
Ouça este conteúdo
A oncologia vive uma das maiores transformações de sua história. O avanço das terapias-alvo, da imunoterapia, dos anticorpos biespecíficos, das terapias celulares e dos anticorpos conjugados a medicamentos (ADCs) ampliou significativamente as possibilidades de tratamento do câncer. Diante desse cenário, uma pergunta passou a fazer parte das consultas médicas, das discussões científicas e das conversas entre pacientes e familiares: a quimioterapia tradicional está com os dias contados?
A resposta, baseada nas evidências científicas disponíveis, é não.
A quimioterapia continua sendo um dos pilares da oncologia moderna e permanece indispensável em inúmeras situações clínicas. O que estamos testemunhando não é o seu desaparecimento, mas a evolução da forma como ela é utilizada. A medicina não caminha para abandonar os agentes citotóxicos, e sim para empregá-los de maneira cada vez mais inteligente, seletiva e personalizada.
Essa percepção de que a quimioterapia estaria sendo substituída decorre, em parte, do grande destaque recebido pelas novas tecnologias. Entretanto, inovação não significa exclusão. Na prática, os maiores avanços da medicina acontecem quando diferentes estratégias terapêuticas passam a atuar de forma complementar, oferecendo melhores resultados aos pacientes.
Desde sua introdução na prática clínica, a quimioterapia revolucionou o tratamento do câncer. Milhões de vidas foram prolongadas ou salvas graças aos medicamentos capazes de destruir células tumorais em rápida divisão. Sua principal limitação sempre foi a baixa seletividade, já que tecidos saudáveis de alta renovação, como a medula óssea, a mucosa gastrointestinal e os folículos capilares, também podem ser afetados. É justamente essa característica que explica muitos dos efeitos adversos conhecidos.
Nas últimas décadas, a pesquisa concentrou esforços em um desafio importante: manter a eficácia dos agentes citotóxicos, mas direcioná-los preferencialmente às células tumorais. É nesse contexto que surgem os ADCs, considerados uma das mais promissoras inovações da oncologia contemporânea.
Esses medicamentos unem três componentes: um anticorpo monoclonal que reconhece um alvo específico na célula tumoral, um linker, responsável pela ligação das estruturas, e um payload, que corresponde ao agente citotóxico liberado após a entrada do medicamento na célula cancerígena.
Talvez o aspecto mais interessante seja que muitos desses payloads utilizam mecanismos farmacológicos já conhecidos da própria quimioterapia. Entre eles, estão inibidores da topoisomerase I, como o SN-38, metabólito ativo do irinotecano, e o deruxtecano, além de agentes que interferem na dinâmica dos microtúbulos, como o MMAE e o DM1. Em outras palavras, a ação citotóxica permanece presente. O grande avanço está na forma de entregá-la.
Ao utilizar um anticorpo como veículo, busca-se concentrar o medicamento na célula tumoral e reduzir a exposição desnecessária dos tecidos saudáveis. Isso pode aumentar a eficácia do tratamento e melhorar seu perfil de segurança. Ainda assim, esses medicamentos não são isentos de toxicidade e exigem acompanhamento criterioso por equipes multiprofissionais capacitadas.
Também é importante lembrar que o câncer não é uma única doença. Existem centenas de tipos tumorais, cada um com características biológicas próprias. Muitos ainda não apresentam biomarcadores ou alvos moleculares que permitam terapias direcionadas. Para esses pacientes, a quimioterapia continua sendo uma das principais estratégias terapêuticas.
Mesmo quando existem tratamentos inovadores, ela permanece fundamental em protocolos com intenção curativa, terapias neoadjuvantes e adjuvantes, doença metastática e combinações com radioterapia, imunoterapia e terapias-alvo. Essas modalidades não competem entre si; elas se complementam.
Essa integração representa a essência da oncologia de precisão: compreender profundamente a biologia do tumor e as características individuais de cada paciente para selecionar a estratégia mais adequada.
O objetivo não é substituir uma modalidade por outra, mas oferecer o melhor tratamento para cada situação clínica
Talvez, portanto, estejamos fazendo a pergunta errada. Em vez de questionar se a quimioterapia vai desaparecer, deveríamos perguntar como torná-la cada vez mais precisa, segura e personalizada.
O futuro da oncologia não será marcado pelo abandono da quimioterapia tradicional, mas pela integração de diferentes estratégias terapêuticas. O verdadeiro avanço não está apenas em desenvolver novos medicamentos. Está em oferecer o tratamento certo ao paciente certo, no momento certo.
Paulo Cezar Machado de Souza é farmacêutico oncológico, criador do projeto O Farma Explica.



