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Era um jovem estudante universitário quando li o livro Saber ver a Arquitetura, de Bruno Zevi (1918-2000). É um livro bem escrito, rico, claro e objetivo – uma leitura deliciosa. A tese central do autor é que o espaço interior constitui a essência da arquitetura. É esse espaço – que inclui e envolve o homem, onde ele vive – que distingue a arquitetura das outras artes, como a pintura e a escultura.
“A bela arquitetura será a arquitetura que tem um espaço interior que nos atrai, nos eleva, nos subjuga espiritualmente [...]. O importante, porém, é estabelecer que tudo o que não tem espaço interior não é arquitetura”. A apreciação da arquitetura deverá ser feita, principalmente, a partir da qualidade do seu espaço interior, mas sem desconsiderar seus valores “econômicos, sociais, técnicos, funcionais, artísticos [...] e decorativos”.
Em um de seus livros posteriores, Architettura in Nuce, Zevi reafirma o espaço interior como essência da arquitetura e aprofunda a discussão. O espaço arquitetônico “não é fixo nem rígido: é o espaço-tempo que se experimenta na leitura dinâmica das sequências arquitetônicas”, das “infinitas sucessões mediante as quais se pode fruir um espaço”.
Há algumas ideias fundamentais e interdependentes apresentadas por Zevi. 1) Cada arte possui uma qualidade própria e necessária – sua essência. É esta qualidade que a distingue das demais artes; 2) Está implícita a ideia de que a essência de uma arte lhe será exclusiva; 3) A avaliação crítica de uma arte não poderá desconsiderar as suas demais qualidades, ainda que seja justamente a essência o fator de convergência dessas qualidades.
Antes de Zevi, Gotthold E. Lessing (1729-1781) propôs distinção mais ampla, entre dois espectros artísticos: o da pintura englobando as artes plásticas em geral, e o da poesia, incluindo as demais artes escritas. Ambas produziriam no público o prazer por meio da beleza, mas de modo distinto. Embora Lessing não trate especificamente da arquitetura, sua reflexão reforça a ideia de que cada arte possui meios e características que lhe são próprios.
Essa especificidade dos meios das artes torna-se ainda mais clara quando consideramos as diferenças entre pintura, escultura e arquitetura. Zevi afirma que: “O espaço físico está para a arquitetura como uma tela para a pintura, um bloco de pedra para a escultura, ou uma folha de papel e um vocabulário para a poesia [...]”. O espaço físico é, portanto, a matéria-prima a partir da qual o arquiteto concebe e organiza o espaço interior arquitetônico, vivido e fruído pelo homem, e resultado essencial desta arte.
Ainda segundo Zevi, “o fenômeno do espaço interno é substancialmente original: as cavidades, os vazios arquitetônicos, são indefiníveis no âmbito das quatro dimensões da pintura e da escultura e portanto da espacialidade figurativa”. É importante ressaltar que, embora a ênfase no espaço interior como essência da arquitetura seja mais explícita em Zevi, a ideia do espaço – sem necessariamente o adjetivo “interior” – como sua essência aparece em outros autores, como os arquitetos Affonso Eduardo Reidy (1909-1964) e Bernard Tschumi (1944-).
Há, entretanto, pontos de vista concorrentes, como o de outro arquiteto, Kenneth Frampton (1930-), que enxerga na manifestação poética da forma estrutural e construtiva a essência da disciplina. Se Lessing contribui para compreender a especificidade das artes, Hegel (1770-1831) amplia essa discussão ao situar arte, religião e filosofia como diferentes formas de apreensão de uma mesma realidade; no caso, o Absoluto, que, segundo Frederick Copleston (1907-1994), é, em Hegel, equivalente à ideia de Deus na consciência cristã.
A potência da arquitetura se atualiza no espaço interior organizado, pleno em efetividade. O bem da arquitetura é atingido quando o espaço interior é organizado e vivenciado com excelência.
Mas é Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) quem nos oferece a fundamentação do conceito de essência. Na Metafísica, afirma que a essência (ousía, ou ainda, tò tí ên eînai) é a causa (aitía) intrínseca do ser e que sua eventual eliminação o descaracterizaria. Entendemos que, ao afirmar que a essência designa algo uno (hén) e “um certo isto” (tóde ti), Aristóteles se refere a algo determinado, com identidade própria, que não pode ser eliminado sem que o todo deixe de existir.
É importante apresentar também os conceitos aristotélicos de “por si mesmo” (kath'hauto) e “acidental” (symbebekós). Interpretamos “por si mesmo” como aquilo que decorre da essência de algo, em oposição ao que lhe é acidental.
Aristóteles afirma ainda que o ato ou efetividade (enérgeia) corresponde ao ser ou existir (eînai) efetivo de algo quando este já está realizado, e não apenas em potência (dynámei), e que as potências são específicas e determinadas. Como exemplo, menciona a saúde e a cura: “só pode ser curado o que é capaz de ser curado e, por isso, tem a saúde em potência”. Assim, um campo do conhecimento, seja uma arte (téchne) ou uma ciência produtiva (epistḗmē poiētikḗ), possui uma potência (dýnamis) própria, decorrente de sua essência (ousía), que somente alcança efetividade (enérgeia) quando realizada.
Na Ética a Nicômacos, Aristóteles discute os conceitos de função própria (érgon) de algo, orientada para uma finalidade (télos). Apenas quando essa função é exercida e essa finalidade é alcançada de forma adequada, com excelência (areté), atinge-se o bem (agathón). Esse é o significado específico de “bem” em Aristóteles, que não se confunde com a noção contemporânea de “bem” como aquilo que é moralmente certo, em oposição ao errado ou ao mal.
Em nosso entendimento, esses conceitos podem ser organizados como parte de um encadeamento mais abrangente, que se inicia na essência (ousía) de algo, mas relaciona também outros conceitos desenvolvidos na Metafísica (dýnamis e enérgeia) e aqueles que aparecem com maior destaque na Ética a Nicômacos (érgon, télos e agathón).
Aristóteles defende que toda arte, investigação, ação e propósito visam algum bem (agathón), cada qual em seu próprio campo, como a medicina, a estratégia ou a arquitetura. No caso do ser humano, esse bem supremo seria a felicidade (eudaimonía).
Mas será que Zevi baseou sua formulação da essência da arquitetura em Aristóteles? Em Saber Ver a Arquitetura não há citações a Aristóteles, e as duas únicas citações diretas a ele em Architettura in Nuce não tratam da essência. De todo modo, os conceitos aristotélicos ajudam a compreender a ideia de essência e suas relações, tanto na arquitetura quanto em outras áreas do conhecimento. Vamos aplicá-los à arquitetura, tomando o espaço interior como sua essência e interpretando os demais conceitos a partir dessa essência.
A potência da arquitetura se atualiza no espaço interior organizado, pleno em efetividade. Sua função própria é organizar espaços, tendo por fim permitir a vivência adequada do espaço interior. O bem da arquitetura é atingido quando o espaço interior é organizado e vivenciado com excelência.
Podemos proceder de maneira análoga com a religião. Partimos da hipótese de que ela também possui uma essência, e que essa essência não pode residir no profano, no mundano ou no material, mas no sagrado, no divino e no espiritual.
Na Suma Teológica, São Tomás de Aquino (1225-1274) escreve que a religião implica orientação e culto a Deus. Os atos interiores são os principais, enquanto os exteriores são secundários e subordinados a eles. Os atos interiores são a devoção – entrega e dedicação a Deus –e a oração. Entendemos os atos exteriores como aqueles relacionados às coisas materiais.
Esse entendimento é reforçado pela citação de Santo Agostinho (354-430), segundo o qual a “Religião propriamente não se aplica a outro que não seja o culto a Deus”, ou, ainda, na afirmação de que são especialmente designados religiosos aqueles que, além de prestar culto a Deus, afastam-se dos negócios mundanos.
Na encíclica Deus caritas est, Bento XVI (1927-2022) afirma que, na Igreja, o amor suscitado pelo Espírito de Cristo oferece aos homens conforto espiritual – necessidade especificamente humana que pode ser mais importante que o próprio apoio material – em contraste com visões que reduzem o homem à satisfação de suas necessidades materiais.
Essa primazia da dimensão espiritual é reforçada pela afirmação de que “O amor – caritas – será sempre necessário, mesmo na sociedade mais justa”, pois, ainda assim, haverá sofrimento, solidão e necessidade de consolação e ajuda.
Por outro lado, Bento XVI não desconsidera as necessidades materiais, que só podem ser atendidas por um “amor concreto ao próximo”, e argumenta que “Só o serviço ao próximo é que abre os meus olhos para aquilo que Deus faz por mim e para o modo como Ele me ama”. Cita como exemplo a Beata Madre Teresa de Calcutá. O efeito desse amor e desse serviço, portanto, é benéfico tanto para quem ama e serve quanto para quem os recebe.
Papa Francisco (1936-2025) elogia outro trecho desta encíclica de Bento XVI: “Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa [Cristo] que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo”. Fala na “transformação das diversas realidades terrenas”, na justiça social, na urgência “de resolver as causas estruturais da pobreza” e critica a “autonomia absoluta dos mercados” e a “especulação financeira”.
Os textos de Aquino e Bento XVI certamente fundamentam a ideia de uma prevalência do espiritual sobre o material na religião. Os de Francisco, embora deem maior ênfase às questões sociais, tampouco refutam essa ideia.
A preocupação em estabelecer uma essência espiritual da religião pode ser interpretada como um descuido em relação à questão social, assim como uma aparente predileção pelas questões sociais poderia ser confundida com a minimização das necessidades espirituais do ser humano. Os textos examinados, entretanto, sugerem que essas duas dimensões não são excludentes, embora recebam ênfases distintas.
Além de estabelecer a essência da religião – ou das religiões – é necessário avançar mais, com o objetivo de compreender melhor a relação entre o espiritual e o material, o agir no mundo concreto.
De forma geral, nas religiões a ética está ligada ao plano religioso de forma inseparável. Mas de que ética estamos falando? A palavra “ética” provém do grego êthos (modo de ser ou caráter), enquanto “moral” deriva do latim mores (costumes). Na Antiguidade, especialmente em Aristóteles, não havia distinção clara entre ambos os termos, sendo frequentemente utilizados como correspondentes.
Adolfo Sánchez Vázquez (1915-2011) afirma que “o significado etimológico de moral e de ética não nos fornecem o significado atual dos dois termos”. Para ele, a ética consiste na reflexão filosófica sobre as “práticas morais já em vigor”. Hans Jonas (1903-1993), por outro lado, propõe uma ética explicitamente normativa, com o objetivo de orientar a ação humana diante do novo poder tecnológico. Também as tradições aristotélica e cristã entendem a ética como um guia para a conduta humana. É predominantemente nesse sentido que empregaremos o termo.
Segundo Huston Smith (1919-2016), religiões como o judaísmo, o islamismo, o cristianismo, o hinduísmo, o budismo e o confucionismo apresentam uma base ética voltada para a valorização das virtudes e do bem. Jordan Peterson (1962-) explicita a dimensão ética da religião ao afirmar que ela é “mais antiga e profunda do que a ética”, por se preocupar com o bem e o mal como arquétipos do certo e do errado.
Joseph Campbell (1904-1987) considera que as religiões perderam sua capacidade de proporcionar uma experiência mística ao deslocarem o foco da dimensão espiritual para as preocupações éticas e sociais; considera também que as religiões permanecem presas a “outra era, outras pessoas, outro sistema de valores humanos”. Os mitos, por outro lado, devido a seu caráter simbólico, flexível, conseguem “se harmonizar com as necessidades morais da vida real, no tempo, aqui e agora”.
O problema dessa perspectiva é que o ser humano religioso não experimenta a oração, os ritos ou os textos sagrados como meros símbolos ou manifestações culturais, mas como meios de participar de uma realidade divina. A vida espiritual pressupõe, justamente, que a realidade não se esgota em sua dimensão material. De outra forma, a experiência seria meramente psicológica, e a religião se reduziria a um mito. Toda religião implica a crença em uma verdade transcendente. Enquanto os mitos podem ser reinterpretados livremente, por serem reconhecidos como narrativas simbólicas, a religião não pode alterar arbitrariamente seu conteúdo sem deixar de afirmar aquilo que considera verdadeiro.
Entendemos que a ética – baseada na virtude e na busca do bem para si mesmo e para os demais – é uma decorrência necessária (kath’hauto) da religião, e que a ausência desta qualidade a descaracteriza como tal.
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No caso específico do cristianismo, a caridade, entendida como amor a Deus, também pode ser considerada um kath'hauto da essência da religião, enquanto o amor ao próximo, que decorre, segundo Tomás de Aquino, desse amor a Deus, pode ser interpretado como um kath'hauto secundário.
Em potência teríamos as ações que refletem esse amor ao próximo no mundo concreto, atualizadas em ato no perdão, na misericórdia, na empatia, no abraço sincero e na “ajuda material aos necessitados” – este o sentido corriqueiro da palavra caridade.
Ressalta-se, no entanto, que não estamos afirmando que a ética seja uma característica exclusiva das religiões. O que defendemos é que a religião deve se orientar para o bem e apresentar uma ética que reflita essa orientação. Se um sistema espiritual não distingue entre bem e mal – ou admite o mal como fim legítimo – deixa de realizar uma das decorrências de sua essência: a ética, que se realiza na conduta moral apropriada.
A busca do bem ou a rejeição do mal não está presente apenas no cristianismo ou nas religiões ocidentais. Dentre os Cinco Preceitos do Budismo, por exemplo, estão não matar e não roubar.
Se a essência de um campo do conhecimento – ou da religião – lhe é distintiva e exclusiva, sua atividade deve estar voltada para essa essência, pois, de outra forma, será negligenciada e não se realizará plenamente. Vemos essa ideia de responsabilidade implícita nos conceitos aristotélicos. Afinal, a natureza do que é “em potência” é tornar-se “ato”. Jonas afirma que “a responsabilidade é um correlato do poder, de maneira que a dimensão e a modalidade de poder determinam a dimensão e a modalidade da responsabilidade”. No limite, se um ser humano, uma instituição, uma religião ou um campo do conhecimento é o único capaz de agir para fazer um bem ou impedir um mal, essa ação passa a ser sua responsabilidade.
O fato de a ética não ser exclusiva das religiões, mas poder existir de forma independente e se manifestar em filosofias de vida não religiosas, reforça o motivo pelo qual não é ela, mas a espiritualidade, a essência da religião.
Tanto a conduta moral quanto o auxílio material aos necessitados são ações práticas no mundo material. Fora do contexto cristão, podemos considerá-las igualmente decorrentes da ética. No entanto, escrevendo a partir da filosofia cristã, é impossível desconsiderar o conceito de caridade como amor a Deus, o consequente amor ao próximo e, por fim, as ações materiais que atualizam ou realizam esse amor.
Também o auxílio aos pobres por meio de ações sociais – presente ao longo de toda a história do judaísmo e do cristianismo, por exemplo – não é exclusividade das religiões. Homens e mulheres ateus participam de programas de voluntariado em organizações não governamentais ou atuam diretamente em favor de pessoas que precisam de ajuda.
Se estiver correta nossa interpretação de que a essência da religião é a relação com o divino – a transcendência, a experiência espiritual – e que essa é sua única característica exclusiva, parece-nos indiscutível que qualquer religião que descuide do aspecto espiritual estará descumprindo sua responsabilidade fundamental, negligenciando seus seguidores e perdendo sua própria razão de ser.
Zevi afirmou que “tudo o que não tem espaço interior não é arquitetura”. De modo semelhante, propomos que tudo o que não tem como essência a relação do homem com o divino, e como sua decorrência necessária a ética, tampouco é religião. As necessidades espirituais do ser humano são reais e precisam ser atendidas. Certamente não são menos importantes do que suas necessidades materiais.
Paulo Bernardelli Massabki é arquiteto da USP desde 2001; atualmente na Superintendência do Espaço Físico (SEF-USP). Mestre pela FAU-USP, atuou como docente na Universidade de Guarulhos. É autor de projetos arquitetônicos institucionais e de artigos com temas variados.



