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A Sétima República

O ano de 2027 pode representar mais do que uma mudança de presidente para o Brasil. (Foto: Imagem produzida por Copilot IA/Gazeta do Povo)

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A República romana morreu muito antes de César atravessar o Rubicão. Morreu quando suas formas continuaram a funcionar sem que ninguém mais acreditasse nelas, quando o Senado ainda se reunia, os cônsules ainda eram eleitos, os augúrios ainda eram consultados, e nada daquilo decidia mais coisa alguma. Cícero gastou seus últimos anos de vida escrevendo sobre uma República que já só existia nos seus próprios livros.

O que mata um regime raramente é a violência. É a irrelevância, e a irrelevância chega sempre muito antes do epitáfio. A Sexta República brasileira, aquela a que se convencionou chamar de Nova em 1985 e que de nova nada tem senão o nome, morreu exatamente assim, por dentro e em silêncio, enquanto o noticiário discutia placares. O que o eleitorado fez no domingo, dia 4 de outubro, com a votação maciça em Flávio Bolsonaro e em candidatos da direita, não foi matá-la. Foi lavrar o atestado de óbito de um sistema político ineficaz e ineficiente.

Convém lembrar que o Brasil é um país de repúblicas sucessivas, e não de uma República contínua. Tivemos a República Velha, de 1889 a 1930. Tivemos o Governo Provisório e o arremedo constitucional de Vargas, de 1930 a 1937. Tivemos o Estado Novo, de 1937 a 1945. Tivemos a República Liberal de 1946, interrompida em 1964. Tivemos o regime militar, até 1985. E temos, desde então, a Nova República, que acaba de igualar em longevidade a Velha, 41 anos, e que morre exatamente da mesma enfermidade: uma classe política que confundiu os seus arranjos internos com a nação, e que passou a governar para preservar o arranjo, não o país.

O pacto de 1988 prometeu tudo e não financiou nada. Criou direitos sem lastro, instituições sem accountability e uma burocracia que se emancipou do eleitor. Ao longo de quarenta anos, essa engenharia foi capturada por um projeto específico, paciente e metódico, que entendeu antes de todos uma lição elementar de grande estratégia: quem domina as instituições permanentes não precisa vencer todas as eleições.

Daí a assimetria que a direita brasileira custou a compreender. A esquerda perdia pleitos e continuava governando o essencial, porque o essencial não estava no Planalto, estava nas agências, nas fundações, nos conselhos, nas carreiras de Estado, no Judiciário, nos currículos, na massa de manobra das universidades, nos editais e, de modo particularmente danoso, na política externa.

O que mata um regime raramente é a violência. É a irrelevância, e a irrelevância chega sempre muito antes do epitáfio

Nenhum setor ilustra melhor essa escalada de degradação do que o Itamaraty da última gestão Lula. Uma Casa construída por Rio Branco para defender o interesse nacional converteu-se em, mais do que concierge de criminosos, escritório de representação de autocracias, com uma diplomacia de comunicados insossos, de fotografias em cúpulas irrelevantes e de solidariedades automáticas a regimes que prendem opositores e eliminam liberdades fundamentais.

Chamou-se isso, com o auxílio da mídia chapa-branca, de protagonismo. Era o contrário. Protagonismo é a capacidade de alterar o cálculo alheio. O que se praticou foi a renúncia a essa capacidade em troca de afagos retóricos no circuito do chamado Sul Global, enquanto o país se tornava fornecedor cativo de commodities para quem lhe vende manufatura com valor agregado e lhe dita os termos. Trocou-se interesse por afinidade ideológica, e a conta, como sempre, chegou em forma de irrelevância.

Agora vem a parte que a imprensa ainda não processou. O Brasil não elegeu apenas uma maioria parlamentar conservadora. Elegeu governos estaduais conservadores, bancadas estaduais conservadoras e um Senado que, pela primeira vez na história republicana, não funcionará como câmara de contenção do impulso reformista, mas como seu motor. Isso muda a natureza do que está em jogo em 25 de outubro, com a esperança de eleição de um presidente de direita que prega a união nacional, e não a estratégia de divisão, como o anacrônico candidato da esquerda.

E o Brasil não está sozinho. Há uma recomposição política em curso na América do Sul, alimentada pelo esgotamento de modelos que prometeram proteção e entregaram estagnação, prometeram igualdade e multiplicaram privilégios, prometeram soberania e produziram dependência. O que acontece no Brasil integra uma transformação regional mais ampla. Mas nenhum país recebe da história a garantia de saber aproveitar a oportunidade que recebe.

A história inglesa oferece a analogia exata. Em 1660, os ingleses restauraram um rei. Em 1688, restauraram um regime. A diferença entre as duas datas é a diferença entre trocar o ocupante do trono e refundar as regras do jogo. O ciclo de 2018 foi o nosso 1660: uma vitória presidencial sem Estado, um comandante sem exército administrativo, um governo que passou quatro anos descobrindo, na carne, que a Presidência da República é a parte visível e menos poderosa do poder brasileiro. O que se desenha para 2027, com a eleição de Flávio Bolsonaro e um Congresso alinhado, é o nosso 1688. Não a troca do inquilino. A reescrita do contrato.

E aqui o ceticismo profissional exige a pergunta dura: alinhamento para quê? Maiorias não fazem história, projetos fazem. A Polônia de 1989 tinha a mesma janela e a usou para liberalizar preços e ancorar-se no Ocidente. O Chile dos anos oitenta a usou para reconstruir a previdência e abrir a economia. O Japão Meiji a usou para importar instituições sem importar subordinação. Em todos os casos, o que converteu o momento político em transformação histórica não foi o entusiasmo, foi a sequência: primeiro a arquitetura fiscal, depois a reforma do Estado, depois a inserção internacional. Fora dessa ordem, qualquer maioria se dissolve em quatro anos de administração de rotina e termina devolvendo o país aos seus antigos donos, com juros.

Mas, no fim, estamos falando de coisas que qualquer brasileiro conhece. Um Estado que cobre menos e entregue mais. Contas públicas que fechem. Ruas onde famílias possam andar sem medo. Um país em que trabalhar, produzir e empreender não sejam atos de resistência à burocracia. Energia abundante. Forças Armadas capazes de defender o território. Uma diplomacia que defenda o Brasil. E jovens que possam olhar para o futuro sem imaginar que precisam deixar o próprio país para encontrá-lo. É para isso que servem as reformas.

Reforma administrativa que devolva ao eleito o comando sobre o Estado, hoje sequestrado por corporações que se julgam poderes autônomos. Disciplina fiscal que não seja mais um contingenciamento cosmético, mas a extinção de distorções, gargalos e privilégios que nenhum país sério sustenta. Segurança pública tratada como política de Estado e não como reality show de ocasião. Exploração séria do nosso trunfo energético, do pré-sal ao ciclo completo do urânio, que o Brasil domina e subaproveita. Defesa orientada por dissuasão por negação, com a Amazônia e o Atlântico Sul como teatros prioritários, e não como temas de seminário. E uma política externa que volte a ter um critério único, o interesse nacional, com reposicionamento nas cadeias de valor, acordos comerciais que o Mercosul vem adiando há trinta anos e uma aliança sem complexos com as democracias que suportam o nosso futuro, não com os regimes que apenas o aplaudem.

Nada disso é utopia. É engenharia. A diferença entre um país grande e um país grandioso está inteiramente no intervalo entre o recurso e a decisão. Grandeza não é geografia. É escolha. E o Brasil é, desde sempre, o maior acervo de recursos subaproveitados do hemisfério. Temos terra, água, sol, urânio, nióbio, soja, povo jovem o bastante para produzir e velho o bastante para lembrar o que não deu certo. Falta-nos apenas o que nunca tivemos simultaneamente: vontade política e instrumento institucional para executá-la.

É fácil falar em Estado, instituições, reformas e estratégia como se tudo isso pertencesse apenas a Brasília. Não pertence. O fracasso de um Estado, materializado nas gestões petistas, tem endereço. Está na família que trabalha mais e vê o dinheiro comprar menos. Está no brasileiro que muda sua rotina porque tem medo de voltar para casa à noite. Está no pequeno empresário que perde horas tentando satisfazer uma burocracia que deveria servi-lo. Está no jovem qualificado que olha para outro país e se pergunta se precisará partir para ter futuro. É aí que o fracasso deixa de ser teoria. É quando entra dentro de casa.

A diferença entre um país grande e um país grandioso está inteiramente no intervalo entre o recurso e a decisão. Grandeza não é geografia. É escolha


Stefan Zweig chamou-nos de país do futuro, e a piada nacional completou que assim haveria de ser para sempre. A piada envelheceu mal, porque supunha que o futuro fosse um destino e não uma obra. Não é. Futuro é apenas o nome que se dá à soma das decisões que uma geração teve coragem de tomar no instante exato em que a história lhe abriu a porta. E a porta está aberta agora. Janelas históricas não permanecem abertas por simpatia nem por mérito, fecham-se com a mesma indiferença soberana com que se abriram, e o povo que não atravessa quando pode volta a esperar quarenta anos, de chapéu na mão, diante de uma parede.


Pensem no que esperou conosco. Esperou a geração de 1822, que fez um país e não conseguiu fazer uma nação. Esperou a de 1889, que trocou o Imperador por oligarquias e chamou aquilo de República. Esperou a de 1930, que prometeu modernizar e entregou o Estado Novo. Esperou a de 1964, que salvou o país de um naufrágio e não soube devolvê-lo ao timoneiro certo. Esperou a de 1985, que recebeu a democracia nas mãos como quem recebe um templo e a transformou numa repartição.


Mas não foram datas que esperaram. Foram nossos pais. Nossos avós. Esperaram milhões de brasileiros que trabalharam uma vida inteira acreditando que seus filhos finalmente viveriam no país que lhes havia sido prometido. Muitos morreram sem vê-lo.

Seis gerações olharam para este território imenso, para este povo generoso, para esta abundância quase indecente de sol, de terra, de água e de gente, e morreram sem ver o país que tudo isso prometia. O luto de um povo não se mede em estatísticas. Mede-se no que ele deixou de ser.

Pois bem. A espera acabou. A Sexta República está morta, e o enterro foi marcado para 25 de outubro. O que virá depois não será restauração, não será alternância, não será mais um governo. Será fundação. E fundações não se julgam pelo discurso de posse nem pelas manchetes do primeiro ano, julgam-se pelo que ainda estiver de pé meio século adiante, quando ninguém mais se lembrar dos nomes de quem as ergueu.


Que esta geração seja digna da hora que lhe coube. Que os homens que assumem o leme jamais esqueçam que não foram eleitos para administrar o declínio com mais competência, mas para interrompê-lo, e que a posteridade é impiedosa com quem teve o poder e só exerceu o cargo.


O Brasil esperou duzentos anos. Esperou calado, esperou resignado, esperou sendo roubado, esperou sendo ensinado a ter vergonha de si mesmo. Esperaram nossos pais e nossos avós. Agora nossos filhos olharão para nós. E terão o direito de perguntar o que fizemos quando chegou a nossa vez, quando se teve a oportunidade de votar por mudanças.


Chega. Que se levante, enfim, este gigante que o mundo admira por educação e teme por instinto. Que deixe de ser a promessa eterna de um futuro que nunca chega e se torne, de uma vez, o presente que o mundo precisará respeitar. Não por simpatia. Por necessidade.


O futuro do Brasil começa em 25 de outubro. Começa com cada um de nós. E, desta vez, não haverá desculpa.


Marcos Degaut, ex-Secretário Especial Adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, ex-Secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa e ex-Secretário-Executivo da Câmara de Comércio Exterior do Brasil (CAMEX), é Doutor em Segurança Internacional.

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