Os jogadores da seleção brasileira de futebol que, depois de perder mais uma final olímpica (que tédio...), disputaram um amistoso com a Suécia se recusaram a jogar com uma camisa igual à usada pela seleção de 1958 porque era muito pesada, feita de um tecido que incomodava os craques, acostumados aos maravilhosos sintéticos desenvolvidos pela Nike. Sem querer, eles tinham razão em dizer que a camisa era pesada. Pesada demais para esse espetáculo de incompetência coletiva em que se transformou a nossa seleção nas últimas décadas.
As camisas de Djalma Santos e Bellini realmente são demasiado pesadas para nossa bisonha zaga, que aceitou levar dois gols ridículos do México; e as de Didi, Zito, Orlando e Nilton Santos nunca caberão no nosso meio-campo, acometido de anencefalia coletiva, incapaz de armar um ataque inteligente, ou de variar de tática durante o jogo, insistindo monotonamente nas mesmas jogadas e nas mesmas firulas improdutivas. A camisa de Garrincha, nem pensar aposentou-se com o Mané e nunca mais encontrou um usuário à altura; a de Vavá, desbravador, levando e dando botinadas e fazendo gol atrás de gol, não se ajusta à fragilidade de nossos atacantes, a cair ao menor empurrão, mobili qual piuma al vento como a mulher na ópera famosa. E a de Pelé apesar da histeria de Galvão Bueno e outros patrioteiros ainda terá de esperar que Neymar coma alguns quilos de sal até que volte a ser usada.
Talento não falta entre nós em nenhuma área. Acontece que ele é permanentemente sufocado ou negligenciado pela cartolagem de dirigentes e "próceres". Por que os Estados Unidos são imbatíveis no basquete, na natação e na maioria dos esportes olímpicos? Porque existe um sistema que guia e apoia o talento desde cedo, nas escolas públicas, nas high schools, nas universidades onde os centros de treinamento de alta categoria abundam , nos clubes.
Aqui, o talento tem de vencer sozinho camadas e camadas de descaso para aflorar de maneira espontânea: Daiane dos Santos foi descoberta por acaso em uma praça de Porto Alegre por uma professora para fazer parte de uma geração promissora, que perdeu embalo; Gustavo Kuerten era um ilustre desconhecido do grande público até que ganhou o torneio de Roland Garros, inaugurando uma carreira excepcional, mas não teve sucessores à altura; João do Pulo e Joaquim Cruz não eram conhecidos antes de triunfar nos Jogos Olímpicos, mas não deixaram sucessores e o atletismo brasileiro continua obtendo os resultados pífios de todos os tempos.
Quem conhecia Arthur Zanetti antes de ele ganhar a medalha de ouro em uma das modalidades mais difíceis da ginástica? E Sarah Menezes, vinda do distante Piauí para ganhar o ouro no judô em Londres? Depois que esses talentos excepcionais surgem e vencem, adquirem instantaneamente muitos padrinhos e protetores, confirmando o que dizia o conde Galeazzo Ciano: a vitória tem muitos pais, a derrota é orfã...
Para Nelson Rodrigues, o brasileiro é o Narciso às avessas, que, em vez de se enamorar da própria imagem refletida na água, cospe nela. Não é o meu caso: quem teve o privilégio de ver as gerações de 1958 e de 1970 as melhores de todos os tempos despachar as maiores seleções nacionais sem grandes cerimônias tem o direito de não se deslumbrar com a mediocridade avassaladora que domina o futebol brasileiro de nossos dias.
Belmiro Valverde Jobim Castor é professor do doutorado em Administração da PUCPR.



