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O celular matou nossa atenção, mas a arte nos traz de volta a nós mesmos

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O celular conseguiu sugar nossos cérebros até ignorarmos toda a beleza que está diante de nós no mundo real. (Foto: Imagem criada utilizando Google Gemini/Gazeta do Povo)

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Estamos nos tornando analfabetos. Para muitas pessoas mais velhas, isso é verdade de uma maneira um tanto atenuada ou análoga. Quem cresceu antes da era da internet teve uma experiência diferente e, agora, estamos perdendo força intelectual à medida que nossa atenção se fragmenta diante do fluxo acelerado de estímulos em nossos mundos on-line.

Para os jovens, porém, “analfabeto” está se tornando um termo cada vez mais literal e preciso. A discussão em torno desse fenômeno está crescendo por toda parte, tanto presencialmente quanto na internet. Pelos relatos que circulam, professores e docentes universitários estão se deparando com níveis cada vez mais alarmantes de deterioração da vida interior e da formação intelectual daqueles a quem ensinam. Cada vez mais, muitos de seus alunos mal conseguem ler ou compreender aquilo que estão lendo, e o problema parece piorar a cada ano.

Coletivamente, nossa capacidade de atenção está se esvaindo, enquanto pessoas de todas as faixas etárias se agarram aos vídeos curtos como se fossem uma espécie de boia salva-vidas em um mar de caos. Assim, bloqueiam os “rumores de guerras e notícias de guerras”, tanto reais quanto simbólicos, e sinalizam uma ameaça apocalíptica constante e entorpecedora, enquanto tomamos nossos cafés.

O tempo dedicado à leitura está despencando, até mesmo entre acadêmicos e pessoas que antes liam e escreviam avidamente. Todos estão desaparecendo em uma nuvem de ruído incessante e simulacros. Somos Ulisses sem o mastro, vendo a vida inteira passar diante de nós enquanto permanecemos enfeitiçados pelas sereias tecnológicas.

Nossa capacidade de atenção está se esvaindo, enquanto pessoas de todas as faixas etárias se agarram aos vídeos curtos como se fossem uma espécie de boia salva-vidas em um mar de caos

Embora acredite ter algumas soluções, não estou imune a esse fenômeno e me tornei fascinada pelo experimento prolongado em que minha vida se transformou.

Quando os iPhones começaram a entrar na vida social das pessoas, eu estava mergulhada na leitura de Aristóteles, Tomás de Aquino e Bernanos, sublinhando avidamente passagens difíceis de Kant, aprendendo e ensinando polifonia e passeando por ruas de paralelepípedos e museus de arte em Viena nos raros dias de folga. Apesar da agenda lotada, quando precisávamos de uma pausa, nos reuníamos para jantares demorados, sem pressa para terminar. Enfrentávamos o frio brutal do inverno, conversando com os dentes batendo enquanto nos amontoávamos em torno de vinho quente nos mercados de Natal. Parávamos para conversar nas alamedas de cascalho, mesmo quando estávamos atrasados para a aula. Comprávamos leite e chucrute diretamente das fazendas locais. Rezávamos. Em algum momento daquelas semanas exaustivas, que consumiam 80 horas de trabalho, eu ainda encontrava tempo para compor canções regularmente. Eu não tinha a menor noção da transformação tectônica que estava ocorrendo longe daquele meu minúsculo canto do mundo, protegido por suas torres.

Fiquei chocada na primeira vez em que alguém tirou o celular do bolso no meio de uma conversa, por volta de 2014, depois que concluí meus estudos e voltei para o Canadá. Imediatamente, sem nem sequer piscar ou dar qualquer aviso, aquela pequena máquina portátil incinerou a conexão humana. Naquele dia, aprendi que uma máquina podia ser mais importante do que a frase que eu estava formulando especialmente para a pessoa que se encontrava diante de mim. Aprendi como o brilho sedutor daquela máquina podia nos roubar, com uma rapidez impressionante, tudo o que realmente importava.

Lutei para preservar a capacidade de atenção que, de maneira surpreendente, eu ainda não havia perdido, numa época em que ela já estava desaparecendo rapidamente entre outras pessoas. Não apenas não a havia perdido, como acontecia justamente o contrário: durante anos, eu a cultivara de maneira rigorosa e profunda. Minha vida inteira era pautada pela atenção concentrada, a ponto de chegar à exaustão. Eu sabia que ela havia sido conquistada com esforço e que era preciosa.

Quando cheguei a Los Angeles, em 2018, ainda tentando defender minha capacidade de atenção, senti alívio por estar em um lugar onde tantas coisas aconteciam. Assim, meu tempo livre poderia ser preenchido por pessoas, projetos artísticos e pela agitação da cidade, em vez de sucumbir à tentação cada vez maior daquele Golias que me convidava a passar a vida deslizando o dedo pela tela.

Mas, com os confinamentos provocados pelo vírus em 2020, e com minha vida verdadeiramente humana tão inteiramente dependente de relacionamentos e lugares fora de casa, acabei cedendo. Desde então, tenho observado a corrupção penetrar e transformar meu próprio tempo, minha vida e minhas maneiras de me relacionar com os outros.

Eu também estou, aos poucos, me tornando menos alfabetizada. Eu também estou, aos poucos, me tornando menos humana – menos profundamente envolvida com a realidade.

Não existe saída fácil para isso. Tudo o que temos é o caminho árduo de reconfigurar continuamente nosso cérebro em torno da realidade vivida de forma intencional, da presença e do trabalho da mente, do coração e do corpo. Não me escapa que o que está em jogo se tornou quase infinitamente mais importante com o uso ubíquo da inteligência artificial (e também não me escapa o fato de que tive uma dificuldade considerável para encontrar a palavra “ubíquo” – como era mesmo essa palavra? – e pedi ajuda à inteligência artificial).

Descobri que uma máquina podia ser mais importante do que a frase que eu estava formulando especialmente para a pessoa que se encontrava diante de mim

Acredito que encontros significativos com aquilo que é profundamente humano – sobretudo com as coisas que nos conduzem ainda mais fundo em direção à nossa própria essência e ao Divino – constituem a maneira mais eficaz de reacender nosso desejo por algo mais na vida, reconfigurando nosso cérebro e nosso coração para que se afastem do entretenimento compulsivo. Experiências artísticas reflexivas, especialmente aquelas que começam dando grande ênfase ao som e à imagem, parecem oferecer um caminho real de volta. Quando a mente pode estar debilitada pela letargia decorrente da atrofia da atenção, o coração ainda pode irromper das profundezas, respondendo a partir de um lugar menos suscetível à devastação imediata e fácil provocada pela guerra travada contra nossas vulneráveis sinapses neuroplásticas.

O envolvimento intencional com a arte, sobretudo com a obra de outras pessoas, que desperta e aguça nosso próprio desejo singular de criar, parece constituir uma ponte fundamental para o retorno. Com esse objetivo, embora tenha agido mais por intuição do que por um contraste deliberadamente estabelecido, criei, alguns anos atrás, meus Art Episodes: uma experiência guiada de contato com diferentes formas de arte, destinada a proporcionar, durante meia hora, a oportunidade de escolher a atenção, a reflexão, a presença e uma resposta pessoal.

Filmados mensalmente durante a pandemia de Covid, quando as possibilidades de trabalho em estúdio eram limitadas e eu precisava utilizar o espaço da minha própria casa, esses episódios carregam uma marca inconfundível da realidade imperfeita. Há pouco brilho artificial. Acredito que essa ausência de verniz se tornou cada vez mais uma qualidade, e cada vez menos um defeito, à medida que muitas pessoas se cansam da artificialidade dominante.

Agora, organizei esses episódios em formato de curso, convencida de que alguns encontros breves, mas concentrados e sinceros, com o universo da arte podem nos ajudar a recuperar um pouco de nossa humanidade. Um encontro significativo com algo profundo, belo e real, que convoque as partes mais autênticas de nós mesmos, pode transformar uma vida para sempre. Proporcionar esse encontro no ambiente em que vivemos hoje é um desafio que vale a pena enfrentar.

Um encontro significativo com algo profundo, belo e real, que convoque as partes mais autênticas de nós mesmos, pode transformar uma vida para sempre

Embora todos nós precisemos cada vez mais desse encontro do coração com a realidade, isso é especialmente verdadeiro para os muito jovens.

Muitos de nós ainda guardamos a lembrança de um mundo em que a atenção era o estado natural das coisas; em que o tédio era comum e oferecia um precioso espaço vazio para a inspiração; em que ainda não havíamos sido tão condicionados a esperar retornos e gratificações imediatos de coisas que nada exigem de nós. Percebemos que temos uma escolha diante de nós, mesmo quando costumamos ignorar as boas inspirações que nos levam a ler, rezar, desacelerar e viver profundamente. Precisamos de algo que nos ajude a recuperar o que perdemos e a escolher o bem que sabemos reconhecer.

Mas, para alguém que cresceu diante de uma máquina, em um espaço público em franca deterioração, em meio a uma febre de disputas políticas e divisões, e cercado pela desatenção de muitos dos adultos à sua volta – como aconteceu com a maioria dos nossos jovens –, precisamos oferecer esse presente de nossa memória enquanto ele ainda está ao alcance de sua visão.

Não posso, sozinha, dissipar a escuridão da desconexão, do analfabetismo crescente e de vidas preenchidas por uma rolagem infinita de telas. Mas, em meu trabalho como artista e, sobretudo, nesses encontros sinceros e reflexivos com a arte, posso oferecer uma pequena luz que indique o caminho de saída e, espero, deixe gravado nos corações um lembrete permanente de quem fomos e de quem ainda podemos nos tornar. Eu adoraria ver muitas pessoas – indivíduos, pais e professores – se beneficiarem desses encontros como uma ferramenta para começar o árduo trabalho de cultivar o solo das almas: a nossa própria e a daqueles que amamos.

Kay Clarity é uma escritora, cantora e compositora canadense que vive em Los Angeles, com mestrado em Teologia.

©2026 The Imaginative Conservative. Publicado com permissão. Original em inglês: Art as a Bridge Back to Ourselves

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