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A Venezuela não foi invadida. Foi libertada

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Venezuelano comemora com o filho em Brasília, após a prisão de Nicolás Maduro. (Foto: André Borges/EFE)

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“Não se trata de uma questão de direita ou esquerda, se trata de ter cérebro.” Foi o que me disse a ativista venezuelana Rockmillys neste domingo, durante uma reunião com alguns imigrantes venezuelanos em Curitiba. A maior indignação desse grupo era ver tantos brasileiros falando em nome deles, defendendo a suposta soberania da Venezuela e insistindo que os Estados Unidos só estariam interessados em petróleo. “Não é sobre petróleo, é sobre gente”, reforçou a ativista. É a partir disso que este texto se constrói, para explicar por que essa narrativa, tão repetida no Brasil, está completamente equivocada.

A primeira premissa dessa discussão é simples: não estamos falando de um governo comum, muito menos de uma democracia. Não existe soberania onde não há lei. O que há na Venezuela são urnas forjadas e fraude eleitoral. Mais de 80% das atas eleitorais, preservadas pelos fiscais da oposição, escancaram o resultado manipulado. Esse material está disponível publicamente. É, possivelmente, a fraude mais documentada do mundo. Sem povo soberano, não há soberania. E sem soberania, não há democracia.

E pior do que a eleição fraudada são suas mazelas. Milhares de presos políticos foram levados pelo regime. Destaco aqui o caso da minha amiga Maria Oropeza que, por denunciar o regime nas redes sociais, foi sequestrada dentro da própria casa. Está há mais de um ano presa no El Helicoide, o maior centro de tortura da América Latina.

Ela é uma entre milhares. Milhares de presos que não sabem se sairão vivos. Sem contar os que decidiram fugir antes que fosse tarde demais. Já são 8 milhões, cerca de 25% de toda a população, de venezuelanos forçados a deixar o país. Na conversa que tive com alguns deles neste domingo, Hector deixou um recado: “Se virem algum imigrante venezuelano pelo Brasil, saibam que não estamos fazendo turismo. Nós fomos expulsos do nosso país”. Isso por si só já é motivo suficiente para entendermos que não se trata de violação de soberania, trata-se do resgate de um povo que há décadas pede socorro.

Cabe a nós escolhermos o lado certo da história. Não o lado de quem relativiza ditaduras, fala em nome de quem foi silenciado ou distorce o direito internacional para legitimar a opressão. Mas o lado de quem condena ditadores e reconhece quando o mundo dá um passo na direção certa

Mas há quem diga: não concordo com Maduro, acho que ele é um ditador e, ainda assim, acho que o que Trump fez na Venezuela foi errado. Esse argumento ignora um ponto básico: esse regime não se consolidou da noite para o dia. Houve inúmeras tentativas internas de derrubá-lo.

Em 2019, Juan Guaidó, então presidente da Assembleia Nacional, se declarou presidente interino da Venezuela e foi reconhecido por mais de 50 países. Era uma saída pacífica para a crise e o desfecho foi perseguição, perda de direitos políticos e exílio. A via diplomática fracassou. Em 2024, María Corina Machado liderou a oposição de forma exemplar. Tornada inelegível pelo regime, apoiou Edmundo González e, sob sua articulação, foi comprovada a vitória de González, mas rapidamente o regime reagiu e decretou golpe de Estado. Desde então, já se passou um ano e meio de pressão, mobilização interna e articulação política. Maduro não recuou um centímetro.

E ainda assim, muitos perguntam: por que os Estados Unidos se incomodam ao ponto de agir? A pergunta deveria ser outra: por que o mundo parou de se importar? Quando foi que deixamos de nos indignar com a prisão, a tortura e o exílio de nossos iguais?

E não é como se o ataque tivesse acontecido do dia para a noite, sem que o Maduro tivesse a opção de se entregar. Os Estados Unidos deixaram claro, há meses, que isso iria acontecer. Ninguém estaciona o maior porta-aviões do mundo ao lado de um país por acaso. Ninguém sequestra petroleiros sem enviar um recado. O próprio Trump e Marco Rubio confirmaram que Maduro teve várias chances de recuar. Ele escolheu não fazê-lo. Quando todas as vias políticas e diplomáticas fracassam, o que resta não é escolha, é consequência.

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Mas e o petróleo? É verdade que a Venezuela possui a maior reserva de petróleo do mundo; no entanto, isso representa muito pouco do comércio global. A Venezuela responde por apenas cerca de 1% do comércio internacional, desempenho irrisório para um país que poderia ser o protagonista nesse mercado. E o motivo é simples: o regime chavista. O petróleo venezuelano é de baixa qualidade, o que exige alto nível de refinamento. E a estatal venezuelana responsável por isso é um fracasso completo. Foi sucateada, saqueada e extorquida pelo próprio regime. O regime também expropriou e estatizou, sem qualquer indenização, todas as operações da ExxonMobil e de outras companhias americanas que atuavam no país, afastando de vez o investimento externo e enterrando qualquer chance de recuperação econômica. Segundo a Statistical Review of World Energy, a produção despencou de um pico de 3,7 milhões para cerca de 1 milhão de barris por dia, um volume irrelevante no mercado internacional (que movimenta mais de 100 milhões por dia).

Isso deixa claro que o petróleo nunca foi usado como instrumento de desenvolvimento, mas como ferramenta de poder, corrupção e alinhamento ideológico. A proposta anunciada por Donald Trump é retomar investimentos no refino e na infraestrutura, inclusive americanos. Isso deve ampliar a capacidade produtiva para vender petróleo não apenas para a China, que hoje é responsável por comprar 80% do petróleo exportado pela Venezuela, mas para outros países também. E, sobretudo, devolver essa riqueza ao povo venezuelano, que foi roubado e extorquido por décadas. Não é só sobre petróleo.

Ainda assim, seria ingênuo achar que o problema terminou com a captura de Maduro. A ditadura ainda não acabou. A vice-ditadora Delcy Rodríguez, tão sanguinária quanto seu líder, segue em território venezuelano. Outros agentes centrais do regime continuam ativos, como seu irmão, Jorge Rodríguez, e o general Diosdado Cabello, uma das figuras mais brutais desse sistema. Os presos políticos continuam presos. O aparato de repressão ainda existe. O regime, embora ferido, perdura.

Porém, pela primeira vez desde o início dessa ditadura, há algo diferente. Estamos mais perto do fim do que do começo. Isso não aconteceu por acaso. Aconteceu por uma estratégia bem liderada por Donald Trump e Marco Rubio.

Cabe a nós escolhermos o lado certo da história. Não o lado de quem relativiza ditaduras, fala em nome de quem foi silenciado ou distorce o direito internacional para legitimar a opressão. Mas o lado de quem condena ditadores e reconhece quando o mundo dá um passo na direção certa. O que começa agora pode ser o fim dos tempos mais sombrios que a Venezuela já viveu.

Anne Dias é advogada e comentarista política da Gazeta do Povo.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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