Se são cada vez mais raros os que afirmam que as mudanças climáticas não são inequívocas, são inexistentes aqueles que não admitem que o debate sobre as mudanças climáticas é inequívoco. E mesmo que a população em geral ainda não tenha se manifestado de forma contundente sobre o assunto, os grupos mais interessados nesse debate vêm expressando sua opinião há algum tempo em jornais, revistas e outros meios, e de forma mais intensa às vésperas da esperada COP-15, em Copenhague.
Discutir mudanças climáticas tem significado discutir emissões de carbono. Governos, ONGs, empresas e cientistas apresentam suas versões de qual é a melhor maneira de combater o aquecimento global e suas consequências, provavelmente resultantes do desenvolvimento da sociedade industrial. Entretanto, apesar de aparentemente buscarem o mesmo resultado a redução das emissões de CO2 esses grupos apresentam argumentos diferentes para sustentar suas posições. Quando defendem com unhas e dentes a redução das emissões de CO2, parecem estar preocupados com outras situações, quase "invisíveis a olho nu".
Comecemos pelos países e seus governantes: a verdadeira discussão é muito maior do que a simples redução das emissões, pois se trata, antes, de garantir o desenvolvimento social e econômico de cada nação. Preocupação oportuna e necessária, mas até que ponto mais importante do que a garantia da manutenção da vida e da biodiversidade? Além disso e até um pouco mais grave é que as promessas de cada país não demonstram o quanto cada um conseguiria realmente reduzir, mas sim o quanto disposto a fazê-lo, sempre em comparação com as ações, as iniciativas e a "culpa histórica" dos outros países. A decisão é nitidamente mais política e econômica que ambiental, pois se o interesse do planeta estivesse em jogo, metas já estariam definidas a algum tempo. O Brasil, diferentemente de alguns países desenvolvidos, tem apresentado uma imagem positiva, com a promessa de metas externas consideráveis em Copenhague.
Já as ONGs parecem observar a discussão sobre as emissões de forma cautelosa. Talvez estejam testemunhando mais um exemplo de como a sociedade fracassa quando o bem de todos é o único objetivo comum. Elas dificilmente se mostram satisfeitas com as propostas anunciadas de redução das emissões, pois sabem que ainda é muito pouco para "salvar o planeta". É por isso que têm aumentado a sua participação nesse processo, ajudando empresas e governos (com uma "consultoria climática"), e alertando a população para a relevância do assunto.
Como as ONGs, as empresas estão mais atentas aos desafios trazidos pelas mudanças climáticas e pelas emissões de CO2. Em iniciativa considerada histórica pelo ministro Carlos Minc, 22 grandes empresas nacionais elaboraram uma "Carta Aberta ao Brasil sobre Mudanças Climáticas", na qual assumem uma série de compromissos climáticos.
Para as empresas, contudo, o interesse nas emissões de carbono pode ser entendido como uma nova oportunidade para aliar interesses econômicos e socioambientais. Primeiramente, porque para diminuir fisicamente as emissões de CO2 são necessários desenvolvimentos em eficiência (energética e de processos) e inovação tecnológica. Vale ressaltar que eficiência e inovação fazem parte da agenda estratégica das organizações há muito tempo e não são novos valores adquiridos recentemente. Em segundo lugar, porque a redução das emissões pode gerar ganhos com o mercado de carbono e com os benefícios de imagem e porque a adequação às futuras metas nacionais de redução deverá evitar perdas financeiras.
Os estudiosos do clima parecem representar um dos poucos grupos que entendem as emissões de CO2 no seu sentido mais "puro". Eles as apresentam como uma das variáveis que influenciam o equilíbrio do sistema climático. Talvez a mais importante, mas não a única. Nas diversas pesquisas e relatórios nacionais e internacionais (como o do próprio IPCC) afirma-se que muitos dos problemas previstos como consequências das mudanças climáticas só poderão ser resolvidos juntamente com outras mudanças, como o aperfeiçoamento da infraestrutura urbana e a alteração no estilo de vida das pessoas, por exemplo.
Como vemos, os grupos que podem definir como a sociedade deverá enfrentar as mudanças climáticas têm opiniões e interesses diversos. Não se quer aqui avaliar se cada um deles está correto ou não. Todos têm bons argumentos para defender seu posicionamento e o debate só será produtivo e bem-sucedido se realmente considerar os mais variados interesses. Se bem que em se tratando de mudanças climáticas, seria muito bom se "os mais variados interesses" não fossem tão variados assim...
Leonardo Silveira Conke, mestre em Administração de Empresas pela Universidade Federal do Paraná, é professor universitário.



