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Opinião 2

A revanche dos vencidos

Há também uma plêiade de ex-militantes ar­­mados re­­manescentes das insurgências latino-americanas que se transformaram em políticos de oposição a governos pro­­gres­­­­sistas, com discursos e dicções curio­­samente con­­ser­­vadoras

Tendência do tempo presente, a América do Sul tem assistido a seguida ascensão de ex-militantes da luta armada dos anos 1960 e 1970 às Presidências de seus países, agora pelo voto e pela unção democrática. Pe­­pe Mujica, no Uruguai, ex-tupamaro, foi o caso mais recente. Antes, há os casos de Maurício Funes, de estreitas ligações com a ex-Frente Fara­­bundo Martí de Libertación Nacional, eleito presidente em El Salvador, e de Daniel Ortega, ex-san­­dinista insurgente, na Nicarágua. Também merecem destaque, na primeira fila do poder, o recém eleito vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera, ex-Exército Túpac Katari e que ficou cinco anos na prisão, e o Ministro da Economia da Ve­­nezuela e ex-presidente de sua companhia estatal de petróleo, Ali Rodríguez, então Comandante Fausto. Ainda, o ex-primeiro ministro de Alan García, Yihude Simon, que esteve preso acusado de vínculos com os revolucionários Túpac Ama­­ru, todos guerrilheiros do passado, agora convertidos à política por outros meios.

O sociólogo brasileiro Emir Sader, falando ao jornal portenho El Clarín, diz que é como se houvera a conquista de nova oportunidade para realizar velhos sonhos e que depois de reveses, sacrifícios e perdas, não há como banalizar o que vem acontecendo, sem que tudo isso se adense com grande carga de emoção.

É cediço em teoria da história que os fatos devem ser valorados a posteriori e o decurso do tempo tem sido severo com a opção que levou à militância armada contra as ditaduras, não apenas no Brasil e na América Latina. No prisma político, o ocaso do socialismo em suas vertentes sectárias, as terceiras vias e a nova esquerda emulada pela voga dos direitos humanos, fez aumentar ainda mais a crítica e a rejeição àqueles que por olhos complacentes poderiam ter sido considerados os heróis de seu tempo. Indo além das imprecações de ingênuos e de românticos, inocentes úteis à animália das ditaduras, não há como desdourar, no entanto, a generosidade cívica e o desapego existencial da geração carbonária do século XX. Se há alguns anos o passado guerrilheiro era algo para ocultar, hoje se transforma em capital político, pecadilho da juventude a gerar votos, admiração e, no mais dos casos, eleição.

Claro que o mundo e as circunstâncias não são aquelas dos anos de chumbo e muitos mudaram de métodos para conseguir os mesmos sonhos. Outros trocaram a utopia pelo pragmatismo, para engajarem-se em lutas democráticas menos explosivas e letais. José Mujica, acusando o golpe e fazendo desde logo um mea culpa conciliador, apresentou-se na campanha que o conduziu há poucas semanas à Presidência uruguaia como um velho que levava alguns anos de cadeia e alguns tiros nas costas, um tipo que se equivocou muito, como boa parte de sua geração, e que busca até o limite do possível ser coerente com o que pensa. No mais, o projeto e a promessa de seguir modelo de governo liberal, sem resvalar para o populismo e o belicismo que ronda a América Latina na qual ainda não caiu o muro de Berlim.

Há também uma plêiade de ex-militantes armados remanescentes das insurgências latino-americanas que se transformaram em políticos de oposição a governos progressistas, com discursos e dicções curiosamente conservadoras, a demonstrar que se existe o pêndulo da história, por que não admitir e aceitar também a existência do pêndulo da vida.

Em debate que logo será travado no cenário eleitoral brasileiro, resta à sociedade enfrentar o dilema de tomar o vertiginoso passado da candidata oficial que se vai delineando ou como atributo de virtude republicana, ou, ao contrário, como fator que a desqualifica liminarmente para ocupar o mais alto cargo da Nação. Não é tão simples como discutir na escola se Robin Hood é mocinho ou bandido, ou, mais tecnicamente, como classificar os crimes políticos e como qualificar os seus agentes. Uma reflexão inadiável e a priori a todos os demais embates que serão precipitados pelos inevitáveis confrontos que a campanha presidencial irá suscitar.

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Jorge Fontoura, doutor em Direito, é professor do Instituto Rio Branco e membro-consultor do Conselho Federal da OAB.

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