecendo sobre o legislado. Há diferentes e inúmeros processos de produção no nosso país. E os mais afetados com qualquer redução serão a base da economia, os pequenos e médios empreendedores, que já sofrem com mão de obra escassa e margem de lucro mínima, decorrente da crise fiscal, que sempre os prejudica.

Quem hoje defende a redução da jornada de trabalho é inimigo do Brasil e está agindo em busca de votos, sem pensar nas consequências da medida ao setor produtivo. É preciso serenidade, valorização do pequeno e médio empreendedor e discernimento para, no momento correto, iniciar o debate. O Brasil não está preparado para discutir esse tema agora, e os parlamentares precisam ter esse entendimento e assumir essa responsabilidade. Impor uma mudança na jornada de trabalho será uma medida nefasta para o Brasil.

Alfredo Cotait Neto é presidente da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB).

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.