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Há projetos que se medem pelo que construíram e há os que se revelam pelo que tentaram destruir. O 7 de outubro de 2023 foi uma tentativa de apagamento: apagar vidas, lares e a própria ideia de que israelenses pudessem voltar a cantar e sonhar nas comunidades do sul de Israel. Naquele dia, milhares de terroristas liderados pelo Hamas invadiram Israel, num ataque marcado por assassinatos, mutilações, pessoas queimadas vivas e violência sexual — o dia mais mortal para os judeus desde o Holocausto. Cerca de 1.200 pessoas foram assassinadas e 251 sequestradas. Entre elas estava Sagui Dekel-Chen. Durante 498 dias, seus sequestradores aprisionaram seu corpo. Não conseguiram aprisionar sua mente.
No gramado central do Kibutz Nir Oz, o mesmo que, desde então, serviu principalmente como lugar de luto, cerca de 3.000 pessoas se reuniram, no dia 10 de agosto, para ouvir Dekel-Chen apresentar ao vivo, pela primeira vez, seu álbum Minus One. As nove músicas nasceram nos túneis de Gaza.
Ferido e sem saber sequer se a mulher e as filhas haviam sobrevivido ao massacre, Dekel-Chen encontrou refúgio no único lugar que seus sequestradores não podiam alcançar: sua imaginação. Ele compôs e memorizou nove canções, que só gravou no celular dois dias após sua libertação, em fevereiro de 2025. Uma delas foi feita para a filha caçula, nascida durante o cativeiro e que ele só conheceria ao voltar. Compunha para uma criança que nunca havia segurado nos braços. Outra canção nasceu quando, depois de cerca de dois meses sem ver a própria imagem, ele se viu no espelho de um corredor escuro. Mal se reconheceu.
Essa história é uma das piores notícias que o Hamas poderia receber. Não porque desminta suas alegações de “resistência”, mas porque expõe os limites de um projeto de desumanização
A prisão retirou de Dekel-Chen a liberdade e o contato com a família, mas não conseguiu controlar o que acontecia dentro de sua cabeça. Minus One, o nível subterrâneo dos túneis, virou o título de um álbum sobre amor e esperança.
Isso não romantiza o sofrimento. Nenhuma música transforma 498 dias roubados em experiência necessária. Dekel-Chen não precisava sofrer para criar. O extraordinário é que seus sequestradores, capazes de controlar quase tudo ao seu redor, não podiam controlar aquilo que ele imaginava, lembrava e criava. Foi nesse espaço de liberdade que nasceram as nove canções.
Deve ser simbolicamente devastador para o Hamas perceber que o mesmo gramado de Nir Oz, palco de tanto horror, se tornou palco de um show. Ali também vivia a família Bibas: Shiri foi sequestrada com os filhos Ariel, de 4 anos, e Kfir, de apenas 8 meses. A cor laranja, em referência aos cabelos ruivos dos dois meninos, se tornou um dos símbolos da campanha pela libertação dos reféns. Yarden, o pai, sequestrado separadamente, foi o único dos quatro a voltar vivo. Shiri e as crianças retornaram mortos a Israel.
No mesmo kibutz de onde tantas pessoas foram arrancadas de suas casas, centenas se reuniram para ouvir músicas que um daqueles reféns havia composto no cativeiro. Dekel-Chen recusou chamar aquela noite de celebração ou vitória. Era, disse, simplesmente parte da história. Uma história que carrega o luto por famílias como a de Yarden Bibas, mas que recusa o silêncio definitivo. Onde se tentou deixar apenas morte e silêncio, havia novamente música e vida.
Hoje não há mais reféns em Gaza. Os últimos reféns vivos retornaram em outubro de 2025, e o corpo do último sequestrado ainda em Gaza, o do policial Ran Gvili, morto enquanto combatia os terroristas, foi recuperado em janeiro de 2026.
A trajetória de Dekel-Chen talvez seja uma das respostas mais eloquentes ao 7 de outubro. Ele entrou em Gaza como refém e saiu de lá também como compositor. O Hamas lhe roubou 498 dias, mas não conseguiu impedir que, na escuridão, ele criasse luz.
Nira Broner Worcman é jornalista, CEO da Art Presse Comunicação e autora da edição hors commerce de “Enxugando Gelo” (2025), sobre a cobertura midiática da guerra entre Israel e grupos terroristas.



