
Ouça este conteúdo
Basta ligar a televisão, acessar as redes sociais ou acompanhar uma partida de futebol para ser bombardeado por propagandas de sites de apostas esportivas. As chamadas "bets" tornaram-se onipresentes no cotidiano dos brasileiros, prometendo entretenimento e, acima de tudo, a ilusão de ganhos financeiros rápidos. No entanto, o que se vende como diversão está cobrando um preço altíssimo do país, drenando recursos que deveriam pavimentar o futuro da nossa juventude e transformando-se em uma barreira direta para a educação.
Segundo um estudo publicado recentemente pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), realizado em parceria com a Educa Insights, quase 1 milhão de brasileiros estão sob o risco direto de ficar de fora do ensino superior privado já no primeiro semestre de 2026 por conta do vício e do endividamento com apostas on-line, as famosas "bets". O cenário é tão crítico que um em cada três jovens (cerca de 34%) confessa abertamente que precisaria interromper os gastos diários nas plataformas de apostas para conseguir iniciar uma graduação.
É urgente que o debate sobre as bets deixe a marginalidade do entretenimento e ocupe o centro das políticas públicas. Regulamentar a publicidade agressiva, promover a educação financeira nas escolas e oferecer suporte psicológico aos jovens são passos inadiáveis
O levantamento não apenas projeta o esvaziamento futuro das salas de aula, mas mostra que o estrago já é uma realidade: entre os alunos que já estão matriculados em faculdades particulares, 14% admitiram ter atrasado o pagamento de mensalidades ou chegado ao extremo de trancar o curso para pagar dívidas de jogo.
O perfil do apostador que está trocando o futuro profissional pela roleta virtual é bem desenhado: a maioria é formada por homens, trabalhadores, entre 26 e 35 anos, com filhos e egressos de escolas públicas. Em termos regionais, o impacto é mais devastador no Nordeste e no Sudeste, onde, respectivamente, 44% e 41% dos entrevistados associam o adiamento da faculdade aos gastos com as bets.
A desigualdade social também é um fator agravante nesta crise. Embora os jovens da classe A gastem valores absolutos maiores (uma média de R$ 1.210 mensais), a fatia da renda comprometida pesa muito mais nas classes C, D e E, cujo gasto médio é de R$ 421. Entre os mais pobres, cresceu substancialmente o número de indivíduos que destinam mais de 10% de todo o seu orçamento mensal às plataformas de apostas, criando um ciclo de endividamento do qual é difícil escapar.
Os danos ultrapassam as fronteiras da educação e já configuram um grave problema de saúde pública. Especialistas em psiquiatria alertam que as apostas on-line ativam as mesmas áreas de prazer e recompensa que as drogas, tornando os jovens extremamente vulneráveis ao vício, por ainda estarem em uma fase de amadurecimento cognitivo. O comportamento compulsivo já afeta a economia local e a qualidade de vida: além de não estudarem, quase 29% desses jovens deixaram de sair com amigos ou frequentar restaurantes, e 24% cortaram despesas com academias e atividades físicas para poder continuar apostando.
VEJA TAMBÉM:
Essas informações são ainda mais críticas quando consideradas no contexto de um país que já sofre com um atraso histórico e crônico no acesso ao ensino superior, lutando há décadas para qualificar sua força de trabalho e se tornar minimamente competitivo no cenário global.
Para se ter uma ideia, o Brasil possui apenas 24% dos jovens entre 25 e 34 anos com ensino superior completo, ficando para trás de países vizinhos como Peru (50%), Chile (41%) e Colômbia (35%), e muito atrás também da média dos países da OCDE, de 48%. Agora, as "bets" chegam como uma âncora, ajudando a atrasar ainda mais o país.
O Brasil encontra-se em um momento decisivo. Um país que aspira ao crescimento econômico, à inovação e à redução de suas profundas desigualdades sociais não pode assistir passivamente à sua força de trabalho futura trocar a sala de aula pelas plataformas de apostas. A evasão universitária e o endividamento precoce não são apenas problemas individuais de quem aposta; são uma fatura amarga que toda a sociedade pagará na forma de apagão de mão de obra qualificada e estagnação econômica.
É urgente que o debate sobre as "bets" deixe a marginalidade do entretenimento e ocupe o centro das políticas públicas. Regulamentar a publicidade agressiva, promover a educação financeira nas escolas e oferecer suporte psicológico aos jovens são passos inadiáveis. Afinal, o desenvolvimento de uma nação nunca foi e nunca será uma questão de sorte, mas sim o resultado direto do investimento sólido e inegociável na educação.
Antonio Esteca é especialista em Avaliação e Regulação da Educação Superior, avaliador do INEP/MEC e doutor em Psicologia. É CEO da Faculdade Metropolitana do Estado de São Paulo.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







