Algo inacreditável vai acontecer nos próximos dias: a GM General Motors , empresa emblemática do capitalismo norte-americano, o símbolo mais conspícuo do american way of life dos anos do pós-Segunda Guerra Mundial, vai pedir concordata, para emergir dela com 25% do tamanho atual, cujas ações estarão nas mãos do governo americano (72%) e sindicatos (18%). Os outros 10% pertencerão aos credores que irão trocar créditos por participação acionária.
A GM foi quem inventou o automóvel. Os seus antecessores inventaram um veículo movido a vapor ou a gasolina; Henry Ford inventou o meio de transporte barato, econômico e sem glamour, mas foi a General Motors, sob o comando de Alfred Sloan, que inventou o automóvel como produto que tinha uma simbologia intimamente associada ao imaginário dos americanos, um componente obrigatório de suas vidas. Quando se estava no início da carreira, se era jovem e as contas bancárias ainda sofriam de raquitismo, a GM lhe oferecia um Chevrolet; já mais abonado, com a família crescendo e as aspirações aumentando, um Oldsmobile ou um Pontiac esperavam por você. Quarentões e cinquentões realizados se aconchegariam em um Buick e, momento supremo, um Cadillac estaria à espera dos que haviam triunfado na vida, para inveja dos vizinhos e dos cunhados e cunhadas.
Em 1955, Charles Wilson, o presidente da GM, identificava de tal forma a GM com os Estados Unidos, que declarou solenemente no Congresso, quando estava sendo inquirido para assumir a Secretaria da Defesa, que não vislumbrava nenhum conflito de interesses para assumir uma função em que teria obrigatoriamente de contrariar interesses da GM, pela simples razão de que o que era bom para a General Motors era bom para os Estados Unidos e vice versa.
Bons tempos aqueles para a GM. Agora, a indústria automotiva americana está virtualmente quebrada, a Chrysler já está nos braços da Fiat e logo, logo, os despojos mais atraentes da GM estarão sendo vendidos para reduzir o volume de suas dívidas. Ainda é uma incógnita a sobrevivência da Ford.
Na realidade, depois de ter sido anunciada muitas vezes no passado, dessa vez a Terceira Revolução Industrial chegou. A manufatura de bens de média sofisticação, como os automóveis e caminhões, já não é mais economicamente viável nos países que pagam US$ 25 por hora aos trabalhadores que os produzem e serão países como o Brasil, com custos trabalhistas muito menores e com uma capacidade tecnológica já afirmada em 50 anos de evolução industrial, que serão os novos polos manufatureiros do mundo. Para países como os Estados Unidos e a Europa Ocidental, estarão detinadas as indústrias de alta sofisticação, os serviços baseados na eletrônica digital, a economia do conhecimento. Quem sabe o grande capitalismo internacional continue a ser sediado nos grandes centros norte-americanos, europeus e japoneses, mas suas bases de produção estarão espalhadas pelo mundo. Algumas indústrias tradicionais, depois de resistir bravamente à obsolescência, começam a cair como um castelo de cartas: os grandes provedores de informação, os jornais, as tevês abertas, as agências de notícias encontram cada vez mais dificuldades para convencer consumidores a pagar-lhes por algo que conseguem de graça na internet. E como aumenta exponencialmente o número de pessoas que trabalham em casa, o escritório tradicional está perdendo significado e importância.
Mais do que os mamutes industrias como a GM ou a Chrysler, está morrendo o industrialismo típico do século 20. No futuro, não se poderá repetir mais a famosa frase de Adhemar de Barros, um dos maiores populistas que o Brasil já conheceu, que ao sair dos comícios em um flamejante "rabo de peixe", acenava para os eleitores espremidos na fila do ônibus e gritava: "Meu povo! Eu vou de Cadillac, mas meu coração vai a pé com vocês!" . Mesmo porque ninguém mais saberá o que é um Cadillac.
Belmiro Valverde Jobim Castor é professor do doutorado em Administração da PUCPR.



