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Acordo Mercosul e União Europeia: soberania, emprego e federalismo em risco

Tratado marca passo decisivo para criar uma das maiores zonas de livre comércio do mundo.
Tratado marca passo decisivo para criar uma das maiores zonas de livre comércio do mundo. (Foto: Juan Pablo Pino/EFE)

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O Acordo Mercosul e União Europeia vem sendo apresentado como um marco histórico para o comércio exterior brasileiro. A narrativa oficial insiste em ganhos de acesso a mercados e aumento de exportações. Mas, quando se observam os números em proporção e os compromissos assumidos, a pergunta central passa a ser outra: vale a pena submeter o Brasil a um amplo conjunto de normas externas, de caráter permanente, a maioria inapropriadas, em troca de hipotéticos ganhos econômicos?

Em 2025, o Brasil exportou aproximadamente US$ 350 bilhões para o mundo. Desse total, cerca de US$ 50 bilhões tiveram como destino a União Europeia. Segundo estimativas divulgadas pela APEX, o acordo poderá gerar um incremento adicional de cerca de US$ 7 bilhões nas exportações brasileiras para o bloco europeu – algo próximo de 2% do total exportado pelo país. Sim, 2%...

É verdade que a ideia de fazer parte de um mercado de USD 22 trilhões soa tentadora, mas os números seccionados trazem uma visão realista: desse total, USD 18,5 trilhões são da UE, USD 2,17 trilhões do Brasil, e o resto dos demais países, incluindo a convidada Bolívia. Esses dados não negam a importância da União Europeia como parceiro comercial do Mercosul, é ótimo caminhar ao lado dos mais ricos, mas o problema é que essa assimetria favorável à UE vai nos forçar à aceitação de compromissos regulatórios profundos e irreversíveis, especialmente quando o ganho estimado é limitado.

Está na hora de o Brasil se preocupar com sua soberania de verdade, não a ideológica no campo geopolítico, mas a geoeconômica, que é a base que garante de fato a autonomia das nações. Trata-se de uma lição antiga, de Thomas Jefferson, que recomendava o comércio bilateral como forma de autopreservação

Por outro lado, o Brasil já enfrenta um processo de desindustrialização há mais de duas décadas. Embora a ascensão da China como parque industrial do mundo tenha tido impacto relevante, o principal fator sempre foi interno: o péssimo ambiente para se fazer negócios no país, alta carga tributária, burocracia excessiva, insegurança jurídica, complexidade judicial, regras trabalhistas rígidas e incompatíveis com uma economia de mercado, custo elevado do capital, juros estruturalmente altos, deficiência logística, escassez de mão de obra qualificada e instabilidade política e institucional, tudo facultado por uma estrutura federativa esquizofrênica e cada vez mais centralizada, formam um conjunto de obstáculos que fragilizam a indústria nacional e toda a cadeia produtiva associada, incluindo comércio, agricultura e serviços. Inserir esse sistema produtivo fragilizado em um acordo que impõe padrões regulatórios elevados, concebidos para economias muito mais ricas e estáveis, tende a aprofundar assimetrias, não a reduzi-las.

Pelo lado europeu, agricultores estão em pé de guerra com Bruxelas. França, Holanda, Alemanha, Bélgica e Espanha testemunham há meses protestos massivos, com tratores nas ruas, contra políticas ambientais impostas pela União Europeia. Entre as principais queixas estão a taxação indireta por emissões de carbono (as lições do ginásio sobre o CO₂, como base da vida, foram soterradas pelas narrativas e regulamentos), inclusive na pecuária, restrições severas ao uso da terra, exigências ambientais crescentes e instáveis, risco de confisco ou reclassificação de propriedades, aumento de custos sem compensação econômica adequada, dentre outros problemas causados pelo centralismo europeu, avançando para a liberdade de expressão, algo impensável para um povo que há 80 anos livrou-se das ameaças nazistas e fascistas e, há 45 anos, derrubou o Muro de Berlim.

Parece uma síndrome totalitária cíclica. Nesse sentido, um tratado como o do Mercosul com a UE que impõe regras a todos os parceiros signatários traz um perigoso paradoxo ao nosso povo e ao nosso país, pois as consequências que citei são reais. E pior, desejáveis pelos burocratas e tecnocratas de Bruxelas. A pergunta é inevitável: o que exatamente a Europa tem a nos oferecer, além da exportação de um modelo regulatório que enfrenta rejeição interna? Estaríamos sendo usados como proxy da mentalidade que controla o Velho Mundo, que abriu as fronteiras para as invasões que seguem destruindo a cultura de vários países, que já estão se tornando irreconhecíveis? Mesmo sendo nós, brasileiros, um dos povos mais receptivos do mundo, queremos ser invadidos assim também? E o Paraguai, com políticas internas que o impulsionaram como economia emergente com altas taxas de crescimento, como aceitou isso? E os demais?

O problema europeu são as agendas estranhas à liberdade. Uma delas é a ESG – Environmental Social Governance –, que vem funcionando como um experimento regulatório transnacional. É mais uma das regras que farão parte do ordenamento jurídico brasileiro, por força do tratado, sem que tenha havido qualquer votação no Congresso. Por meio de selos, certificações e exigências de conformidade, cria-se um “sistema de incentivos” que, no longo prazo, tende a excluir do comércio empresas que não se submetam a padrões definidos fora de seus países de origem. Já pensou sua empresa ser absolutamente controlada, mais do que já é, por governos de fora também? E, se não tiver a porcaria de um selo, você está fora, seu cliente estará proibido de comprar de você?

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Friso aqui que não se trata de negar a importância ambiental, mas de reconhecer o risco de coerção indireta. Barreiras comerciais disfarçadas de virtude ambiental comprometem a autonomia empresarial, encarecem a produção e reduzem a liberdade de escolha de produtores e consumidores.

No conceito do ESG, dentre outros regulamentos, cito alguns dos impactos regulatórios potenciais: indústria – barreiras técnicas, custos de compliance, exclusão de pequenas empresas; agricultura – regras ambientais rígidas, rastreabilidade onerosa; pecuária – taxação indireta por emissões; Estados e municípios – execução local de normas externas; pequenos produtores – dificuldade de adaptação e acesso a mercados.

Há um problema muito sério sobre os tratados internacionais: eles são negociados por governos centrais e ratificados pelo Congresso, sem que haja uma discussão ampla com os setores da vida nacional. A tendência é de ratificação por falta de coragem para debater assunto internacional de envergadura, adiar e negar ratificação, e espero muito francamente que este singelo artigo possa chamar a atenção sobre esta ameaça real ao nosso povo.

Seus efeitos recairão diretamente sobre estados, municípios e produtores locais. Ou seja, ignoram completamente a federação, passando por cima do art. 18 e também do art. 60 da Constituição Federal, bem como o art. 1º, que trata da soberania nacional. Por força do tratado, caso seja ratificado, a adoção de normas estrangeiras passa a ser automática, comprometendo a soberania regulatória brasileira e deslocando o centro de decisões para fora do país.

Temos, portanto, obrigação de questionar e impedir esse Acordo do Mercosul com a União Europeia, longe de rejeitar o comércio internacional, ou propor o isolamento, ou comportamento xenófobo. É compreender que, em uma mesa de negociações entre duas nações, com interesses mútuos como objeto de trocas comerciais, é muito mais seguro do que sentar-se à mesa com vários países, sendo uma das cadeiras ocupada por uma potência vinte vezes maior do que todos os países componentes do Mercosul.

O desequilíbrio do acordo do Mercosul com a UE é patente. E o Brasil é uma economia diversificada, com um mercado interno que pode significar oportunidades, e uma grande cesta de negócios para relações bilaterais com mais de duzentos outros países. Negociações bilaterais e acordos pontuais, baseados em vantagens comparativas reais, sempre se mostraram mais flexíveis e eficientes. É assim que grandes potências negociam. Com a Europa, é melhor negociar com cada um dos países europeus, e não com a União de todos eles.

Nesse sentido, ingressamos com uma proposta legislativa junto à Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado Federal para que o Congresso Nacional, que tem o poder constitucional de ratificação, rejeite o acordo do Mercosul com a UE, pelos grandes riscos que não justificam as pequenas vantagens, vantagens estas que vão beneficiar mais especificamente um seleto grupo de grandes players do agronegócio. Está na hora de o Brasil se preocupar com sua soberania de verdade, não a ideológica no campo geopolítico, mas a geoeconômica, que é a base que garante de fato a autonomia das nações. Trata-se de uma lição antiga, de Thomas Jefferson, que recomendava o comércio bilateral como forma de autopreservação.

Thomas Korontai é jornalista, empresário e coordenador nacional da Liga Federalista Nacional.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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