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A tecnologia e o mundo digital nos transformaram em reféns da conveniência?

A conveniência libera tempo, aumenta produtividade, fornece acesso. A conveniência da tecnologia liberta. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Como foi o seu dia até este momento, no qual você está passando os olhos por estas linhas? Certamente você já acendeu e apagou a luz incontáveis vezes. Talvez tenha assistido à televisão, ouvido o rádio ou um podcast. Andou para lá e para cá fazendo inúmeras atividades, sempre com o celular a tiracolo para não perder a comodidade que os inúmeros aplicativos e tecnologias proporcionam: pedir comida, chamar um carro, pagar contas, falar com as pessoas, escolher um par. Qualquer sentimento – ânsia, desejo ou até mesmo angústia – é facilmente sanado, atendido ou mascarado. A conveniência libera tempo, aumenta produtividade, fornece acesso. A conveniência da tecnologia liberta.

Há quase 90 anos, o filósofo Herbert Marcuse, integrante da chamada Escola de Frankfurt, nos apresentou ao conceito de “racionalidade tecnológica”. Naquela época – em que televisão ainda era uma raridade em muitos países, como o Brasil – ele comparava a sociedade tecnológica a uma estrada: quem dirige rumo ao desconhecido não questiona as placas e direções, apenas agradece pela informação e segue o caminho indicado. Em sua visão, esse confortável ambiente social graças à tecnologia condiciona o comportamento do indivíduo, que abre mão de sua racionalidade individual e aceita, docilmente, a mecanização e padronização do mundo.

“Ao manipular a máquina, o homem aprende que a obediência às direções é a única maneira de obter os resultados desejados”, escreveu Marcuse em 1941. A conveniência liberta na mesma proporção em que aprisiona.

Há duas formas de passarmos pelas revoluções da tecnologia ou, mesmo, pela vida: inconscientes ou conscientes de nossas potências e, também, de nossas limitações. Entender o eu e o externo nos permite tomar decisões mais ponderadas e benéficas para nós mesmos, dentro, claro, das possibilidades do contexto.

Entendo que um questionamento essencial é muitas vezes deixado de lado: como o uso dessas tecnologias se aplica à minha realidade individual? Estou usando uma ferramenta, seja ela qual for, como meio ou como fim?

A inteligência artificial generativa é considerada pela literatura como uma inovação de aumento, não só de automação – ou seja, ela mais amplia as capacidades humanas do que as substitui. Para produzir este texto, por exemplo, eu recorri a ela para me ajudar a buscar algumas referências bibliográficas. Há algum demérito? Se você pensar que seria demérito procurar referências no Google, em vez de em uma biblioteca, sim.

Eu usei a ferramenta para escrever este texto? Não. Pura e simplesmente porque minha profissão é baseada na escrita, e não tenho somente facilidade em juntar palavras até que elas formem frases, como sei que esta é minha ferramenta máxima de expressão. Se uma pessoa com pouca ou nenhuma habilidade em escrever tivesse que executar a mesma tarefa, seria demérito ela optar pela ferramenta? Se você pensar que seria demérito a contratação de um ghostwriter humano, sim.

Entendo haver, como Marcuse nos ensina, um determinismo tecnológico que limita nossa ação como indivíduo. Mas enxergo que, de certa forma, temos um espectro, mesmo que limitado, de agência a partir de nossas vontades e valores.

É essencial entender o impacto da IA generativa e demais tecnologias em sua área de atuação. Informar-se e estudar são estratégias eficazes na construção de base para decisões ponderadas. Mas entendo que um questionamento essencial é muitas vezes deixado de lado: como o uso dessas tecnologias se aplica à minha realidade individual? Estou usando uma ferramenta, seja ela qual for, como meio ou como fim?

Voltemos ao exemplo do seu dia, aos inúmeros aplicativos aos quais recorreu com a justificativa de economia de tempo. O celular nos foi vendido como a promessa de mobilidade irrestrita; os aplicativos, as redes móveis – tudo isso veio para que pudéssemos nos movimentar sem receio de perder coisas importantes, de ficarmos incomunicáveis.

Curioso analisar o efeito alguns pares de anos depois: ficamos no sofá da sala, pescoço curvado, olhando para a diminuta tela do aparelho – algoz que nos mantém aprisionados em nossa conveniente realidade individual. Se bate a fome, compramos uma refeição. Se nos sentimos sozinhos, abrimos a rede social (se é que a fechamos em algum momento). Se precisamos de um ingrediente, não há problema: serviços de entrega chegam com o produto em nossa porta em menos de 10 minutos. Queremos um par romântico? Fácil, também.

E assim ficamos, entre nossas paredes físicas de nossas casas e figurativas de nossas mentes, apenas atendendo com rapidez às necessidades que, talvez, sequer tenhamos. O abrir inconsciente da geladeira, movimentado há um pouco mais de uma década pelo nosso tédio, é, agora, substituído pelos cliques e pelo consumo de coisas, experiências e pessoas.

Não podemos esquecer que vivemos uma epidemia de solidão e o Brasil é o país mais ansioso do mundo. Seria fruto do acaso ou de nossa organização individual e social?

Nem sempre a produtividade ou a otimização são boas conselheiras para a tomada de decisão e construção de hábitos de vida. Temos que adicionar a essa equação o senso de realização que obtemos do empenho de nossa energia. Porque tempo não se economiza. Tempo se vive.

Adriele Marchesini é jornalista, escritora, pesquisadora e empreendedora. Mestranda pela Faculdade de Educação da USP, com MBA em Marketing e MBA em Análise Econômica, é fundadora e diretora-executiva da Verbo Conteúdo e Curadoria.

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