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A nova defesa global depende da tecnologia e o Brasil precisa se preparar

Na nova ordem da defesa global, o peso dos países será medido menos pelo tamanho de seus arsenais e mais pelo controle que exercem sobre tecnologias (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Não se trata mais de ciclos episódicos de tensão, mas de um ambiente contínuo no qual poder, dissuasão e influência são exercidos de forma quase invisível, por meio de tecnologias, dados e capacidades sistêmicas de defesa. Nesse novo contexto, sensores, sistemas embarcados, arquiteturas de comando e controle, interoperabilidade e processamento de informações deixam de ser apenas instrumentos militares e passam a configurar ativos geopolíticos centrais.

A natureza da defesa contemporânea mudou. Plataformas isoladas perderam relevância frente a sistemas integrados, conectados e orientados por informação. O valor estratégico não está apenas no vetor aéreo, naval ou terrestre, mas na capacidade de perceber o ambiente, fundir dados em tempo real, decidir com velocidade e agir de forma coordenada. Quem domina essas camadas críticas controla não apenas o campo de batalha, mas a lógica do conflito.

É nesse cenário que a posição do Brasil precisa ser compreendida. O país não se afirma por projeção de poder clássico, mas por sua capacidade de autonomia tecnológica em domínios sensíveis. Em um mundo de cadeias de suprimento frágeis, restrições à transferência de tecnologia e crescente fragmentação industrial, depender de soluções externas para sistemas críticos significa aceitar vulnerabilidades estratégicas permanentes.

Dominar tecnologias de defesa como sensores eletro-ópticos e infravermelhos, aviônicos avançados, sistemas de missão, enlaces de dados seguros, arquitetura aberta de sistemas embarcados e soluções de comando e controle não é luxo, tampouco retórica industrial. Trata-se de soberania funcional. Essas capacidades definem quem pode operar de forma independente, quem consegue integrar forças conjuntas e combinadas e quem permanece refém de permissões, atualizações e limitações impostas por terceiros.

A interoperabilidade, em especial, tornou-se um divisor de águas. Não basta possuir meios modernos; é essencial que eles conversem entre si, compartilhem consciência situacional e operem em redes resilientes. Países capazes de desenvolver seus próprios data links táticos, sistemas C2 escaláveis e soluções de integração multiplataforma ampliam exponencialmente sua relevância estratégica, inclusive como parceiros confiáveis em operações multinacionais.

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O Brasil já demonstra que é possível ocupar esse espaço. Soluções nacionais em sistemas embarcados, integração de sensores, enlaces de dados e centros de comando mostram que existe competência técnica, engenharia sofisticada e visão sistêmica para atuar nesse nível de complexidade. Mais do que produtos, trata-se de domínio de conhecimento, de capacidade de evoluir sistemas ao longo do tempo e de adaptar soluções a diferentes cenários operacionais.

Na nova ordem da defesa global, o peso estratégico dos países será medido menos pelo tamanho de seus arsenais e mais pelo controle que exercem sobre tecnologias críticas. Para o Brasil, o caminho não passa pela imitação de modelos externos, mas pela consolidação de uma base tecnológica própria, capaz de sustentar decisões soberanas, ampliar parcerias em pé de igualdade e transformar conhecimento em ativo estratégico duradouro. Competição estratégica permanente exige autonomia permanente. E, nesse jogo, tecnologia não é apenas meio; é poder.

Sebastian Watenberg é consultor em relações institucionais e governamentais, com atuação em âmbito nacional e internacional, especialmente nos setores de Defesa e Segurança. Foi diretor de Promoção Comercial, Atração de Investimentos e Assuntos Internacionais do governo do Rio Grande do Sul e professor universitário. É graduado em Direito e possui MBA em Gestão Executiva pela ESPM-RS e pela Universidade Antonio de Nebrija, na Espanha.

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