Minha esposa e eu, vínhamos conversando e ouvindo música em viagem de São Paulo para Curitiba, depois de um feriado memorável com familiares, lá. De repente, um barulho surdo de roda batendo em um buraco, dificuldade de direcionar o carro e, ao parar, pneu rasgado, roda entortada. Isto seria um acontecimento insólito mas corriqueiro, se não tivéssemos mais três carros parados à beira da rodovia com o mesmo problema. Alguns deles com dois pneus rasgados e rodas entortadas. Trocar uma roda não é tão difícil assim, mas quando duas rodas são danificadas por buracos na estrada... Enquanto trocava a minha única roda danificada, mais dez veículos pararam nas mesmas condições. Estacionávamos espremidos no estreito acostamento, antes de uma ponte, sinalizávamos aos passantes, ficávamos com o corpo na pista para trocar a roda. Era uma "festa" macabra quando um parava, procurávamos logo saber se era só uma roda danificada, um pneu rasgado, ou os dois. Eram casais, moças, velhos e crianças chorando impacientes. A solidariedade estava presente, ajudávamos uns aos outros, dávamos carona uns aos outros, lamentávamos uns com os outros, perguntávamos uns aos outros de quem era esta falta de responsabilidade. Borracheiros das imediações faziam a festa alguns já ofereciam pneus novos no local onde éramos vitimados, algo como agentes funerários na porta do hospital.
Feita a troca da única roda, seguimos viagem: ia bem continuando a conversa e a música até que outro buraco no meio da pista aniquilou outra roda e nossos planos de chegar cedo em casa. Íamos chegar logo após o por-do-sol chegamos mais de uma hora da madrugada, de taxi, o carro guinchado para a concessionária. A conta, além de onerar o próximo seguro, foi de R$ 2.300, incluindo pneus, conserto de rodas, peças da suspensão, rolamento, balanceamentos e alinhamento.
Por um breve momento falamos: deveríamos ter ido de avião e alugado um carro lá seria mais barato; mas será que teríamos chegado na hora? Nosso vôo não teria sido cancelado ou atrasado indefinidamente? Não teríamos perdido boa parte do feriado neste transporte, em vez de estar com a família?
Esta tem sido a sina de inúmeros brasileiros, vítimas da armadilha de falta de infra-estrutura de transporte. Pensando bem, não é só de transporte, mas também de saúde, de educação, de segurança, de previdência, de... Bons mesmo, nosso governo federal o é na arrecadação, que bate recordes todo mês.
De quem é a responsabilidade? A esta altura está claro: de governantes (neste caso federais) que gastam os proventos de impostos altíssimos no custeio da máquina pública, e não fazem os investimentos necessários e indispensáveis para um mínimo de segurança e conforto dos cidadãos. No caso da Régis Bittencourt (BR-116), que acabou de ser privatizada depois de anos de inércia ideológica de um governo federal que questionava o óbvio, é terra de ninguém: o DNER (que por sinal deve pagar pelos estragos nos carros) não investe porque privatizou, e a OHL não investe porque ainda não assumiu. Terrível transição. Enquanto as lentas engrenagens do setor público não entregam benefícios, os cidadãos sofrem, pagam, se atrasam, têm acidentes. O Brasil perde.
Até quando aceitaremos passivamente inconsistências como esta? É hora de exigirmos o bom uso de nossas elevadas contribuições fiscais e previdenciárias. É hora de mudarmos. É hora de não mais aceitarmos descalabros administrativos que punem implacavelmente os cidadãos indefesos, reféns da ineficiência pública. É hora de usarmos o poder do voto, do protesto, da gritaria, para salvar vidas, e finalmente criar a ordem e o progresso estampados em nossa bandeira!
Roberto Costa de Oliveira é empresário e presidente da Visão Mundial do Brasil.



