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Artigo

A vingança de Shakespeare

william shakespeare
Detalhe de retrato de William Shakespeare atribuído a John Taylor. (Foto: Wikimedia Commons/Domínio público)

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Abusam de Shakespeare sem dó nem piedade. Com demasiada frequência, o Bardo é maltratado pelos propagandistas das ideologias modernas e pelos defensores dos modismos pós-modernos. Ele é fulminado pelo feminismo, “examinado” pelas lentes da teoria queer e da loucura pós-moderna, submetido à desconstrução decadente, ao dogma marxista e aos arroubos pós-coloniais. Agora, porém, graças a um novo filme, The Bard Bites Back (“O Bardo revida”, em tradução livre), Shakespeare finalmente pode responder aos seus críticos com a própria voz e com sua presença fantasmagórica. Depois de quatro séculos revirando-se no túmulo diante das leituras abusivas de sua obra, ele retorna do além para apontar um dedo acusador contra seus críticos.

O intrépido produtor de The Bard Bites Back, David A. James, ressuscitou o Bardo de Avon para exorcizar os demônios que possuem o campo dos estudos e da crítica shakespeariana. O exorcismo transforma-se numa impiedosa reprimenda, em que diversas escolas de crítica são satirizadas com efeito devastador por meio de interpretações hilárias. O fantasma de Shakespeare, interpretado com grande segurança por John Flaus, observa com consternação e desprezo enquanto uma sucessão de “acadêmicos” e “especialistas” é ridicularizada mediante a caricatura de seus próprios argumentos absurdos. Trata-se de uma sátira que provoca gargalhadas, quase digna dos Monty Python, pelo uso magistral da reductio ad absurdum como instrumento de ridicularização.

James, que tem doutorado sobre a dramaturgia de Shakespeare pela Universidade Monash, em Melbourne (Austrália), descreve The Bard Bites Back, lançado no início deste ano, como “uma paródia da academia shakespeariana”. “O filme foi muito bem em festivais”, acrescenta, “com 16 indicações e quatro prêmios, então as pessoas entenderam a piada”.

O intrépido produtor de “The Bard Bites Back”, David A. James, ressuscitou o Bardo de Avon para exorcizar os demônios que possuem o campo dos estudos e da crítica shakespeariana

Outro aspecto do filme é a adaptação musical de muitas das falas de Shakespeare, compostas pelo próprio James, que também é músico. Explicando que sempre foi “encantado pela musicalidade de Shakespeare”, ele prossegue:

“Este projeto começou como uma ideia musical. Sou músico de jazz e passei anos examinando atentamente os textos de Shakespeare, até perceber algo. As técnicas de ênfase e de ritmo utilizadas para executar uma melodia no jazz são as mesmas empregadas na interpretação de Shakespeare. Decidi compor uma música que realmente correspondesse à beleza da linguagem de Shakespeare, em vez de lhe impor algo artificial, e explorar a interação entre músicos improvisadores e atores. Gravei dois CDs, mas percebi que o mundo do jazz não demonstrou muito interesse. Então resolvi escrever uma peça, que chegou a ser encenada, mas também foi difícil levá-la adiante. Foi então que percebi que poderia fazer um filme. Eu já tinha a música, os vídeos e os atores. Foi assim que tudo surgiu.”

Quanto à dimensão satírica, James havia se familiarizado com muitos dos grandes debates acadêmicos durante seu doutorado, descrevendo alguns deles como “extremamente divertidos”. Tendo experiência na escrita de sátiras, elaborou um roteiro “que zombasse um pouco de algumas das tolices que, tenho certeza, Shakespeare teria adorado”.

O passo seguinte, um verdadeiro golpe de genialidade, foi ressuscitar o próprio Bardo para que ele pudesse divertir-se à custa de seus críticos. “Muitas vezes me pergunto como Shakespeare teria reagido à fama que alcançou depois da morte”, explica James. “Meu palpite é que o mundo afluiu a Shakespeare de tal maneira que ele passou a alegrar-se com a própria vida, com o Ser. É isso que o filme procura expressar e é por isso que Shakespeare fala continuamente sobre a respiração, sobre o ato de estar vivo”.

Shakespeare certamente está mais vivo, na vida duradoura que insuflou em sua obra, do que as ideias mortas ou agonizantes de seus críticos. Por isso, é uma ideia deliciosamente apropriada de James trazê-lo de volta à vida para que se sente, bem-humorado, como juiz de seus detratores.

Aqueles que apreciaram The Bard Bites Back ficarão satisfeitos em saber que James espera ampliar o projeto para além de seus atuais 60 minutos. Ele considera estendê-lo para um longa-metragem ou talvez transformá-lo em uma série de duas partes. Já tem mais músicas gravadas e gosta da ideia de introduzir outros fantasmas, como o de Anne Hathaway, esposa de Shakespeare. No momento, está à procura de atores famosos apaixonados por Shakespeare para assumir papéis principais na continuação do projeto.

Tendo admirado profundamente The Bard Bites Back, sinto-me um pouco culpado por dizer qualquer coisa que não seja elogiosa a seu respeito. Ainda assim, tenho duas pequenas ressalvas. A representação do casamento de Shakespeare como infeliz é certamente convencional, mas não encontra respaldo nas evidências documentais efetivamente existentes sobre sua vida. Analisei a evidência documental em outro artigo, Shakespeare: Saint or Sinner?

Também me incomodou um pouco a forma como o Dr. James apresenta o célebre Soneto 129 de Shakespeare: “O desgaste do espírito quando se envergonha / É obra da luxúria” [tradução para o português de Ivan Junqueira]. Colocar essas palavras – uma condenação tão vívida da luxúria, de suas ilusões e de suas consequências – nos lábios sedutores da mítica “Dama Sombria”, a quem muitos críticos acreditam que o soneto tenha sido dirigido, produz um efeito dramático envolvente. Contudo, isso acaba obscurecendo a exposição claríssima que Shakespeare faz do pecado em questão. Se esses versos fossem pronunciados pelo ator que interpreta o Bardo, seu significado seria inequívoco. Quando são ditos de maneira sedutora e insinuante pela mulher que muitos acreditam ser o objeto da luxúria de Shakespeare, deixam de evocar a luxúria para provocá-la.

Shakespeare certamente está mais vivo, na vida duradoura que insuflou em sua obra, do que as ideias mortas ou agonizantes de seus críticos

Quanto à própria Dama Sombria, que James traz à vida como se fizesse parte da confissão biográfica do Bardo, é possível que ela não passe de um recurso literário – como Laura, de Petrarca –, um fruto da imaginação lúcida de Shakespeare. Pressupor que ela seja uma pessoa real, quando talvez seja apenas uma elaboração metafísica, equivale a evocar um fantasma imaginário, e não um verdadeiro espírito.

Feitas essas observações e postas de lado tais pequenas reservas, The Bard Bites Back merece ser celebrado por trazer o fantasma de Shakespeare de volta à vida dramática. Assim como o “fantasma honesto” do pai de Hamlet, o nobre espírito de Shakespeare retorna para expor um crime – aquilo que há de podre no estado dos estudos shakespearianos –, transformando a caricatura e a tragédia produzidas por seus críticos em uma comédia de seus próprios erros.

Joseph Pearce é escritor, professor visitante de Literatura na Ave Maria University e pesquisador visitante no Thomas More College of Liberal Arts (Merrimack, New Hampshire).

©2026 The Imaginative Conservative. Publicado com permissão. Original em inglês: The Bard Bites Back

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