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O agro brasileiro entra em 2026 sustentado por bases sólidas de produção, tecnologia e demanda, mas diante de um cenário que exige atenção redobrada em gestão e financiamento. Depois de um ciclo de expansão expressiva, o setor vive um ponto de virada que combina eficiência produtiva, inovação e novas fontes de capital. O Brasil tem diante de si a oportunidade de consolidar sua posição como potência agroambiental, desde que saiba equilibrar crescimento e sustentabilidade.
Projeções indicam que a produção do agro nacional deve crescer cerca de 40% entre 2023 e 2026, segundo estimativas de consultorias e do Ministério da Agricultura. Esse avanço não se apoia apenas na ampliação de áreas, mas na adoção de tecnologia, insumos de alta performance e manejo inteligente. As novas fronteiras do agro do país, como Maranhão, Pará e Tocantins, mostram como a produtividade tem sido o principal vetor do crescimento, impulsionada pela modernização do campo e pelo uso intensivo de dados e inovação.
O Brasil chega a 2026 com uma combinação rara de vantagens: capacidade produtiva crescente, tecnologia em rápida evolução e demanda global consistente. O desafio é transformar esse potencial em resultados
A sustentabilidade do agro também deixou de ser um tema acessório para se tornar fator central de competitividade. Produtores que adotam práticas ambientais corretas, rastreabilidade e governança robusta já conquistam melhores condições de financiamento e maior acesso a mercados internacionais. O movimento global de valorização de cadeias produtivas transparentes reforça a importância de integrar práticas ESG ao coração da estratégia de negócios.
No plano da demanda, o Brasil segue bem posicionado para atender o crescimento do consumo global de alimentos, energia limpa e proteínas. A China e outros mercados asiáticos continuarão como principais destinos das exportações brasileiras, mas as exigências internacionais por comprovação de origem e sustentabilidade estão mais rígidas. O país tem a chance de fortalecer sua imagem como fornecedor confiável, desde que garanta conformidade ambiental e eficiência logística. Internamente, a diversificação do consumo e o avanço dos biocombustíveis, como o etanol de milho, ampliam as oportunidades no mercado doméstico.
O grande desafio do agro para 2026 estará no financiamento. O crédito rural tradicional, embora relevante, enfrenta limitações diante da alta dos juros e da pressão orçamentária. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, o Plano Safra 2025/2026 disponibilizou R$ 516,2 bilhões em crédito, o maior volume da série histórica. Ainda assim, o número reforça o tamanho do desafio, pois a demanda por financiamento rural cresce em ritmo superior à capacidade orçamentária, exigindo que o mercado de capitais ganhe protagonismo nesse novo ciclo de expansão do setor.
O movimento de securitização reflete essa nova realidade. Em 2018, as emissões somavam cerca de R$ 6 bilhões em CRAs e R$ 16 bilhões em FIDCs, segundo dados de mercado. Seis anos depois, em 2024, esses volumes saltaram para R$ 41,2 bilhões e R$ 81,4 bilhões, respectivamente, mantendo ritmo forte em 2025. A escalada evidencia o apetite de investidores por ativos ligados ao agronegócio e a consolidação do mercado de capitais como pilar essencial de financiamento do campo.
Ao mesmo tempo, cresce o apetite por financiamento verde. Operações vinculadas a práticas sustentáveis, rastreabilidade e redução de impacto ambiental tendem a oferecer condições mais competitivas. Isso cria um incentivo concreto para que o ESG se torne parte do modelo de negócio do agro, e não apenas um selo reputacional.
Para quem atua no agro, o foco deve estar em três frentes: produtividade, diversificação e gestão de risco. O uso de seguros, operações de hedge e armazenagem própria ajudam a proteger margens em períodos de oscilação de preços e clima. A diversificação também é essencial, tanto em culturas quanto em canais de financiamento. Depender apenas do crédito subsidiado é um risco em um ambiente de juros ainda elevados.
O Brasil chega a 2026 com uma combinação rara de vantagens: capacidade produtiva crescente, tecnologia em rápida evolução e demanda global consistente. O desafio é transformar esse potencial em resultados sustentáveis, com rentabilidade previsível e competitividade internacional. Navegar o novo ciclo do agro exigirá mais do que crescer em volume. Será preciso crescer com eficiência, governança e propósito.
Marcelo Linhares é gestor de Portfólio Agro da FlowInvest.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



